Plantio Direto

FERTILIDADE E PRODUTIVIDADE de milho com dejetos de suínos em solo sob SPD

Entre as muitas melhorias provocadas pelo CTF estão a compactação de solo limitada às trilhas – o que permite que as raízes se desenvolvam sem limitação – e a infiltração facilitada da água

Engenheiros-agrônomos Arcângelo Loss, doutor em Ciência do Solo e professor da UFSC; Cremildo António Luís Francisco, mestre em Agroecossistemas/UFSC e docente do ISPM/Moçambique; Gustavo Brunetto, doutor em Ciência do Solo e professor da UFSM; e Rogério Gonzatto, doutor em Ciência do Solo e consultor agronômico da OCP Fertilizantes

Os estados da Região Sul são os maiores produtores de suínos do Brasil. A concentração da atividade suinícola na região gera grandes volumes de dejetos, os quais são manejados principalmente na forma líquida, os chamados dejetos líquidos de suínos (DLS). Esses dejetos são usados na agropecuária como fonte de nutrientes para as plantas (cereais e pastagens, principalmente), reduzindo a dependência por fertilizantes minerais. Os DLS são fontes de matéria orgânica e contêm macro e micronutrientes.

Contudo, se aplicados em quantidades excessivas, podem representar risco de poluição e/ou contaminação do solo, e, por consequência, de corpos d’água. Grande parte dos estudos com DLS avaliando atributos químicos do solo foram realizados em áreas onde os dejetos foram aplicados na superfície do solo. Percebe-se, de fato, que não existem muitas informações sobre a dinâmica dos atributos químicos do solo e da produtividade das culturas após a aplicação de DLS subsuperficial no solo, ou seja, faz-se a injeção dos DLS em um sulco no solo.

Nesse sentido, com auxílio financeiro da Fundação Agrisus (PA 2494-18), foi realizado um estudo para avaliar o efeito das formas de aplicação de DLS (superficial e injetada) no SPD sobre os atributos químicos do solo e a produtividade da cultura do milho. Na foto da página anterior, observa-se o desempenho do milho no tratamento com DLS injetados em comparação à testemunha.

O experimento foi montado na Universidade Federal de Santa Maria/ RS. O solo da área foi classificado como Argissolo Vermelho, com textura franca na camada 0-10 cm (192 g/kg de argila, 443 g/kg de areia e 365 g/kg de silte). Antes da instalação do experimento, a área estava em pousio, cuja vegetação espontânea era predominantemente por capim-annoni (Eragrostis plana) até 2010, quando recebeu calagem com 4 mg/ha de calcário dolomítico. Após a calagem, iniciou-se a sucessão de culturas em SPD: aveia -preta (de maio a outubro de 2010), milho (de novembro de 2010 a abril de 2011) e trigo (de junho a novembro de 2011). O experimento começou com a aplicação dos tratamentos no milho, em 1º de dezembro de 2011, e, a partir dessa data, estabeleceu-se a sucessão com gramíneas de verão (milho) e de inverno (aveia ou trigo), até dezembro de 2015.

Foi utilizado o delineamento experimental de blocos casualizados com quatro repetições (parcelas de 31,5 metros quadrados). Os tratamentos consistiram o seguinte: DLS injetados no solo (DLSI), DLS aplicados superficialmente no solo (DLSS), adubação química (NPK) e testemunha sem adubação (TEST). As doses de DLS e de NPK foram estabelecidas com base na recomendação de adubação orgânica e mineral da Comissão de Química e Fertilidade do Solo dos estados de Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

A dose de DLS foi determinada para fornecer aproximadamente 150 kg de nitrogênio (N)/hectare para o milho e de 130-150 kg de N/ha para o trigo e a aveia. No tratamento nitrogênio-fósforo-potássio (NPK), a aplicação de P e K foi realizada em pré-semeadura, e o N, na forma de ureia foi parcelado, um terço em présemeadura e dois terços em cobertura. No tratamento DLSS, a aplicação foi realizada manualmente com regadores com capacidade de dez litros, enquanto que, para os DLSI, a injeção foi feita com equipamento mecânico comercial, sendo que a profundidade de injeção variou de 8 a 11 cm.

Durante a condução do experimento (de 2011 a 2015) foi avaliada a produtividade de grãos e de massa seca da cultura do milho. E, no início de 2016 (fim do experimento), foram coletadas amostras de solo nas camadas de 0-5, 5-10 e 10-20 cm, para avaliação da fertilidade do solo.

Fertilidade do solo

A aplicação dos DLS promoveu alterações nos atributos químicos do solo quando comparados com o uso de NPK e testemunha (Tabela 1). Os valores de pH mostraram diferenças apenas em 0-5 cm, sendo observados os menores valores no tratamento NPK. Com o menor valor de pH, o tratamento NPK também apresentou os maiores valores de alumínio (Al) em 0-5 cm. O uso de NPK favorece a mineralização da matéria orgânica, e, por meio das reações de nitrificação, tem-se hidrogênio (H+) liberado para o solo, diminuindo o pH do solo. Em contrapartida, adições de carbono ao solo, via compostos orgânicos, como no caso dos DLS, favorecem a complexação do Al. Isso pode justificar os menores valores de Al nos tratamentos com dejetos suínos em 0-5 cm em comparação ao tratamento NPK.

Nas camadas de 5-10 e 10-20 cm, de maneira geral, a testemunha apresentou maiores teores de Al. Isso pode ser decorrente da menor produção de massa seca (Figura 1). A maior deposição de resíduos vegetais sobre o solo pode acarretar na diminuição dos teores de H+Al por conta da lixiviação de compostos da massa seca das plantas de cobertura e efeito do aumento da matéria orgânica. Comparando a adição de DLS com a testemunha, pode-se inferir que a adição dos DLSI foi mais eficiente que os DLSS para diminuir os teores de Al em 5-10 e 10-20 cm (Tabela 1).

Para o Cálcio (Ca), em 5-10 cm, o tratamento NPK apresentou o maior valor, porém sem diferir do DLSI. Já para o magnésio (Mg), o NPK apresentou os menores valores para 0-5 e 10-20 cm. Para os teores de P, o tratamento NPK apresentou os maiores valores em 0-5 cm, e a testemunha apresentou os menores valores em todas as camadas. Entre os tratamentos com DLS, destaca-se o DLSI, que proporcionou o maior teor de P em profundidade em comparação a todos os tratamentos. Isso indica que a aplicação dos DLSI favorece o aumento do P em profundidade, diferente da aplicação superficial. Para o K, verificou-se que a adição de DLS aumentou os teores de K em 0-5 cm em comparação ao NPK e testemunha.

Porém, em profundidade, o NPK apresentou maiores teores de K em comparação aos DLS. Já a adição de DLS aumentou a concentração de K em comparação a testemunha em todas as camadas. Para o N, os DLSI apresentaram os melhores resultados, com maiores valores em 5-10 e 10-20 cm. Na camada superficial, os DLSI foram mais eficientes em aumentar o N do que o tratamento NPK. Os maiores valores de N no DLSI em comparação aos DLSS e NPK indica menores perdas de N por volatilização de amônia devido à injeção dos dejetos suínos no interior do solo.

Produtividade de grãos e massa seca de milho

A injeção dos dejetos suínos (DLSI) no solo em SPD aumentou a produtividade de grãos de milho em comparação aos demais tratamentos, na ordem de 5,50; 1,10 e 1,10 toneladas/hectare, respectivamente, para testemunha, NPK e DLSS; e de massa seca na ordem de 3,70; 1,30 e 1,10 toneladas/ hectare, respectivamente, para testemunha, NPK e DLSS (Figura 1).

Conclusões

Os tratamentos NPK e DLSS apresentaram a mesma eficiência em relação à produtividade do milho e foram superiores à testemunha. O melhor desempenho do tratamento com DLSI pode ser decorrente do aumento dos teores de P e N, e diminuição dos teores de Al, principalmente em relação aos tratamentos NPK e testemunha (Tabela 1). Por meio dos resultados obtidos neste trabalho de campo e de longa duração, pode-se inferir que o uso dos DLS, seguindo as recomendações técnicas dos manuais de adubação, melhora a fertilidade do solo e aumenta a produtividade de grãos de milho no SPD. Convém destacar, ainda, que a injeção dos DLS no solo aumentou os teores de P e N em comparação à aplicação superficial, assim como resultou em maior rendimento de grãos em relação aos demais tratamentos.