Agricultura 4.0

CENTROS DE PESQUISA EM INOVAÇÃO E DIFUSÃO DE TECNOLOGIA

Seguindo a linha de pensamento do texto sobre ciência, tecnologia e inovação na era do conhecimento, apresentado em edição anterior, no qual fiz uma análise do problema de ciência e inovação que possuímos no Brasil, verificamos que há uma grande oportunidade para a concretização de soluções em cima dos conhecimentos científicos que acumulamos nos últimos 50 anos. A engenharia se coloca como a grande candidata para absorver os conhecimentos e levá-los às soluções presentes e futuras da humanidade, e, consequentemente, soluções para a agricultura.

Neste sentido, percebe-se a existência de uma corrente para que haja uma maior aproximação da academia com o setor produtivo, ou seja, das empresas. Não que ainda não exista, mas o que se percebe recentemente é que grandes ramos da ciência, normalmente voltados exclusivamente em sua missão de gerar conhecimento e qualificação, passam a flertar com questões relacionadas à aplicação e a geração de tecnologias.

Um dos grandes exemplos disto é o fato de que as agências de fomento à pesquisa do Brasil, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), bem como o próprio Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), começaram a lançar editais de fomento para projetos de inovação envolvendo recursos públicos (das agências de fomento) e privados (de empresas parceiras da pesquisa), ou seja, não mais somente à pesquisa básica como de costume. Isto é praticamente inédito, pois, há pouco tempo, era visto como algo inaceitável.

A Fapesp já possui alguns em andamento como o Centro de Pesquisa Avançada de São Paulo para Controle Biológico (SPARCBio). O SPARCBio recebe financiamento mediante acordo entre a Fapesp e a Koppert, empresa de origem holandesa que está sediada em Piracicaba/SP desde 2011, sendo a sede do centro de pesquisa, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). Além deste, já rodam o Epic Reseach & Education (Unicamp e Equinor Óleo e Gás), o Research Centre for Gas Inovation (USP e Shell), o CerSusChem – Centro de Excelência para Pesquisa em Química Sustentável (Ufscar e grupo GSK), o Centro de Pesquisa em Bem Estar (USP, Unifesp, UPMackenze e Natura), o CPE Prof. Urbano Ernesto Stumpf (Unicamp e Grupo PSA – para motores bicombustíveis), o Cine – Centro de Inovação em Novas Energias (USP, Unicamp, IPEN e Shell), o Centro de Excelência em Pesquisa Básica Orientada (Instituto Butantã e Grupo GSK) e o Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (Unicamp e Embrapa). Ainda, encontram-se abertos mais três, com um de área de controle biológico, que nos interessa particularmente.

O Governo Federal, pelo MCTIC em colaboração com a Fapesp, também lançou o edital para os Centros de Pesquisa Aplicada (CPA) em Inteligência Artificial (IA), para a criação de oito centros relacionados a esta área no Brasil. Da mesma forma, 50% dos recursos virão do Governo e 50% de empresas parceiras, com projetos por até dez anos. Estes CPAs serão voltados para o desenvolvimento de pesquisas científicas, tecnológicas e de inovação, aplicadas e orientadas à resolução de problemas e que possam ser resolvidas com IA, com foco em saúde, agricultura, indústria e cidades inteligentes.

Desta forma, percebe-se a preocupação e transição do foco da pesquisa no Brasil, antigamente voltada exclusivamente para a geração de conhecimento e formação e, atualmente, com um olhar para a inovação tecnológica. Há de se comemorar muito em relação a isto, visto que estamos entre os primeiros países em publicações, na geração de conhecimento científico (15º no ranking mundial), próximos da Espanha, França, Japão, Austrália, Coréia do Sul e Itália, neste quesito. Em agricultura e em ciências biológicas ocupamos a quinta posição mundial, atrás apenas dos EUA, China, Reino Unido e Alemanha, sem mencionar ainda que somos a nona economia do mundo. Contudo, estamos em 66o lugar em inovação, dentre 129 países, segundo o Índice Global de Inovação (IGI). Na América Latina e Caribe, o Brasil é apenas o quinto, perdendo para Chile, México e Costa Rica, por exemplo. Contudo, o Brasil publica quase oito vezes mais artigos científicos que o Chile, quatro vezes mais que o México, mostrando a necessidade de foco da nossa pesquisa científica.

Resumindo, é a aplicação de recursos de pesquisa em projetos de inovação tecnológica pré-competititiva em parceria com empresas, que as tornarão mais inovativas e competitivas mundialmente. Hoje em dia, a competição tecnológica não é mais entre empresas, mas entre ecossistemas de inovação ao redor do mundo. Na agricultura tropical, o Brasil pode ser o detentor global de tecnologias.

Engenheiro-agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura