Conectividade

Campo mais CONECTADO

Lançado por um grupo de oito empresas durante a Agrishow de 2019, projeto do ConectarAgro registrou contratação para 5,1 milhões de hectares no primeiro ano de atuação

Denise Saueressig
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Criado para ampliar o acesso à tecnologia 4G nas propriedades brasileiras, o ConectarAgro contabilizou, no ano passado, a contratação para cobertura de 5,1 milhões de hectares. O número superou em 100 mil hectares a meta inicialmente traçada pelos oito idealizadores da iniciativa, lançada na Agrishow de 2019. Desse total, a estimativa é de que em torno de 70% dos projetos tenham sido efetivados até maio, sendo que a maior parte envolve empreendimentos em grandes áreas no Centro-Oeste e no Norte do País.

Com o objetivo comum de buscar superar o imenso desafio de expandir a internet nas áreas rurais, as empresas TIM, AGCO, Climate FieldView, CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec e Trimble uniram competências para viabilizar a maior abrangência da rede 4G na faixa de 700 MHz. Nos próximos meses, o ConectarAgro será formalizado como uma associação, e, assim, será pemitido o ingresso de novos membros. “É interessante contarmos com diversidade nesse grupo. Há critérios para que as empresas estejam alinhadas ao conceito, mas entendemos que podem participar desde startups até multinacionais”, declara o diretor de Tecnologias Digitais da CHN Industrial para a América do Sul, Gregory Riordan.

Os participantes do projeto ficaram otimistas com a procura nos primeiros meses de trabalho e esperam o incremento dos números. “Se pensarmos que 5,1 milhões de hectares representam em torno de 8% da área com grãos e cana, percebemos o quanto podemos crescer. Este ano é atípico devido à pandemia, mas também entendemos que o pós-Covid-19 será de aceleração, pela maior percepção da importância da digitalização e da conectividade”, conclui o executivo.

Os idealizadores do ConectarAgro aguardam o retorno à normalidade para colocar em prática outros objetivos, como a maior aproximação com as cooperativas, que podem facilitar a adesão de médios e pequenos produtores ao projeto, frisa o supervisor de Marketing de Tecnologia da AGCO, Niumar Aurélio. A intenção, segundo o executivo, também é conseguir avançar em estados das regiões Sul e Sudeste do País. Outro pilar de trabalho envolve a educação. Uma vez que a conexão for ampliada no campo, o acesso também poderá ser expandido para escolas rurais.

A maior cobertura de internet no campo representa uma etapa importante na busca pela melhoria da gestão dos processos e que impacta de forma expressiva também a vida das pessoas que trabalham no campo, avalia Aurélio. O executivo analisa que os grupos de dados disponíveis atualmente envolvem os que estão relacionados à manutenção e ao desempenho dos equipamentos e os agronômicos, que dizem respeito ao desenvolvimento da lavoura e afetam a produtividade. “A estimativa é de que a mecanização contribui com cerca de um terço dos custos de produção, então, quanto melhor for o gerencimento dessas ferramentas, melhor será a eficiência”, salienta. “Importante também é o monitoramento das condições meteorológicas em tempo real para a adequação do momento das operações no campo”, acrescenta.

Projeto de acordo com a demanda

O investimento dos produtores na implantação e na operação da rede no primeiro ano de funcionamento é estimado em meia saca de soja por hectare, com variações que dependem de alguns fatores, como a topografia da região. Em áreas planas de Mato Grosso, por exemplo, uma torre terá um alcance maior. O custo de manutenção, equivalente a uma assinatura de plano de internet, também tem variáveis de acordo com o pefil da propriedade e com a quantidade de máquinas em campo. “O déficit de conectividade é um problema geral no Brasil, o que muda é a capacidade de investimento. Para os grandes produtores, a conta é paga bem mais rápido, mas, para os pequenos e médios, o desafio é maior. Por isso é tão importante trabalharmos alinhados às cooperativas”, sustenta Cristiano Pontelli, gerente de Negócios da Otmis, marca da Jacto para agricultura de precisão.

O maior acesso à conexão é o que permitirá um uso mais abrangente e eficiente das muitas inovações desenvolvidas por empresas do agro nos últimos anos. É o caso da tecnologia OtmisNET, cita o executivo. “É uma plataforma digital que coleta informações dos equipamentos e é multimarca, ou seja, o cliente consegue interligar dados de outros fabricantes, desde o preparo do solo até a colheita. É o ecossistema do produtor todo conectado. O gargalo sempre foi como transmitir essas informações em tempo real. E aí entra a parceria do ConectarAgro, possibilidade que explicamos como funciona e oferecemos aos clientes”, detalha. Segundo Pontelli, por meio de ferramentas específicas, é possível criar projetos de conectividade de acordo com as necessidades de cada produtor. Em maio, durante feira digital on-line, a empresa lançou o Jacto Connect, ferramenta que também está ligada à necessidade de conexão. Por meio de um aplicativo, os produtores podem, por exemplo, solicitar assistência técnica, tirar dúvidas e acompanhar informações de telemetria dos equipamentos.

Mais competitividade

Lançada no ano passado também com o propósito de ampliar o acesso à internet no campo, a Câmara do Agro 4.0 reúne os ministérios da Agricultura e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Estudo encomendado pelo Governo à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) indica que seriam necessárias, pelo menos, 5,6 mil novas antenas para alcançar 90% da área agricultável do País. “Agora, o Governo tenta negociar como subsidiar a implantação dessas antenas. Uma das opções é via Fundo de Universalização de Serviços de Telecomunicações, o Fust, que precisaria de mudança na legislação para ser utilizado”, lembra o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA), da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Pedro Estevão Bastos.

Para o executivo, assim como os esforços públicos, as iniciativas lideradas pelas empresas são fundamentais. “A conectividade é inegável como instrumento de competitividade para o agro. As ferramentas de uma fazenda conectada colaboram para uma melhor tomada de decisão e por decisões mais assertivas que podem representar ganhos entre 10% e 30% na produtividade, com impactos positivos sobre a rentabilidade e a sustentabilidade”, argumenta