Sustentabilidade

Soja: rotação & SISTEMA DA PRODUÇÃO

Quais foram as conclusões sobre modelos de produção de maneira eficaz, sustentável, econômica e ambientalmente correta obtidas em pesquisas em solos e sistemas realizadas pela Fundação MT, no mesmo ambiente, ao longo de 12 anos?

Fábio Ono, pesquisador da Fundação MT, [email protected]

Os diversos benefícios da rotação de culturas na melhoria da qualidade do solo (física, química e biológica) e o consequente aumento da produtividade das plantas e de qualidades dos grãos estão descritos em inúmeras publicações (boletins, livros, artigos em revistas etc.), sendo grande parte de fácil acesso. Muitos agricultores e consultores da área agronômica sabem da importância da rotação de culturas para o aumento da produtividade das plantas e da estabilidade de produção. Porém, na maioria das vezes, no sistema de produção atual, o foco é ter cultivos de plantas com alta rentabilidade econômica (exemplo: soja, milho, algodão, feijão), ou seja, cultivar, colher e ter bons lucros nas vendas por ser um modelo de negócio que almeja o máximo de rentabilidade.

Dependendo do sistema de produção, principalmente das plantas que serão cultivadas no sistema ao longo dos anos, pode ocorrer aumento ou diminuição da produtividade da soja. Há pelo menos 20 anos, tal fato já era constatado na prática pela Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT), por meio de observações em lavouras de soja do Mato Grosso. Naquela época, era possível observar talhões lado a lado e com características químicas e físicas muito semelhantes, semeados com a mesma cultivar de soja e data de plantio, apresentarem produtividades significativamente diferentes. O que era constatado de diferente entre os dois talhões? Muitas vezes, apenas a cultura de cobertura da última safra. E como isso é possível?

A necessidade de entender as consequências dos diferentes manejos ao longo do tempo levou a Fundação MT a inaugurar, na safra 2008/2009, a primeira estação experimental no Mato Grosso com foco total em sistemas de produção em ambiente de Cerrado. Um projeto inédito e audacioso para uma empresa de pesquisa privada, sem fins lucrativos, com o objetivo de pesquisar soluções e difundi-las gratuitamente para a classe produtora. As pesquisas em solos e sistemas de produção da Fundação MT buscam identificar modelos de produção de grãos de maneira eficaz, sustentável, econômica e ambientalmente correta ao longo do tempo. São enfatizadas práticas agronômicas como a rotação de culturas, a produção de palha e sua manutenção em superfície, e o manejo da fertilidade em seu amplo conceito, integrando os atributos químicos, físicos e biológicos do solo. Os resultados gerados são validados em lavouras comerciais por meio do Projeto de Validação de Pesquisa. O foco das pesquisas é gerar resultados confiáveis que possam ser aplicados por produtores da região.

Projeto de 12 safras

O fruto desse projeto é o experimento que vem avaliando, por 12 safras consecutivas, oito diferentes sistemas de produção para o MT (Figura 1) em um solo muito argiloso e considerado de “fertilidade construída”, ou seja, um solo sem limitação química, pois já estava sendo cultivado com culturas anuais por mais de 30 anos. Por ser um solo quimicamente corrigido, sem problemas biológicos e com um bom teor de matéria orgânica no início do projeto, não houve diferenças nas produtividades de soja entre os sistemas de produção nas seis primeiras safras (Figura 2). Qual a mensagem para essa situação? A mensagem é que, quando se tem um solo bem manejado (sem problemas químicos, físicos e biológicos) e bastante tamponado (com alto teor de argila e de matéria orgânica), o sistema suporta por algumas safras o uso de forma desapropriada, ou seja, mesmo manejando o solo de forma incorreta, a produtividade pode não ser afetada por algum tempo na presença da condição citada.

O mesmo comportamento ocorre em solos arenosos, com baixa matéria orgânica e com alta população de nematoides? A resposta é não. Solos arenosos são mais frágeis. Qualquer manejo de forma incorreta já reflete nas produtividades das culturas naquela safra. Isso pode ser observado nos trabalhos realizados em solo arenoso na estação de pesquisa da Associação dos Produtores de Soja e Milho do MT (Aprosoja) em parceria com a Fundação MT, situada em Campo Novo do Parecis/MT. Já nos primeiros anos, é possível notar a dependência da inserção de carbono (palhada) nos sistemas para que possa haver boas produtividades de soja. Nesse sistema mais frágil e com incidência de nematoides, fica evidente a contribuição das culturas de cobertura em aportar palha e diminuir a população dos nematoides, entre outros benefícios.

Apesar dos solos bem tamponados demorarem um pouco mais a apresentar diferenças nas produtividades das culturas quando mal manejados, um dia, as diferenças aparecem. É o caso do projeto de rotação de culturas no Centro de Aprendizagem e Difusão (CAD) em Itiquira/MT, no qual, a partir da sétima safra (2014/2015), o sistema mais degradante do solo (soja/pousio – monocultivo que aporta pouco carbono ao sistema) sempre tem produzido menos grãos de soja (20 a 30 sacas/hectare a menos) em relação aos sistemas de sucessão ou rotação de culturas (Figura 2). Fica nítido o papel da segunda cultura, seja ela comercial ou uma cobertura do solo, em proporcionar aumentos de produtividade de soja e também estabilidade da produção em anos com estresses climáticos. Veja o acúmulo de massa seca de parte aérea das culturas em 11 anos do projeto, ou seja, quanto de palha é deixado sobre o solo para cada um dos oito sistemas de produção envolvendo a cultura da soja (Figura 3). No passado, quando se iniciou o plantio de soja no estado de MT, era na modalidade monocultivo (soja/pousio), ficando claro que não era um sistema promissor, pois não buscava diversidade e proporcionava pouco aporte de palha para o sistema – sendo nomeado, na Figura 3, como “sistema do passado”.

Sistema diversificado

E o sistema de agora? É um sistema mais diversificado, pois é uma sucessão de uma leguminosa (soja) com uma gramínea (milho), sendo duas culturas completamente diferentes em termos de produção de biomassa, crescimento de raízes, extração e exportação de nutrientes etc. É o sistema mais usual no estado (após o cultivo de soja, ao redor de 50% dessas áreas é cultivado com milho), pois são duas culturas com potencial produtivo e que agregam boas rentabilidades aos produtores. Na Figura 3, é possível observar o quanto de palhada o sistema soja/ milho pode deixar ao solo ao longo dos anos e comparar com os demais sistemas de produção. Veja que é um sistema benéfico, pois a quantidade de palha produzida é relevante e justifica o sucesso dessa sucessão de culturas nas últimas décadas.

Pode-se ter sistemas mais diversificados e isso é promissor? Sim, e é de grande importância, principalmente para a melhoria da qualidade biológica do solo – em especial, em lavouras com altas populações de nematoides. A diversidade biológica derivada do uso de diferentes espécies de plantas ao longo dos anos promove uma resiliência ao sistema, ou seja, faz com que ele resista aos estresses que acontecem ao longo dos cultivos – e sabe-se que estresses são comuns em lavouras –, pois se trata de uma atividade agrícola em um campo aberto, em que não se controla precipitação, radiação solar, temperatura, vento etc. Com base na Figura 3, observa-se que é possível promover uma grande quantidade e diversidade de resíduos dependendo do sistema adotado, obtendo altas produtividades de soja e estabilidade ao longo dos anos (Figura 2), sendo os benefícios do sistema mais significantes em áreas com problemas severos de biologia do solo, ou seja, áreas infestadas com patógenos.

Culturas de cobertura

Qual cultura de cobertura se deve utilizar? É uma pergunta difícil de responder sem conhecer a realidade do produtor, pois cada espécie vegetal tem a capacidade de se desenvolver no campo (exemplo: crescimento mais lento, mais rápido), de produzir uma quantidade de palha, sendo essa de diferente degradação. Cada espécie tem sua contribuição na ciclagem de nutrientes e pode ser ou não hospedeira de nematoides, ou seja, pode aumentar ou diminuir a população de certas espécies de nematoides. Conforme a Figura 2, todas as culturas agregam de alguma forma quando comparadas com o “sistema do passado”, e também fica claro o aumento da produtividade de grãos de soja nas últimas safras, chegando a ter rendimentos altíssimos, sendo possível devido ao sistema de produção adotado e às novas cultivares do mercado (cultivares com alto potencial genético em ambientes com bons manejos). Esse fato está cada vez mais comum de ser observado nas lavouras, principalmente nos talhões cultivados por décadas sob o sistema de plantio direto (hoje, é possível encontrar talhões de fazendas produzindo acima de 80-90 sacas/ hectare de soja).

Não há dúvidas de que um bom sistema de produção, graças ao manejo adequado de solo em sistema de plantio direto e diversificação de culturas, proporcionará melhorias nas qualidades química, física e biológica do solo, garantindo boas colheitas Figura 4 – Visual da superfície do solo no experimento envolvendo sistemas de produção no 12º ano de cultivo. Soja/pousio, sem revolvimento (monocultivo); soja/ milho (sucessão de culturas); soja/crotalária, soja/milho + braquiária, braquiária (rotação de culturas) das culturas e estabilidade de produção. Quando se iniciou o projeto de sistemas de produção, em 2008 (CAD Itiquira), o aspecto visual dos solos da Figura 4 era o mesmo. Com os manejos diferenciados, notam-se diferenças entre os solos na 12ª safra, sendo que essas já eram perceptíveis algumas safras antes. É possível ver um solo degradado devido ao monocultivo (soja/pousio) e com baixa diversidade biológica, e, ao mesmo tempo, sistemas com maior quantidade de matéria orgânica e diversidade biológica, e com resíduos vegetais protegendo o solo, mostrando o quanto o manejo pode impactar o solo e o quanto este pode impactar as produtividades das culturas.

Quimicamente (teores de nutrientes presentes nos solos), esses solos são muito semelhantes e apresentam produtividades diferentes. Na agricultura de hoje, dar ênfase apenas na química do solo (correções e adubações), deixando de lado a física e a biologia do solo, não possibilitará a compreensão do sistema solo e as suas relações com as respostas das culturas. É necessário integrar as diferentes áreas do conhecimento para entender as respostas das culturas aos diferentes sistemas de produção.