Palavra de Produtor

SAFRA 2020/2021

Rui Alberto Wolfart

Sicco Mansholt, Herbert Mar- cuse, Lucien Séguy, Herbert Bartz, cada um a seu tempo e espaço, contribuíram de maneira significativa para o desenvolvi- mento mundial, com preocupações filosóficas, políticas, alimentares e ambientais. Nas últimas décadas, apesar de toda a base de conheci- mento, a população planetária e seus governantes entraram numa espiral suicida de produção, consu- mo e lazer, não pensando objetiva- mente na sustentação desse modelo e no legado para as próximas ge- rações. Adentrou-se numa cultura de excessos, com consumidores cada vez mais sequiosos por novos lançamentos de moda, produtos e tudo o mais, sem que isso preen- chesse seus vazios existenciais. A Covid-19 é o resultado dessa irresponsável governança global e visão míope das consequências de tal modo de vida. Lembra os lêmingues – em situações de de- sequilíbrios internos dessa espé- cie de roedor, ocorre suicídio em massa, retratado no documentário “White Wilderness”, da Disney. O exemplo dos lêmingues, entre ficção e realidade, apresentado nessa produção cinematográfica, pode ser comparado à situação presente com essa pandemia viral. Neste momento de stop and go mundial, surge a pergunta que não quer calar: como será o amanhã, pós-Covid-19?

Nesse ínterim, a produção de alimentos não parou nem há notí- cias de desabastecimento alimen- tar em qualquer parte do mundo. Adentrando na análise da situação agrícola brasileira, constata-se desestabilização de importantes subsetores, como sucroalcooleiro, de frutas, verduras, flores; perdas significativas da produção de grãos no Sul; explosão cambial gerando profundos desequilíbrios entre receitas e despesas, impactando fortemente as safras 2019/20 e a futura 2020/21, a qual poderá pro- vocar efeitos como inadimplência e expulsão de milhares de agri- cultores da atividade econômica. Esse quadro, se está no radar dos governantes, não é demonstrado nas prováveis medidas para o Pla- no Agrícola e Pecuário 2020/21. Por exemplo: para a queda sig- nificativa ocorrida e a ocorrer na Taxa Selic, não há indicação de realinhamento dos juros agrícolas, dentro de percentuais aceitáveis. Caso não aconteça tal redução, novamente, ocorrerá transferência de renda para o setor financeiro. Algo inaceitável e perigoso, por- que a agropecuária é ainda o único setor a segurar “as pontas” neste País. Juros altos e comida barata tem um significado: perdas na já deteriorada renda do campo. O Governo Federal, à luz dos fatos e das situações anteriormente elen- cadas, deveria apresentar um Pla- no Agrícola e Pecuário 2020/21, com medidas extraordinárias de apoio, função dessa inimaginada situação, viabilizando meios para a recuperação desses subsetores em crise, punidos pelo clima, pelo câmbio e/ou pela Covid-19.

Enquanto isso, os Estados Unidos, nosso principal concor- rente global no fornecimento de alimentos, novamente, injetará subsídios na ordem de bilhões de dólares para sustentar sua agri- cultura ineficiente. O tempo é o senhor da razão e demonstrará que a confiabilidade nos modelos de produção, protocolos sanitários vegetais e animais, dispersão espa- cial, gestão e inovação, e ausência de subsídios são os pontos fortes da agropecuária brasileira, como fornecedor de alimentos ao merca- do demandador, sem que lhe ocorra ter viés protecionista ou ideológico em seus negócios. Todavia, para que tal quadro se mantenha, o Governo Federal atenderá a essas condicionantes para evitar a fragi- lização do campo?

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano