Plantio Direto

Qualidade do solo em SPD e SISTEMAS INTEGRADOS no Sul

João de Andrade Bonetti, Departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Maringá/PR; Tailany Tretto, Alan Lavratti e Kayn Bastiani, acadêmicos de Agronomia do Instituto Federal do Paraná, de Palmas/PR; e Jessé Rodrigo Fink, professor de Agronomia do Laboratório de Solos do Instituto Federal do Paraná, de Palmas/PR

O manejo do solo em sistema plantio direto (SPD) e em sistema integrado de produção agropecuária (Sipa) aumenta os teores de matéria orgânica no solo, o espaço poroso, a disponibilidade de nutrientes e a atividade biológica do solo. Isso se traduz em aumento da qualidade do solo, o que proporciona maior produtividade de biomassa e de grãos. No entanto, todos esses benefícios são obtidos a longo prazo e com uso de práticas agrícolas, como a rotação de cultura no SPD e o manejo adequado da intensidade de pastejo em Sipa.

Os conhecimentos científicos, baseados em pesquisa experimental, sobre SPD e Sipa no Brasil são amplos. No entanto, em nível de sistemas de produção, poucos estudos são realizados visando identificar a qualidade do solo na prática e na dinâmica das propriedades rurais. Estudar o solo em áreas de produção reflete as reais condições das áreas de produção e pode contribuir com pesquisas atuais e futuras baseadas nas demandas dos produtores. Não é incomum identificar altas intensidades de pastejo em condições diversas de solo (textura, umidade etc.), baixa biomassa residual e a exploração extensiva do solo com baixo investimento (calagem e adubação química) em diversas propriedades rurais. Adiciona-se a isso questões como a dinâmica da relação entre proprietários e arrendatários, que, devido à exploração extensiva, tem degradado os solos em muitas regiões.

Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar atributos físico-hídricos, químicos e biológicos do solo e a produtividade de grãos de soja em diferentes sistemas de manejo, em área de produção de soja e bovinos de leite. Um estudo financiado pela Fundação Agrisus (PA 2476/18) foi conduzido durante o período de 2018 a 2019, em áreas de produção da Fazenda São Jorge, em Abelardo Luz/SC. O solo é classificado como Cambissolo (Santos et al., 2013), com 29, 484, 487 gramas/quilo de areia, silte e argila, respectivamente.

Os sistemas de produção sob SPD e Sipa foram selecionados, e o histórico consta na Tabela 1. Em 2018, parcelas experimentais (400 m2) foram demarcadas com auxílio de GPS (Global Positioning System). Cada área foi dividida em três blocos, sendo coletadas seis amostras de solo por bloco em cada área, após o cultivo de outono-inverno.

As amostras indeformadas foram coletadas utilizando anéis de PVC (244 cm3) e as amostras deformadas com pá, ambas nas camadas de 0-6 e 6-12 centímetros. A porosidade total do solo, o teor de potássio (K), carbono orgânico total (COT), atividade biológica (fluxo de CO2-C) e produtividade de soja foram avaliadas. A porosidade total do solo foi determinada pela diferença do solo saturado e do solo seco (Donagema et al., 2011).

Com as amostras deformadas de solo, a atividade biológica foi determinada pelo fluxo de CO2 (Franzluebbers residual e em longo prazo a matéria orgânica do solo.

O COT foi maior na área de produção Sipa-12 nas duas camadas do solo. A adição de carbono no solo é um fatorchave para a qualidade do solo, pois está relacionado à melhoria da estrutura do solo (maior agregação), da fertilidade (aumento da capacidade de troca de cátions) e da diversidade microbiana (aumento de minhocas, por exemplo). Neste estudo, os resultados mostram maior respiração microbiana do solo (fluxo de CO2-C) nos sistemas com maior COT, observados no Sipa-12. A maior respiração de micro-organismos indica, indiretamente, a maior atividade desses organismos no solo, que está relacionado à presença de compostos orgânicos e de ambiente favorável ao crescimento desses organismos e raízes.

As alterações físicas, químicas e biológicas nos sistemas de produção de Sipa e SPD afetaram a produtividade de soja. Houve maior produtividade de grãos de soja no Sipa-12 em relação ao SPD-5. A média de produtividade no Sipa-12 foi de 74 sc/ha, do Sipa-10 foi de 62 sc/ha e do SPD-5 de 57 sc/ha. A maior produtividade nas áreas de Sipa está de acordo com os dados de atributos do solo, sendo, portanto, uma boa estratégia de manejo. Essa produção média foi superior à registrada em Santa Catarina, na safra 2018/19, que foi de 59,7 sc/ha. Entretanto, no SPD-5, a produtividade média de 57 sc/ha foi levemente inferior à média do estado.

Solos bem estruturados

Salienta-se que as áreas de produção são em solos bem estruturados, com precipitação regular e que as intensi dades de pastejo utilizadas estão acima do adequado (recomendado 3,0-2,0 animais/ha – novilhos jovens com mais ou menos 300 kg de peso vivo em pasto de aveia + azevém; Martins et al., 2015). A menor produtividade no SPD-5 é resultado da menor qualidade do solo, reflexo da condição de exploração do solo, em arrendamento. A degradação do solo em áreas arrendadas ocorre, principalmente, devido ao curto prazo de arrendamento e ao baixo investimento em manejo conservacionista visando melhorar o solo em longo prazo.

Neste estudo, isso foi constatado com o seguinte depoimento do produtor Valdecir Guerra, da Fazenda São Jorge: “Em uma área arrendada, para uma safra, o investimento não será o mesmo para obter uma produtividade boa (média da região). Acredito que, em áreas arrendadas, se utiliza menos tecnologia e investimento, porque o custo e os riscos são altos e a produtividade nem sempre é boa. Na minha área, o investimento é maior, pois a fertilização e as melhorias no solo são utilizadas pela pastagem e pelos cultivos posteriores. Assim, estudos são necessários para comprovar que o arrendamento tem sido o entrave para o aumento da qualidade do solo na região Sul do Brasil”.

As conclusões

Conclui-se que o Sipa melhora a qualidade do solo e a produtividade de grãos, enquanto que o SPD em área de arrendamento reduz a qualidade do solo. Alguns cuidados devem ser tomados no Sipa e no SPD, como redução da intensidade de pastejo e aumento da diversidade de plantas, que deve ocorrer nos cultivos de outono-inverno.

O arrendamento de terra com contrato de curto prazo, como neste estudo, degrada o solo. Novos estudos são necessários para avaliar o impacto do arrendamento de terras, especialmente quando sistemas integrados com pastejo são aplicados. Agradecimentos à Fundação Agrisus, pelo financiamento da pesquisa; ao produtor Valdecir Guerra e sua família, por cederem a área; e ao IFPR, Campus Palmas/PR, pelo espaço científico de estudo.