Agricultura 4.0

Vírus

Carlos Otoboni

Em tempos de pandemia de coronavírus humano, tomo a liberdade de escrever sobre os problemas dos vírus na agricultura. Somente por curiosidade, o corona- vírus recebeu a sigla de Covid-19, o que normalmente acontece na nomenclatura de vírus e vem da abreviação do seu nome em inglês: coronavirus disease (“19” refere-se ao ano da descoberta, 2019, mas não é comum essa denominação). Quem quiser mais informações sobre essa pandemia, sugiro o material que o professor Hannes Fischer (físico) tem produzido no link https://fisica. lucem.org/artigos/coronavirus.

Os vírus ainda são um dos grandes elos perdidos da ciência e, na minha opinião, uma das coisas mais intrigan- tes da natureza, uma vez que ficam na fronteira do que se pode ser considera- do animado ou inanimada, nos levando à dúvida se um vírus é um ser vivo ou não. Possui uma constituição bastante simples, um ácido nucleico envolto por uma camada proteica, às vezes, com uma camada adicional lipídica e, sozinho, é incapaz de se movimentar, reproduzir e até mesmo de metabolizar algo, ou seja, comporta-se como algo inanimado. Contudo, ao entrar em con- tato com uma célula viva (hospedeira), ele se torna ativo e passa a utilizar todo o arcabouço celular para metabolizar e fazer cópias de si mesmo, em um processo chamado replicação.

Na agricultura, primeiro, vale des- tacar que a descoberta da existência dos vírus se deu em plantas de fumo, na doença do mosaico do fumo (Ta- bacco mosaic virus – TMV), por Iva- novski, em 1892, que chamou o agente causal de vírus (em latim = veneno). Contudo, somente em 1935, o doutor Stanley comprovou cientificamente a existência do vírus do fumo e ganhou o Prêmio Nobel por isso.

Ainda, na história da agricultura, houve epidemias famosas de vírus, que estão descritas no Manual de Fitopa-tologia do professor Bergamin Filho e colaboradores. Uma das primeiras relatadas foi o mosaico da cana-de -açúcar na década de 1920. As canas nobres plantadas naquela época eram extremamente suscetíveis à doença, e o colapso da produção de açúcar foi superior a 95% em 1922 e 1925.

Como não se recordar da Tristeza dos Citros, outra epidemia virótica brasileira famosa, que levou à destrui- ção de 9 milhões de plantas cítricas na década de 1930. Naquela época, usava-se a combinação de laranja-doce sobre laranja-azeda nas plantas enxer- tadas, que era boa para a produção e resistente à gomose, porém essa com- binação era extremamente suscetível ao vírus. Pensando que o espaçamento de cultivo da laranja, naquela época, era bastante generoso, podemos es- timar algumas centenas de milhares de hectares dizimados. Todavia, essa epidemia também levou os cientistas da época a desenvolver um processo de imunização de plantas para o controle da doença, o que foi um fato científi- co marcante na agricultura devido ao conceito de vacinação na agricultura. Mais recentemente, pode-se recor- dar do mosaico do mamoeiro, ocorrido em Monte Alto/SP no início da década de 1970. A cidade era considerada a capital nacional do mamão, chegando a enviar para o mercado 110 caminhões por dia da fruta. Atualmente, não existe a produção de mamão no munícipio, bem como no estado, devido aos riscos da doença, mostrando o dano indireto que uma doença desse tipo pode causar. Assim, o cultivo comercial da cultura está limitado em regiões que praticam a eliminação de plantas doentes efeti- vamente, como no Espírito Santo e na Bahia. Aliás, quando doenças viróticas estão instaladas, não há muito o que se fazer, a não ser a eliminação de plantas doentes (roguing).

O fato é que ainda se corre gran- des riscos de sofrer com epidemias viróticas, tanto que, periodicamente, o Ministério da Agricultura publica a relação de pragas e doenças quarente- nárias, como vírus, fungos, bactérias, nematoides e plantas daninhas, que podem ser introduzidas no Brasil e apresentam riscos aos nossos cultivos. A última relação foi revisada pelo ministério em 2018, por meio das Ins- truções Normativas nº 38 e nº 39. A pri- meira apresenta a relação das pragas/ doenças quarentenárias já presentes no País (PQP), porém com distribuição restrita a algumas regiões e que não devem ser disseminadas para outros locais do País. A segunda mostra a re- lação dos problemas ainda ausentes no País (PQA), mas que oferecem grandes riscos às culturas afetadas, se introdu- zidas. Nesse documento, somente em viroses, estão relacionados mais de 60 tipos de vírus para diferentes culturas, tais como batata, feijão, citros, cacau, banana, tomate, pepino, amendoim e outras culturas de grande importância para a agricultura brasileira.