Gestão

O horizonte ao pequeno EMPREENDEDOR RURAL

Planejamento, gestão e parceria são algumas das etapas para o agricultor se tornar empresário rural. Afinal, administrar uma propriedade de modo sistematizado reduz riscos, garante novas oportunidades, direciona melhor os recursos e prepara o negócio para períodos difíceis

André Bordignon, analista de Competitividade Setorial do Sebrae/RS

Conhecer bem a terra, as variações climáticas que podem favorecer ou dificultar o plantio e a colheita de diferentes cultivos, técnicas produtivas e insumos necessários para lidar com plantas invasoras, doenças ou até mesmo pragas que tenham potencial para ocasionar prejuízos significativos em uma propriedade são elementos essenciais para um bom produtor rural. No entanto, essas qualidades, isoladas, são insuficientes se a ideia é ir além, crescer e transformar seu trabalho em um negócio rentável e perene. Atualmente, a informação para dar esse passo adiante está à disposição de uma forma como nunca esteve. A Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil (CNA), por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), por exemplo, oferece o Programa Empreendedor Rural, que orienta quanto ao cálculo dos custos do processo produtivo e ensina a desenvolver projetos para que os produtores passem a administrar as propriedades rurais como se fossem empresas.

Outra oportunidade é o Negócio Certo Rural, realizado em parceria entre Sebrae/ RS e Senar/RS, que, por meio do ensino a distância, oferece orientação quanto ao planejamento e à administração para pequenos produtores rurais. O curso ensina como desenvolver um plano de negócios bem estruturado para aumentar a competitividade da atividade rural. Planejamento é fundamental para fazer a transição de produtor do campo para um verdadeiro empreendedor rural. Para que o planejamento seja eficiente, é preciso ter claros os objetivos da empresa e definir quais aspectos influenciam na obtenção dos resultados a serem alcançados. Desta forma, o planejamento precisa ser cumprido.

Aplicativos para gestão

Uma vez definidos os objetivos e o planejamento, é hora de lançar essa informação em uma plataforma eletrônica, para que o acompanhamento seja rápido e fácil. Nada impede que se faça isso à moda antiga, com papel e caneta, ou em planilhas no computador. Mas, com a atual facilidade de acesso às tecnologias de informação, podemos ir muito mais longe com os aplicativos digitais. Ferramentas de gestão permitem ao micro e pequeno empreendedor driblar o acaso e tomar decisões assertivas. Administrar a unidade rural de modo sistematizado reduz riscos, garante novas oportunidades de negócios, direciona melhor os recursos e o prepara para períodos críticos. É o que também dá a ele a possibilidade de ter vida além do campo e aproveitar a família e os recursos que o dia a dia no trabalho com a terra podem oferecer. Existe, atualmente, um amplo cardápio de aplicativos para a organização do negócio rural ao alcance do celular.

Um mapeamento das startups do setor agro brasileiro, realizado pela Embrapa em parceria com a SPVentures e a Homo Ludens, em 2019, mostrou que, somente no segmento de gestão agropecuária, foram mapeadas mais de 120 startups que desenvolvam e disponibilizem plataformas on-line para o auxílio à gestão, à organização e à tomada de decisão do produtor. Muitas dessas empresas possuem versões gratuitas, as chamadas versões demo, nas quais são disponibilizados os módulos mais básicos das ferramentas. Nesse sentido, o pequeno produtor é beneficiado, pois seu negócio é menos complexo em comparação a atividades agropecuárias de larga escala. Isso faz com que a experiência na adoção das tecnologias digitais seja mais assertiva, atendendo às necessidades atuais em primeiro instante e, conforme o negócio for progredindo, a busca por ferramentas mais complexas se dará naturalmente.

Somada a essas tecnologias, a assessoria de entidades que entendem do setor e de empreendedorismo, tais como o Sebrae e o Senar, é fundamental. O Sebrae tem unidades em todo o País sempre prontas para receber o agricultor interessado em conhecer melhor seu ramo de atuação e ampliar as fronteiras de sua atividade para fazer com que ela se torne sustentável e duradoura.

Formalização da atividade

Outro ponto obrigatório para quem quer se tornar empreendedor é sair da informalidade. Se a receita total anual não ultrapassar os R$ 81 mil, tornar-se um Microempreendedor Individual (MEI) é a melhor opção. Para isso, o produtor precisa atender às seguintes exigências dessa categoria: não ultrapassar o valor em receita e ter apenas um único funcionário que receba até um salário-mínimo. Além disso, a atividade do MEI precisa estar ligada direta ou indiretamente à de pro dutor rural. Caso já não se enquadre nessa categoria, há outras opções para registro – e em todas o Sebrae pode fornecer suporte e informação.

A lista de documentos e o passo a passo para a formalização da atividade rural devem ser consultados junto ao Instituto Nacional de Colonização de Reforma Agrária (Incra), e o registro para agricultores e pecuaristas é feito no Instituto de Desenvolvimento Rural (Rurap). Já para pescadores, piscicultores e aquicultores, o caminho é a Secretaria de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura. Ter um CNPJ facilita a vida do produtor em diversos aspectos, pois torna mais simples a abertura de conta bancária, permite participação em licitações públicas, dá acesso facilitado ao crédito e à redução da carga tributária pelo Simples Nacional, e garante a emissão de notas fiscais e o direito a benefícios como aposentadoria, salário-maternidade e auxílio-doença.

Cooperativas e feiras

Outra das vias para o incremento do negócio rural é o envolvimento com cooperativas. No caso da agricultura familiar, essas entidades são fundamentais por oferecerem contato com outros produtores locais, apoio técnico e facilidade na obtenção de crédito rural. As cooperativas podem ser também um meio de expandir a divulgação e a comercialização dos produtos por meio de feiras e novos mercados. Isso aumenta a possibilidade de venda e potencializa o retorno do investimento. Hoje, feiras de agricultura familiar estão espalhadas pelo País, e cada grande capital já possui seu mapa de eventos para a exposição de produtos. Nos municípios do interior, elas já são uma tradição. Enfim, essas são iniciativas básicas para o pequeno produtor efetivamente se tornar empreendedor. Buscar informação qualificada, planejar e fazer uma gestão profissional, atuar coletivamente em grupos e cooperativas e procurar ajuda especializada são passos essenciais para conseguir crescer e se tornar mais relevante nesta que é uma das bases mais importantes da economia brasileira: a produção rural.