Reportagem de Capa

Novos ceNários da produção de grãos

As imensas potencialidades da agropecuária brasileira revelam não apenas sistemas avançados em regiões consolidadas, mas também possibilidades para a incorporação e a diversificação de atividades em áreas consideradas como novas fronteiras no País. Em estados do Norte e do Nordeste, surgem diferentes cenários de cultivo em que produtores e pesquisa valorizam as aptidões identificadas, ao mesmo tempo em que trabalham para superar desafios dentro e fora das propriedades

Denise Saueressig
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O produtor Everaldo Tenório plantou em maio a soja da próxima safra nas suas lavouras em Campo Alegre e Junqueiro, no Leste alagoano. Conhecido pela tradição da família na cana-de-açúcar, ele iniciou o investimento no grão há seis anos, em 50 hectares. Neste ciclo, são 500 hectares cultivados em um sistema de benefícios mútuos com a cana. “A cada seis anos, a cana precisa ser renovada, então plantamos a soja. Sempre considerei importante a diversificação, e os resultados positivos que alcançamos nos últimos anos estimularam o aumento da área”, declara um dos pioneiros do grão em Alagoas.

A produtividade da soja, que, nas primeiras safras, ficou em torno de 30 sacas por hectare, passou a uma média de 59 sacas/ha no ano passado. Na cana, são colhidas entre 10 e 15 toneladas a mais nas áreas que foram ocupadas pela oleaginosa no ciclo anterior. O objetivo é continuar ampliando o cultivo nos próximos anos. Hoje são 1,5 mil hectares de cana nas propriedades em Alagoas, e o projeto é arrendar terras para estabelecer em torno de mil hectares para a soja e outros mil hectares para a cana. “Além das áreas com a rotação, pretendo cultivar uma parte da lavoura com a soja por mais de uma safra”, detalha Tenório.

A qualidade do grão colhido é outro fator de estímulo para o investimento na cultura. Tanto que em torno de 15% das lavouras são ocupadas por campos registrados por uma sementeira com sede no Maranhão. A produção de grãos chegou a ser vendida para o exterior no primeiro ano de cultivo, mas, hoje, a maior parte da colheita – que é realizada em setembro – tem como destino as indústrias avícolas do Nordeste. A produção de carne de frango e ovos vem crescendo na região, e, consequentemente, a demanda por grãos utilizados na ração também, o que representa oportunidades para o avanço da agricultura. “As granjas ainda precisam adquirir muito de estados com produção de soja e milho mais expressiva, como a Bahia, o Maranhão e os do Centro-Oeste”, observa o produtor.

Everaldo Tenório também cria gado e planta soja e milho em uma fazenda em Redenção, no Sul do Pará. Em Alagoas, ele conta que um dos desafios é enfrentar os anos de déficit hídrico. “Normalmente, chove bem entre abril e final de agosto, mas é como no Rio Grande do Sul: às vezes, enfrentamos umas secas brabas”, compara. Como utiliza irrigação em parte da área de cana, o produtor também acionou os pivôs em uma parcela da lavoura de soja há dois anos, quando houve um período maior de estiagem.

Para favorecer as condições do solo e conseguir fazer o plantio direto, quando as chuvas colaboram, é cultivado o milheto no intervalo entre a colheita da cana e a semeadura da soja para a formação de palhada. “Evoluímos bastante no manejo nos últimos anos. A pesquisa vem nos ajudando com uma série de experimentos e orientações”, ressalta.

Potencial identificado

As propriedades do produtor alagoano fazem parte de novas paisagens da agricultura em uma região que ficou conhecida como Sealba, sigla que carateriza áreas em Sergipe, Alagoas e no Nordeste da Bahia. O estudo da Embrapa que delimitou a região considera 171 municípios e um total de 5.148.941 hectares. A ocorrência de chuvas em volumes acima de 450 mm no período de abril a setembro em pelo menos 50% da área total dos municípios foi o principal critério para traçar o perfil do Sealba.

Entre as potencialidades apontadas pelos pesquisadores, especialmente para a produção de grãos como soja e milho, estão fatores como: colheita em época diferenciada dos maiores produtores do País; aquisição de sementes de melhor qualidade de fornecedores do Centro-Sul e do Matopiba (regiões do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia), que colhem em março e abril; terceirização de máquinas agrícolas também dessas áreas; temperaturas mais favoráveis para o desenvolvimento da soja pela época de cultivo; altos teores de óleo e proteína da soja pela temperatura mais baixa nos meses de enchimento de grãos; relevo favorável à mecanização; proximidade de terminais portuários; e grande demanda de bacias leiteiras e granjas avícolas no Nordeste.

A análise sobre o Sealba também considerou o momento de crise do setor canavieiro, de forte presença em estados da região. O pesquisador Antonio Santiago, da Embrapa Tabuleiros Costeiros, relata problemas com o clima, redução de área plantada e fechamento de usinas nos últimos anos. “Percebemos muitas áreas cultivadas de forma pouco eficiente, com produtividade baixa, e que podem ser aproveitadas para o plantio de grãos”, sustenta. Uma das dificuldades para a transição, segundo ele, envolve uma questão de tradição. “A cana é mais rústica, enquanto os grãos precisam de adubação no momento certo, controle de plantas daninhas. É um trabalho bem diferente e que requer adaptação dos produtores”, constata.

Possibilidades para a semente

Santiago acredita que a expansão da diversificação no Sealba, tanto em áreas de pastagens degradadas – calculadas em 876 mil hectares – quanto em terras de cana, será um processo mais longo. “A região não deve ser uma nova fronteira como o Matopiba, mas pode representar um nicho para a produção de sementes, por exemplo. Podemos fornecer a semente de soja para o Centro-Sul e o Matopiba, que iniciam o plantio depois que nós colhemos, em setembro”, afirma. A vantagem é poder ofertar ao mercado um insumo que ficará estocado por pouco tempo. “A semente de soja, dependendo das condições de armazenagem, perde qualidade e vigor”, completa.

No ano passado, Alagoas registrou em torno de 65 mil hectares cultivados com grãos. Para este ano, a projeção é de cerca de 80 mil hectares, sendo que 12 mil devem ser representados por áreas tecnificadas de milho, soja e feijão, informa Hibernon Cavalcante, coordenador da Comissão Estadual de Grãos e superintendente de Desenvolvimento Agropecuário da Secretaria da Agricultura do estado. “São áreas que reúnem tecnologias e insumos modernos. Produtores experientes, principalmente de fora do estado e que trabalham com maior mecanização e práticas conservacionistas, como fixação biológica de nitrogênio e plantio direto”, enumera.

Embora a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indique o plantio de mil hectares de soja em Alagoas na safra passada, a Secretaria da Agricultura do estado estima que a área com a cultura tenha ficado em torno de 1,7 mil hectares. Neste ano, a expectativa de boa remuneração com o feijão deve influenciar na redução do plantio para aproximadamente 1,3 mil hectares. “A tendência para os próximos anos é de expansão para a soja, mas ainda estamos formando uma cultura da agricultura mais profissionalizada. É como um choque cultural que precisa de adaptação”, define Cavalcante.

O pesquisador Antonio Santiago considera os investimentos em infraestrutura de armazenamento e secagem como fundamentais para o avanço das áreas produtivas no Sealba. É preciso, também, melhorar a assistência técnica e a extensão rural, desenvolver novos materiais adaptados e ampliar os estudos sobre coberturas vegetais que possam ampliar o conhecimento sobre o plantio direto. “Entender melhor o mercado é outro ponto importante. Sabemos das cadeias das carnes e do leite, mas precisamos de um estudo mais refinado para identificar novos nichos”, raciocina.

O potencial identificado na região vai além do cultivo de grãos, que é liderado pelas lavouras de milho. Entre as demais possibilidades estão a implantação e/ou o incremento de áreas de integração lavoura-pecuáriafloresta, de cultivo de raízes e tubérculos, de fruticultura e de gramíneas energéticas, como o sorgo sacarino.

Avanço tecnológico

Números da Conab mostram que a produção de grãos nos estados do Norte e do Nordeste cresceu 91,6% entre 2015/16 e 2019/20, para mais de 32 milhões de toneladas. No mesmo período, a área plantada teve elevação de 11,25%, para 11,4 milhões de hectares, o que revela uma expansão mais concentrada no avanço da produtividade. Em anos de clima favorável, as lavouras de milho em Sergipe estão entre as que apresentam as melhores médias de rendimento do Nordeste. Segundo a Conab, em 2018/19, o estado chegou a liderar o ranking na região, com 5.191 quilos por hectare. Um ciclo antes, no entanto, uma forte seca derrubou a média para 808 quilos por hectare, ou pouco mais de 13 sacas/ha.

A área cultivada com o milho se mantém estável em Sergipe nas últimas três safras, entre 140 mil e 150 mil hectares. Os trabalhos da pesquisa no estado incluem estudos para promover sistemas que possibilitem, pelo menos, um esquema de sucessão com a soja para reduzir a dependência a apenas um cultivo.

Com áreas em Frei Paulo, no agreste sergipano, e em Paripiranga, município do Nordeste da Bahia que faz divisa com Sergipe, a família do produtor Anderson Jonnhy Barbalho Souza cultiva milho desde a década de 1990. Atualmente, são 1,1 mil hectares entre áreas próprias e arrendadas. A melhor média de produtividade nas áreas de Frei Paulo chegou a 152 sacas/ha, ou 9.120 quilos em 2017, mas, em alguns talhões, já foram atingidas 210 sacas/ha, ou 12,6 mil quilos.

Em maio, enquanto terminava o plantio das lavouras, o produtor contou que, a partir de 2006, o nível tecnológico da região melhorou muito com o investimento de empresas de sementes e de máquinas agrícolas. A biotecnologia também transformou o manejo. “Há seis anos, toda nossa lavoura é cultivada com transgênicos. Faço o refúgio nas áreas para preservar a tecnologia, e percebo que a qualidade dos grãos colhidos vem evoluindo. Hoje, estamos aprendendo a ter uma melhor convivência com a seca”, atesta.

Embora não consiga adotar completamente o sistema plantio direto pela ausência da rotação de culturas, Souza diz que vem procurando seguir os demais princípios da prática há oito anos. Na última passagem do pulverizador, ele faz a semeadura de braquiária para manter o solo coberto depois da colheita do milho. A germinação do capim, no entanto, depende do que os produtores locais chamam de “trovoadas”. “Se não chover, perco a semente, mas sei que é necessário investir. A salvação do sertão é o plantio direto. Quem pode trabalhar assim tem uma garantia a mais”, resume o produtor.

Necessidade de investimentos

Na atual safra, Souza conseguiu fechar os custos no início do ano com valores entre R$ 28,00 e R$ 30,00 a saca, números ligeiramente abaixo dos contabilizados no ciclo passado devido à queda nos preços de defensivos e fertilizantes. “Quem deixou para comprar mais tarde acabou enfrentando problemas pela pandemia, com o dólar bem mais alto, e revendas e bancos fechados”, aponta. Segundo o produtor, se, por um lado, o valor do arrendamento impacta no cálculo final dos seus custos, por outro, as condições da região permitem o menor uso de adubação e de inseticidas.

Na sua avaliação, o contínuo avanço da agricultura local requer investimentos em infraestrutura e em facilidades para a comercialização. “Hoje, a maioria precisa guardar a safra em silo bolsa, o que obriga a venda mais rápido. Precisamos de apoio para a instalação de armazéns”, destaca. “Para a venda a Pernambuco, nosso principal mercado consumidor, as carretas percorrem em torno de 600 quilômetros em estradas sem acostamento e em más condições, o que aumenta o nosso custo”, acrescenta.

Alternativa na soja

No Norte do País, as lavouras de soja de Rondônia se destacam pelas mais elevadas produtividades da região. A média na safra 2019/20 é estimada em 3.365 quilos/ha, a maior da série da Conab, iniciada na década de 1980 no estado. O desempenho positivo se deve pela oferta ambiental, com volume e distribuição de chuvas adequados, conclui o pesquisador Rodrigo Brogin, da Embrapa Soja. Há 15 anos atuando no estado em parceria com a Embrapa Rondônia, ele lembra que as áreas consolidadas estão mais próximas de Mato Grosso, no entorno de Vilhena.

A expansão é contínua no estado, que, hoje, registra em torno de 350 mil hectares com a soja. A ocupação, que é principalmente sobre pastagens degradadas, nos últimos anos, apresentou uma mudança geográfica. “As lavouras, que, inicialmente, foram estabelecidas na região conesul, agora, avançam em direção ao Norte, para áreas em Ariquemes e em Porto Velho. Um dos diferenciais é que são localidades com acesso mais fácil ao porto de Itacoatiara (AM)”, cita.

Assim como ocorreu em Roraima, os produtores de Rondônia que cultivavam soja convencional estão optando, agora, pelas sementes transgênicas, um movimento que resulta principalmente da redução da bonificação pelas indústrias e do avanço da presença das empresas de biotecnologia. Em média, há alguns anos, a diferença recebida ficava entre US$ 2 e US$ 4 por saca, enquanto, hoje, os valores variam entre US$ 1 ou US$ 2. “Mas estamos percebendo uma sinalização melhor para o mercado neste ano”, menciona Brogin, que também é diretor técnico do Instituto Soja Livre, iniciativa da Embrapa e da Aprosoja que trabalha no desenvolvimento e na promoção de cultivares convencionais.

Na safra passada, apenas 5% da produção de soja do Mato Grosso foi convencional. Em todo o País, a estimativa é de um número semelhante ou até inferior. “Rondônia sempre complementou as cargas que saem para exportação de Mato Grosso”, explica o pesquisador, lembrando que a soja não transgênica é praticamente toda enviada para o exterior, principalmente para a Europa. “É importante que o produtor considere essa alternativa, que tem custo muito similar em relação à cultura transgênica e que é benéfica para o sistema pela rotação das moléculas de herbicidas”, sustenta.

Lavouras no Hemisfério Norte

Boa Vista é a única capital do Brasil inteiramente localizada no Hemisfério Norte. E é em áreas de cerrado no entorno da cidade que estão boa parte das lavouras de soja incorporadas à paisagem de Roraima nos últimos anos. Segundo números da Conab, o cultivo da soja ocupou apenas 1,4 mil hectares no estado na safra 2009/10, número que saltou para 49 mil hectares no ciclo 2019/20. As lavouras são plantadas entre os meses de abril e maio, e colhidas a partir do final de agosto, em um calendário semelhante ao dos Estados Unidos.

A vontade de empreender e a busca por terras com preços mais acessíveis fizeram com que o produtor Alcione Nicoletti chegasse ao extremo Norte do País há oito anos. Embora tenha nascido no Rio Grande do Sul, aos três anos, ele foi morar em Mato Grosso, onde os pais trabalhavam na agricultura. “Fiz faculdade de Agronomia, trabalhei como consultor, mas nunca deixei de sonhar em ser também um produtor”, relata.

Hoje, Nicoletti cultiva 3,7 mil hectares em Boa Vista, Alto Alegre e Mucajaí, e é um dos quatro sócios da Granterra Insumos Agrícolas, empresa que também responde por 1,2 mil hectares plantados. Da época em que iniciou os investimentos no estado até agora, muitas coisas mudaram. A começar pelo número de produtores, que passou de cinco para cerca de 60 atualmente. “Se os resultados da soja continuarem positivos, acreditamos que o crescimento pode se manter em taxas entre 20% e 30% ao ano em áreas de cerrado e de pastagens degradadas”, projeta.

A expectativa também é de ampliação na produtividade das lavouras de soja. Na última safra, a média ficou em torno de 50 sacas/ha nas áreas cultivadas exclusivamente com sementes convencionais. Neste ano, Nicoletti está plantando apenas variedades transgênicas, movimento que deverá ser seguido pela maioria dos produtores de Roraima. Com a mudança, ele espera colher uma média de 55 sacas por hectare e conseguir também um incremento na rentabilidade, já que os custos estão muito parecidos aos do ano passado, em cerca de 40 sacas por hectare. “Além da entrada da biotecnologia, agora contamos com cultivares mais adaptadas às condições locais. Nos últimos anos, trabalhamos muito testando materiais e o manejo mais adequado para cada situação”, salienta.

Logística

Na atual safra, além da soja, Nicoletti vai cultivar 150 hectares com milho, que já tem destino certo e favorecido pelo dólar alto. Os grãos serão exportados para a Guiana, via rodovia, em um percurso de 600 quilômetros. “A estrada fica quase instransitável durante seis meses do ano, mas como a venda será na época de seca, conseguimos levar”, descreve. A ideia é investir com cautela na lavoura do cereal, já que o mercado interno é pequeno.

No período da segunda safra, o produtor vem cultivando feijãocaupi, milheto e braquiária. “Aos poucos, os sistemas produtivos estão evoluindo. Poderíamos fazer três safras irrigadas, por exemplo, porque a região tem grande disponibilidade de água e luminosidade alta, com média de 12 horas ao dia”, complementa. Segundo Nicoletti, o desempenho das lavouras de soja é favorecido pelas chuvas regulares, especialmente na época de desenvolvimento da cultura, quando as precipitações variam entre 300 mm e 350 mm por mês. “Estou aqui há oito anos, e, até agora, não houve uma frustração de safra devido ao clima”, comemora.

A logística de escoamento da pro dução é mais um fator positivo para quem produz no estado. Hoje, a soja é totalmente exportada via Manaus, distante 750 quilômetros de Boa Vista. De lá, segue por hidrovia até o porto de Itacoatiara, também no Amazonas. O fato de a colheita ser realizada em período diferente dos estados do Centro-Sul ajuda a valorizar as cotações, uma vez que os prêmios pagos pelo mercado costumam ser maiores fora do pico da safra nacional.

O cumprimento da legislação ambiental também é requisito favorável para a venda externa do grão, já que as tradings compradoras exigem a adequação das áreas. “As lavouras incorporadas nos últimos anos são todas legalizadas ambientalmente. Antes de abrir qualquer área, precisamos de um projeto ambiental bem feito, seguindo todas as normas do Código Florestal. Já vimos muitas regiões regredirem no crescimento econômico quando foram contra as leis ambientais”, observa Nicoletti.

Entre os desafios enfrentados no estado, o produtor cita a necessidade de avanços na questão da regularização fundiária, que deve favorecer, por exemplo, a tomada de financiamento junto aos bancos. Outro gargalo é o alto custo do calcário, que é determinado pela grande distância dos mercados fornecedores.

Além de projetar a ampliação da produção, Nicoletti acredita em avanços qualitativos para Roraima. “Os produtores que chegam ao estado, que têm origem principalmente no Sul e no Centro-Oeste, são experientes na superação de desafios e no uso de tecnologias, como é o caso da integração lavoura-pecuária, que também vem sendo adotada de forma crescente por aqui”, ressalta.

Mercado estável

Outro diferencial da produção em Roraima é o preço da terra. Ainda que o incremento tenha sido de mais de 200% nos últimos dez anos, o valor do hectare, em torno de R$ 4 mil na região de Boa Vista, segundo a IEG FNP, está bem abaixo de outros importantes estados produtores. “Nesse caso, é preciso considerar as questões fundiárias, relacionadas a problemas de regularização das áreas”, menciona a analista de Mercado da empresa, Leydiane Brito.

Desde o segundo semestre de 2014, o mercado de terras rurais se mantém estável, com poucos negócios efetuados no Brasil. Segundo Leydiane, essa baixa liquidez está relacionada à conjuntura econômica e política do País e a problemas específicos de algumas cadeias, como a da cana-de-açúcar.

Quando é avaliada uma série mais longa, de dez anos, os índices de valorização das terras são expressivos. Na região de Cascavel/PR, onde estão algumas das áreas mais caras, segundo a IEG FNP, o preço subiu 167% entre 2010 e 2020, chegando a R$ 60 mil por hectare (valor da terra nua, sem o ativo biológico). Em Barreiras/ BA, o incremento no mesmo período foi de 114%, com o hectare valendo R$ 21 mil agora. “No Matopiba, a expansão da agricultura foi indutor de melhorias sócio-econômicas. No Oeste baiano, por exemplo, as margens positivas, as condições climáticas e a logística mais favorável em comparação com o Centro-Oeste, são fatores determinantes para o preço das terras”, indica a analista.

Ainda que a ocupação agrícola esteja bem abaixo da ocorrida no Matobiba, áreas do Sealba também apresentaram incremento nos preços nos últimos dez anos. Em Coruripe/ AL, a alta foi de 150%, para R$ 20 mil o hectare, enquanto em Laranjeiras/SE, o valor subiu 57%, para R$ 11 mil. Segundo Leydiane, de forma geral, é possível observar, em muitas regiões, a conversão de áreas de pastagens improdutivas para áreas de agricultura produtivas, fator potencial para a valorização das terras.

Em relação aos arrendamentos, no segundo semestre de 2019, o índice de contratos calculado pela IEG FNP apresentou alta nominal de 2% em relação aos 12 meses anteriores, com preço médio de R$ 919/ ha. A alteração nos valores ocorreu, essencialmente, como resultado do aumento dos preços dos produtos utilizados como indexadores, como a soja e o milho. Para o cultivo de grãos, o incremento no segundo semestre de 2019 em relação ao mesmo período de 2018 foi de 1%, para uma média de R$ 875/ha.