O Segredo de Quem Faz

LEGADO FAMILIAR conectado com o futuro

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Denise Saueressig
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O engenheiro-agrônomo e produtor Kriss Corso é leal aos ensinamentos transmitidos pelo avô Josué Corso Netto, que iniciou os empreendimentos no agronegócio na década de 1970. Como diretor agrícola do Grupo JCN, que carrega as iniciais do seu fundador, ele valoriza os aprendizados do passado ao mesmo tempo em que direciona investimentos para as mais modernas tecnologias capazes de transformar processos no campo. Todo o conhecimento que alia tradição e inovação é aplicado nos 50 mil hectares cultivados em seis fazendas de três estados do País. Nesta entrevista, o produtor de 33 anos resgata uma parte da história da empresa da família, conta sobre a criação de uma ferramenta para gestão de aplicação aérea de defensivos e revela suas prioridades à frente dos negócios.

A Granja – Como iniciou a trajetória da família no agronegócio?

Kriss Corso – Toda história se iniciou com o meu avô Josué Corso Netto. Ele começou comprando frutas e verduras de alguns produtores e vendendo na feira. Foi um homem humilde, com pouco estudo, mas sempre teve uma inteligência diferenciada e, assim, conseguiu empreender. Em 1979 foi a primeira aquisição de fazendas que ainda temos no grupo, mas ele começou antes, com propriedades menores no interior de São Paulo, em São João da Boa Vista, onde é a origem da nossa família. Naquela época, o pessoal estava começando a migrar para o Centro-Oeste. Então meu avô vendeu essas terras que tinha em São Paulo e se aventurou na compra da área que, hoje, é a Fazenda São Paulo, em Costa Rica, no Mato Grosso do Sul. Ele começou cultivando soja e, depois, milho safrinha. A partir de 1997, investiu no algodão, e foi um dos pioneiros da cultura no estado.

A Granja – Como foi a expansão dos negócios?

Corso – Em 1992, meu avô comprou uma outra fazenda no Mato Grosso do Sul, em Chapadão do Sul. Depois, entre 2002 e 2003, ele comprou uma área que, hoje, é a maior em extensão do grupo, que é a Fazenda Reunidas, com 50 mil hectares de área total em Paranatinga, no Mato Grosso. Entre 2003 e 2004, ele adquiriu a Fazenda Eldorado, em Gaúcha do Norte, também no Mato Grosso. Em 2008, quando ele faleceu, eu tinha 22 anos e foi um baque muito grande, uma perda repentina. Minha mãe, Maria Aparecida, e meu tio, José Izidoro, já trabalhavam com meu avô, mas a parte que é mais de gestão ficou comigo e com meu primo, Josué, que, na época, tinha 29 anos e já cuidava da parte financeira junto com meu avô. Eu estava no último ano da faculdade de Agronomia e assumi a parte agrícola do grupo, desde a compra de insumos e peças até o plantio e a colheita. Meu primo ficou responsável pela parte financeira e de pós-vendas. Também contamos com a ajuda do meu irmão, Kaio, e da minha prima, Camila. E minha mãe e meu tio fazem parte do conselho.

A Granja – Qual é a estrutura da empresa atualmente?

Corso – Até 2008, meu avô plantava em torno de 17 mil hectares. Hoje, cultivamos 50 mil hectares, sendo 15 mil de algodão, 25 mil de soja e 10 mil de milho safrinha em seis fazendas de três estados. A área total chega a 90 mil hectares. Fomos adquirindo as áreas aos poucos e percebendo que algumas precisavam de um trabalho de correção melhor. Assim, investimos na qualidade do solo, revendo áreas que não tinham uma produtividade que considerávamos ideal e, em alguns momentos, dando um passo para trás para dar dois para a frente em seguida. Também temos uma fazenda de café, desde a época do meu avô. Ela foi adquirida no final da década de 1980 e fica em São João da Boa Vista. São 200 hectares, ou 1 milhão de pés. E também iniciamos, há cerca de quatro anos, com a pecuária, em Paranatinga, onde o rebanho é de 10 mil cabeças Nelore e Angus. Meu avô construiu uma algodoeira na fazenda em Chapadão do Sul que foi considerada a mais moderna da América Latina, e nós montamos uma outra no Mato Grosso. Temos um projeto grande, de 15 mil hectares, que vai representar a maior área irrigada em uma fazenda no País. Hoje, já são 800 hectares em pivôs na Fazenda Reunidas. Temos a outorga de tudo, mas a demanda de energia é muito complicada no Mato Grosso. Em 2013, meu avô puxou 150 quilômetros de rede, e teremos que puxar mais 110 quilômetros para um terço da área desejada com pivô, que são 5 mil hectares. Investimos na geração de energia autossustentável por meio de painéis solares e temos uma usina votovoltaica no Mato Grosso do Sul e outra no Mato Grosso. Nosso quadro de colaboradores conta com 600 funcionários diretos e um total que chega a 1,3 mil com os indiretos, como é o caso do pessoal que é contratado no período da safra.

A Granja – Como foi o processo de sucessão para participar ativamente das decisões da empresa?

Corso – Meu avô sempre foi a grande inspiração para a família toda. Era uma pessoa muito abençoada, que nos deixou exemplo de valores, de ética. Ainda em vida, ele deu de presente uma área de terra para a minha mãe e para o meu tio. Nas terras da minha mãe, desde o segundo ano da faculdade, eu buscava financiamento no banco e saía plantando. Quando ele faleceu, perdi parte da minha fonte de inspiração, as coisas ficaram mais difíceis. Houve dificuldade de aceitação por parte de alguns gerentes e funcionários que estavam com ele há muito tempo. Eu conhecia a forma como ele trabalhava, mas ele conseguia fazer as coisas por linha reta. Eu chegava ao mesmo final, mas por curvas. Lembro que ouvíamos algumas pessoas falarem que era questão de tempo para vendermos ou arrendarmos tudo. Mas, aos poucos, os funcionários foram confiando no nosso trabalho e vendo que o negócio continuava expandindo. Tive que amadurecer muito rápido. Hoje, estou com 33 anos, já são 11 anos na linha de frente da empresa. Foi um processo acelerado. Participo dos conselhos de produtores da Syngenta e da Basf, e procuro escutar muito mais do que falar. Mas também transmito a minha experiência, lembrando que sucessão é diferente de liderança. Já encontrei muitos jovens que gostariam de implantar suas ideias, mas os pais não aceitam. Então procuro dizer a esses pais que é preciso soltar um pouco mais a corda para levar esse processo de uma forma mais tranquila. E é normal levar alguns tombos nesse caminho.

A Granja – Quais são os principais projetos relacionados à área ambiental?

Corso – Na época do meu avô, os produtores recebiam incentivos por parte do Governo para que as áreas fossem abertas. Todos sabemos que essa realidade mudou bastante. Hoje, trabalhamos para preservar os recursos naturais, não simplesmente em razão de passivos antigos, mas para deixar um legado para as próximas gerações. Criamos uma espécie de conselho ambiental dentro do grupo mapeando as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e áreas de Reserva Legal conforme a lei. Só a Fazenda Reunidas tem 44 nascentes. Conseguimos montar um viveiro para 60 mil árvores nativas por ano, começamos a fazer todo o reflorestamento dessas áreas que tiveram degradação no passado. Isso também é importante para a certificação, como é o caso do selo Algodão Brasileiro Responsável (ABR), que temos em todas nossas áreas de algodão. Trabalhamos em cima da consciência natural, que acho que todo o ser humano deve ter, mas também recebemos benefícios por isso. Por mais que essas certificações não impactem no valor do produto, é uma porta de entrada para os negócios, porque ajuda a demonstrar que estamos seguindo as normas trabalhistas e ambientais. No nosso viveiro, cultivamos sementes de árvores nativas que são produzidas por comunidades indígenas que estão próximas à fazenda no Mato Grosso.

A Granja – E entre os investimentos em inovação, como foi o desenvolvimento da tecnologia Perfect Flight?

Corso – Em anos de crise, é natural que exista a necessidade de corte de custos e preocupação maior com a parte da gestão. Em 2015, percebemos que tínhamos gestão de praticamente tudo, investimentos nos mais modernos processos, mas não conseguíamos encontrar no mercado uma ferramenta adequada para o gerenciamento da aplicação aérea de defensivos, um sistema que conseguisse mostrar ao produtor se o alvo está sendo atingido. Chamamos um desenvolvedor, e a ideia não era nem vender, era sanar um problema interno. Durante um ano, fizemos testes apenas nas nossas áreas, validamos as informações, chamei o professor Ulisses Antuniassi, da Unesp, de Botucatu (SP), que é um especialista em aplicação aérea. Ele gostou da ideia, e eu falei que só poderia transformar em um modelo comercial se houvesse uma validação dele, com dados como acerto de alvo, uniformidade, falhas e desperdício, e ele criou esses indicadores. É possível, com o georreferenciamento da propriedade, criar a melhor rota que o piloto deve fazer, o que resulta em economia de combustível, maior eficiência dos produtos aplicados, preservação do meio ambiente e ganhos de produtividade. Hoje, uma molécula que deveria ter vida útil de dez anos com mais de 90% de eficiência, está caindo para 50% em cerca de quatro anos. Iniciamos o trabalho com a Raízen e, aos poucos, conquistamos outros grandes grupos produtores. Junto à SLC, por exemplo, temos índice de assertividade de 99%. Transformamos um avião agrícola em missão de drone. Chegamos em abril deste ano com 6 milhões de hectares monitorados e com o aumento do interesse por produtores de todos os portes. Temos parceria com a maioria das multinacionais de defensivos do mercado. Para um projeto que se iniciou como uma startup, é algo muito relevante no cenário nacional. A Perfect Flight nasceu dentro do Grupo JCN, mas, hoje, é uma empresa independente que projeta a expansão para o mercado internacional. Meu primo e eu somos os fundadores e temos 60% da empresa, junto com mais três sócios.

A Granja – Quais são os principais projetos do Grupo JCN para os próximos anos? De alguma forma, esse momento de instabilidade em razão do coronavírus afeta os planos?

Corso – O agro move o País e não para em momento algum. O algodão será afetado pela redução de demanda no vestuário e pela queda no preço do petróleo, que deve favorecer os sintéticos. Mas, mesmo assim, acredito que o setor será o menos prejudicado neste momento. Nosso planejamento deve seguir. Acredito que a tendência da agricultura 4.0 é não mais fazer gestão por hectare, mas sim por metro quadrado. A união de várias ferramentas para segmentos diferentes irá se destacar. É um cenário em que tecnologias como telemetria de solo, manejo de pragas, gestão de aplicação aérea deverão estar em uma plataforma única. O produtor quer poder contar com a tecnologia, mas ele também quer praticidade. E o nosso planejamento no grupo está muito focado nisso. Por isso, temos esses projetos para reduzir os riscos na parte pluviométrica, com irrigação. Também foi o primeiro ano em que fizemos seguro de uma área na Fazenda Eldorado, onde, no ano passado, tivemos um sério problema, ficamos 45 dias sem chuva e colhemos uma média de 23 sacas de soja por hectare. Neste ano foi excelente, colhemos 61 sacas e não precisamos usar o seguro. É uma área que foi aberta há pouco tempo, precisa de mais correção de solo, mas procuramos olhar onde podemos reduzir os riscos, nos proteger. Procuramos testar todas as novidades lançadas para termos senso crítico na validação. Todas as nossas fazendas têm um gestor de tecnologia. Nosso trabalho é voltado para o que é o futuro, mas também não acreditamos em tudo. Acho que temos que ouvir sempre o produtor. Tenho a vantagem de estar nas duas pontas. Valorizo demais as pessoas que criaram o negócio e acho que as tecnologias devem provar aos produtores quais são os seus benefícios. O restante é o que fazemos, estar de perto acompanhando as áreas, investindo nas máquinas mais modernas, nos preocupando com a qualidade de vida dos funcionários e valorizando as pessoas com ações especiais.