Glauber em Campo

Dias Complicados para o Etanol

Glauber Silveira

O setor do etanol já passou por maus lençóis, principalmente no perío- do do governo de Dilma Rousseff, em virtude da manutenção do preço da gasolina. Por um longo período, o gover- no manteve um preço político da gaso- lina, desvinculado do preço do barril do petróleo, o que fez com que o preço do etanol amargasse prejuízos por muitos anos. Depois, com a liberação do preço da gasolina ao livre mercado, o setor sucroalcooleiro vinha se recuperando, mas, infelizmente, para o setor, o preço do petróleo despencou, e a indústria de etanol entra novamente na UTI.

Os preços do petróleo são os mais baixos em duas décadas, e os estoques estão altos, aliados à menor demanda, em virtude da pandemia do corona- vírus, o que pressiona ainda mais os preços para baixo. Com isso, o preço do etanol também baixou, e, além dis- so, o seu consumo caiu em virtude do isolamento e da reclusão causados em nível mundial pela doença. Do lado da demanda, os impactos da pandemia do novo coronavírus na economia global têm reduzido a procura pelas commo- dities, adicionando pressão aos preços do petróleo e do etanol.

Em 2020, tudo começou bem para o setor de etanol. Tanto que novas usinas de etanol de milho foram anunciadas. O setor vinha com perspectivas positivas, tanto que o consumo de etanol hidratado no Brasil em 2019 teve alta de 16,2% na comparação com o ano anterior, ante queda de 0,56% no consumo de gasolina. Já o consumo de gasolina C (com etanol) caiu de 38,4 bilhões para 38,2 bilhões de litros no mesmo período. O etanol anidro, misturado à gasolina, acompanhou a queda de 0,56% em 18 de fevereiro de 2020. Ou seja, tudo in- dicava um bom ano para o etanol, ainda mais com a possibilidade da distribuição direta. Mas, em fevereiro, o cenário começou a ficar nebuloso.

A paralisação de boa parte da ativida- de econômica – o que reduziu em muito o número de carros nas ruas – deverá provocar uma queda de 50% no consumo diário de etanol nas próximas semanas, em relação aos patamares já registrados pelo setor. A recente aceleração do uso do biocombustível, que teve preços bem mais favoráveis do que os da gasolina, fez com que o consumo atingisse até 1,8 bilhão de litros por mês, uma média de 60 milhões de litros por dia.

O problema para o setor é quanto tempo essa paralisação vai durar. Sem vendas e sem preço, as usinas com caixa baixo vão ter dificuldades, devido à con- centração dos custos de trabalhadores, de transporte, de colheita e de capital de giro. A situação é mais delicada para as empresas que atuam apenas na pro- dução de etanol, que são 20% do setor.

As outras 80% podem optar por açúcar ou etanol, dependendo do mercado. Mas a situação não é boa também para o açúcar. Os preços externos caem, e as exportações são menores. Muitas empresas, no entanto, terão dificuldades menores, uma vez que fizeram con- tratos de vendas antecipados a preços favoráveis.

Os Estados Unidos vão processar 9,5 milhões de toneladas de milho a menos do que esperavam na produção de etanol nesta safra. Previsto anteriormente em 138 milhões de toneladas, o consumo cairá para um volume próximo de 128,5 milhões. Os dados foram divulgados em 9 de abril pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Os americanos usam 38% de todo o milho colhido para produzir etanol. O recuo se deve à queda nos preços do petróleo e à menor utilização de combustíveis pelos americanos, devido ao forte efeito do coronavírus naquele país. Se a pande- mia perdurar, a redução da produção do etanol nos EUA ainda pode ser maior.

Aqui, no Brasil, o setor está real- mente apavorado com a diminuição do consumo e o achatamento do preço. Muitas usinas que já vinham no ver- melho podem fechar as portas. Usinas de etanol de milho também diminuem suas compras e desaceleram a expansão de fábricas que eram anunciadas. Uma das alternativas apresentadas seria uma linha de crédito visando à estocagem, tanto para a construção de tanques de armazenagem como para a aquisição por parte do Governo. Ou um empréstimo de capital tendo o produto estocado como garantia.

Além do uso do produto como ga- rantia em empréstimo, medidas como isenção temporária de carga tributária federal sobre o etanol hidratado é imprescindível para evitar que usinas atinjam a falência. Necessário também que a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) da gasolina tenha um incremento, além, é claro, de um aprimoramento no valor pago pelo RenovaBio aos produtores de combus- tível limpo.

Como podemos observar, dias tensos para o etanol virão. Porém, no longo prazo, não existe nenhuma dúvida da importância desse setor, uma vez que o petróleo é finito e a produção de cana e milho pode ser renovada a cada ano. Vamos torcer para que o Governo Federal se sensibilize e não deixe um setor tão importante para a economia e a sustentabilidade se definhar.

Presidente do Sindicato Rural de Campos de Júlio/MT, presidente da Câmara Setorial da Soja, presidente da Associação de Reflorestadores do MT, vice-presidente da Abramilho e Diretor Conselheiro da Aprosoja