Covid-19

O agro brasileiro na SEGURANÇA ALIMENTAR

Independentemente das crises e dos problemas nos últimos 60 anos no planeta, o consumo mundial de proteínas bovina, suína e de aves nunca sofreu retração. E como será agora, tendo em vista a pandemia, sobretudo com os efeitos nas demandas de matérias-primas como soja e milho?

Engenheiro-agrônomo Leonardo Sologuren, cofundador da Zeus Agrotech e presidente do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb)

A pesar de não ter paralelo em termos de dados históricos para uma análise que pudesse retratar de forma mais fidedigna os acontecimentos atuais, este artigo busca nortear possíveis reflexos econômicos e comerciais sobre o agronegócio em função dos efeitos colaterais da pandemia do coronavírus (Covid-19). As maiores séries históricas referentes ao consumo de grãos e proteínas se iniciaram a partir da década de 1960, não sendo possível, portanto, realizar um paralelo sobre o que ocorreu no período do surto da gripe espanhola, ocorrida de 1918 a 1920, infectando cerca de um quarto da população mundial, com óbitos estimados em 50 milhões de pessoas. Ou sobre o que ocorreu no período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Esses dois eventos, de influência global, talvez trariam à luz reflexos mais parecidos ao que se está vivenciando atualmente, caso o cenário presente ainda se desdobre por um tempo maior. Não possuindo tais elementos de dados para essa análise, este artigo se limita a entender o que ocorreu com o consumo global de proteína animal durante as principais crises econômicas mundiais datadas desde a década de 1960.

Interessante adiantar que nenhuma das crises analisadas ao longo dos últimos 60 anos resultou em quedas drásticas no consumo de alimentos. Foram observadas retrações tímidas em determinadas crises, mas nada que comprometesse o potencial exportador do Brasil. A série histórica analisada considerou os seguintes grandes eventos:

Crise do Petróleo de 1973: a crise foi encadeada por motivos econômicos e políticos. Os países que compõem a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) resolveram aumentar o preço de modo significativo e reduzir a oferta da commodity. O preço saltou de US$ 3/barril para US$ 12/barril. A ideia era recompor a base econômica dos países que compunham a Opep. Pelo lado político, o aumento dos preços foi uma retaliação aos EUA, que apoiaram Israel via uma provisão de armamentos durante a guerra de Yom Kippur, na qual o foco principal estava, mais uma vez, orientado na disputa entre árabes e israelenses pelos territórios ocupados pelos judeus.

Crise do Petróleo em 1979: com a instalação da República Islâmica do Irã (Revolução Iraniana), a queda na oferta do petróleo acarretou uma alta drástica nos preços da commodity. A crise afetou, principalmente, os países em desenvolvimento, que, além de enfrentarem a alta nos preços do petróleo (gerando inflação), tiveram de lidar com o ciclo da crise financeira em função da elevada dívida externa.

Crise dos países da América Latina: aconteceu na década de 1980, com o forte endividamento dos países latino-americanos ao fim de década 1960 e meados de 1970, em função do acesso ao crédito barato. Após a explosão dos preços do petróleo, ocorreu uma forte inflação nos EUA, que foi obrigado a aumentar a taxa de juros para conter o comportamento inflacionário. O aumento dos juros nos EUA elevou as dívidas dos países latino-americanos, que tomaram empréstimos a taxas pós-fixadas. Ao mesmo tempo, houve uma forte queda na liquidez global.

Crise do peso mexicano: aconteceu em 1994, com a forte desvalorização do peso mexicano em relação ao dólar. A crise de confiança fez com que os investidores retirassem seu capital do México. O crédito cessou, a produção caiu, e a taxa de desemprego chegou a 60%. A consequência sobre os outros países ficou conhecida como Efeito Tequila.

Crise dos Tigres Asiáticos: ocorreu em 1997, no bloco dos países emergentes do Sudeste Asiático, que se destacavam por um forte crescimento econômico. Conhecida também como a primeira grande crise do mercado globalizado, os impactos em diversas economias do mundo tomaram forte proporção naquele período. A crise teve início na Tailândia, após o governo local adotar uma medida monetária de desvalorização de sua moeda, tornando o câmbio flutuante. Depois dessa medida, as moedas da Malásia, da Indonésia e das Filipinas também sofreram uma forte queda, repercutindo, na sequência, em Taiwan, Hong Kong e Coreia do Sul. A crise afetou a economia dos EUA, da Rússia e da União Europeia. Com a economia global fragilizada após esse período, o Brasil foi obrigado a passar por uma forte maxidesvalorização do real em 1999.

Atentado nas Torres Gêmeas: o atentado de 11 de setembro de 2011 trouxe um impacto financeiro global. Os principais indicadores recuaram, e os investidores buscaram o ouro como reserva de valor depois das fortes quedas observadas nas principais bolsas de valores do mundo.

Crise imobiliária dos EUA: a crise mais recente enfrentada pelo mundo (iniciada ao fim de 2008), e que ainda estava em processo de recuperação, foi ocasionada após o colapso no sistema financeiro dos Estados Unidos, que realizaram um alto volume de empréstimos hipotecários de alto risco. A crise, também conhecida como Crise do Subprime, ocasionou a quebra de instituições bancárias históricas, a exemplo do Lehman Brothers. O efeito global foi devastador, atingindo todas as economias desenvolvidas e emergentes. A União Europeia ainda não havia se recuperado totalmente da crise quando a Covid-19 chegou infeccionando de forma assustadora a Itália e a Espanha.

Consumo de proteínas

Cruzando os dados do consumo mundial de proteínas (bovina, suína e de aves) ao longo dos últimos 60 anos, não se observa, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), nenhum ano em que o mundo registrasse alguma contração expressiva na quantidade de proteína consumida durante os períodos de crise analisados. Na tabela da próxima página, pode-se observar o comportamento do consumo per capita de proteínas durante e logo após o evento das principais crises. Fica nítido, portanto, observar que, mesmo em quadros de recessões econômicas, os dados históricos demonstram que o consumo de proteínas, o qual é o grande demandador da produção de grãos (principalmente milho e soja), foram muito pouco afetados.

E a agricultura brasileira?

No curto prazo, o quadro da agricultura brasileira parece promissor. Com uma colheita recorde de grãos, os produtores se deparam com preços altos tanto para a soja quanto para o milho. A soja chega a alcançar os R$ 100,00/saca no porto, enquanto os preços do milho chegam a alcançar R$ 50,00/saca em algumas praças. O aumento da taxa de câmbio favorece, neste momento, os preços dolarizados (a exemplo da soja), ao mesmo tempo em que favorece as exportações, tanto da oleaginosa quanto do cereal.

O setor de grãos ainda não sentiu os efeitos da crise como os demais setores (serviços, indústria e comércio). As exportações seguem firmes, com a taxa de câmbio sendo competitiva para nossas vendas externas. No entanto, os produtores mostram-se preocupados com o possível aumento dos custos dos fertilizantes e com a logística dos insumos e grãos que podem ser prejudicados pelos fechamentos de postos de combustíveis e com a paralisação de fornecedores que provêm essa cadeia de transporte.

A análise aqui comparativa é feita pelo consumo de proteína, pois ele retrata de forma confiável os impactos dos reflexos econômicos. Em períodos de recessão, observa-se o comportamento do consumo pela elasticidade do preço da demanda. Uma análise observando o comportamento da produção de grãos pode nos trazer resultados errôneos, uma vez que a produção muitas vezes é afetada por fatores climáticos ou pelo seu excesso de colheita em anos, resultante de elevados registros de preços, não refletindo com exatidão, impactos econômicos em períodos de crise.

Nos últimos anos, há um grande crescimento do consumo de proteínas, principalmente nos países emergentes – em especial, na China. O forte crescimento econômico do país aumentou o poder de renda da população, que passou a ter acesso a uma nutrição mais adequada.

V, U ou L?

A situação atual não tem paralelo de comparação histórica. Especialistas discutem se a recuperação da economia global será em formato de “V” (forte recuperação após o surto), em formato de “U” (com depressão após o surto e depois se entraria em processo de recuperação) ou em formato de “L” (com depressão econômica mais profunda após o surto). Todas essas análises dependem de qual será o prazo que o mundo conseguirá reter as infecções do vírus. Quanto mais demorado o processo, maior o impacto econômico.

Sem precedentes na história recente, os principais bancos centrais do mundo estão despejando trilhões de dólares na economia para minimizar os impactos econômicos e sociais. O alimento é requisito básico para que a população enfrente este momento tão delicado que está sendo atravessado. O Brasil, em sua plenitude de potência agrícola, tem a missão social de seguir alimentando não apenas sua população doméstica, como também uma importante parcela da população mundial.

Em termos de alimentos, as fronteiras não poderão ser fechadas, caso contrário, a população de diversos países enfrentará problemas de abastecimento ainda mais graves. Pelo agronegócio ser um dos menos afetados pela crise, o Governo brasileiro deveria propor condições para que esse setor tenha acesso a créditos competitivos para aumentar a produção e, consequentemente, as contratações de mão de obra em um momento em que a economia urge por soluções rápidas e efetivas.