Reportagem de Capa

Fitossanidade: a vida protegida e preservada

A ONU estabeleceu 2020 como o Ano Internacional da Saúde Vegetal, uma oportuna escolha, visto que, segundo a instituição, 40% das culturas alimentares do mundo são perdidas para ataques fitossanitários. Nesse contexto, como tem sido trabalhada a saúde das plantas das lavouras do Brasil – país classificado como “campeão em uso de agrotóxicos” e que desenvolve a sua agricultura em ambientes tropicais –, portanto, em condições facilitadas para a proliferação de pragas e doenças?

Leandro Mariani Mittmann [email protected]

O Brasil é o campeão mundial de uso de agrotóxicos. E cada cidadão deste País consome sete quilos de veneno por ano. Eis dois preceitos – ou preconceitos – amplamente propagados para ilustrar como é empreendido pelos agricultores brasileiros o manejo fitossanitário dos milhões de hectares que eles cultivam, seja de alguns metros quadrados de tomate até milhares de hectares de soja. A verdade é que o assunto saúde de plantas a serem convertidas em alimentos merece uma reflexão bem mais aprofundada. Naturalmente, não por aqueles que trabalham no árduo cotidiano do campo, no competitivo enfretamento com as muitas ameaças que miram suas lavouras, desde a falta/o excesso de chuva até as danosas pragas, doenças e invasoras. E o tema é tão relevante que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu 2020 como o Ano Internacional da Saúde Vegetal.

Afinal, conforme definiu o secretário-geral da instituição, o português Antonio Guterres, “para quase a metade da população mundial, as plantas são a principal fonte de renda, e todos confiamos nelas para obter roupa, medicamentos e refúgio, entre outros”. E a ONU delegou à Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) a missão de liderar ações junto a outras esferas de governos, da iniciativa privada e da sociedade civil no mundo pela conscientização de todos quanto à importância de manter as plantas agrícolas saudáveis para se atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – o conjunto de 17 metas globais estabelecidas pela ONU, em 2015, a serem cumpridas até 2030, e entre as quais está a erradicação da pobreza.

Até porque, segundo a ONU, 40% das culturas alimentares do planeta são perdidas a cada ano para os ataques fitossanitários. Um rombo de US$ 220 bilhões causado pelas doenças e outros US$ 70 bilhões pelos chamados “insetos voadores”. Sem contar o prejuízo humanitário de tamanho desperdício de comida, pois, ainda conforme a ONU, as plantas representam 80% da alimentação global. Nesse contexto, qual a relevância do Brasil, país que, ainda de acordo com a ONU, fornece alimentos para 1,2 bilhão de pessoas e ao qual a instituição confiou a missão de gerar 40% dos alimentos extras a serem produzidos para atender ao aumento de demanda de 70% de comida em 2050? E justamente o Brasil, que detém a maior agricultura tropical do mundo, com duas e até três safras por ano no mesmo espaço, atividade praticada em um ecossistema propício para a propagação de pragas e doenças, ao contrário dos ambientes na Europa e nos Estados Unidos, com meses gelados e até neve, e, portanto, com a quebra do ciclo biológico de patógenos e pragas.

É o campeão mesmo?

A princípio, é preciso esclarecer o título de “campeão mundial do uso de agrotóxico”. Apesar de o Brasil ser o maior consumidor mundial de defensivos – posição justificada pelo mencionado perfil tropical de sua agricultura –, uma análise mais detalhada chega a diferentes conclusões: o consumo de defensivos relativo por hectare cultivado é de 4,31 quilos/hectare, o que deixa o País na 44ª colocação, conforme ranking elaborado pela FAO (em 2016). A Holanda está na frente de todos, com 9,38 quilos/hectare. Já em relação à produção, a agricultura brasileira é a 58ª consumidora de “agrotóxico” por tonelada de alimento produzida, ou 0,28 quilo/ tonelada. O número do líder, Portugal, é de 0,66 quilo/tonelada. Esses números integram o sistema FAOSTAT, o banco de dados da FAO de estatísticas de 245 países, elaborado desde 1961, sobre alimentos e agricultura.

ssão Codex Alimentarius, Guilherme Costa, lembra que o Brasil exporta seus produtos agrícolas para 160 países e atende a todos os rigorosos critérios de qualidade estabelecidos pelos importadores. “Há todo um trabalho de controle que é exercido pelo setor privado e um trabalho de verificação muito bem-feito que é exercido pelo Governo no sentido de atender a essas legislações internacionais e, também, a determinadas exigências de alguns países importadores que, às vezes, estabelecem limites mais restritivos que as legislações internacionais. E o nosso País atende a isso de uma maneira muito profissional e dando a segurança necessária para os consumidores”, declarou ao Ministério da Agricultura, no ano passado. Costa também é adido agrícola do Brasil junto à União Europeia. O Codex Alimentarius é um programa FAO e da Organização Mundial da Saúde (OMS) criado em 1963 para normas internacionais em alimentos.

A salvação nacional

No ano passado, foi publicado um amplo e detalhado trabalho sobre a tragédia que representaria para a agricultura e, sobretudo, à sociedade o hipotético não combate a pragas e doenças na agricultura brasileira. O estudo, elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Cepea/Esalq), em parceria com a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), entidade extinta para a criação da CropLife Brasil, avaliou a ocorrência das principais pragas e doenças de soja, milho e algodão nas safras 2014/15, 2015/16 e 2016/17, e os impactos econômicos para produtores e para o Brasil de um eventual abandono no tratamento fitossanitário. Os efeitos das ocorrências foram estimados com base em perdas potenciais a partir de ensaios experimentais de instituições de pesquisas. E as estimativas das perdas evitadas pelo uso de defensivos foram baseadas a partir de resultados de ensaios que mostravam os percentuais de reduções de produtividade causadas pelos ataques.

Para tanto, foram estabelecidos dois cenários: 1) Os produtores não fariam nenhum controle fitossanitário, mas compensariam as perdas com a ampliação da área de cultivo para manter o tamanho da produção. Dessa forma, o preço de mercado se manteria o mesmo para o consumidor final; 2) Não haveria compensação de área para repor a redução de produções, e, assim, aconteceriam ajustes nos preços ao consumidor, com consequentes impactos sobre inflação, custo de vida e, também, nas receitas de exportações. “Cada uma dessas situações simuladas leva a um resultado distinto em termos de lucratividade da atividade agrícola, e, portanto, de renda desse segmento. Igualmente, pode ocasionar outros impactos econômicos, sociais e ambientais relevantes para a sociedade, não considerados neste estudo. A compensação via aumento de área pode ocorrer de forma legal, sem avanço sobre áreas de florestas protegidas ou sem prejuízos a outras atividades agropecuárias. Mas ela pode resultar também em pressão de desmatamento legal ou ilegal no País ou em impactos sobre preços de outros produtos, cuja produção poderia ser deslocada pela mudança no uso da terra”, ressalta o estudo.

Os resultados das simulações estão sintetizados em três quadros publicados nesta reportagem. “Esse estudo teve como objetivo realizar uma avaliação quantitativa dos efeitos econômicos amplos das pragas na agricultura, mas, sobretudo, estimar um efeito que, desde sempre, preocupa toda a sociedade e, particularmente, os agentes públicos: o impacto que o desempenho das safras agrícolas têm sobre o acesso a alimentos para a população, em termos de preços. Preocupação, esta, relacionada principalmente às categorias de renda mais baixa, para as quais os alimentos respondem pela maior parcela de seu orçamento familiar”, esclarece o trabalho.

Conforme argumentos do Cepea/ Esalq, a produtividade das culturas gera receita de exportações, fundamentais para a economia brasileira – afinal, o agronegócio angaria para dentro do País cerca de US$ 100 bilhões/ano –, arrecadação volumosa de impostos e empregos, e movimenta a economia como um todo. E ainda mantém a inflação de alimentos sob controle. “O cenário, teórico, de eliminar por completo o uso dos controles químicos, permite analisar des dobramentos micro e macroeconômicos dessa mudança no sistema produtivo, que vão desde o impacto sobre a renda do produtor até o efeito sobre a inflação, ou seja, sobre o bolso do consumidor”, menciona. “Outro desdobramento que é possível em uma situação de perda de produtividade é a busca de formas de ajustamento pelo produtor rural, e uma delas seria compensar a perda da produtividade causada pelo não combate de pragas com a expansão da área cultivada. Essa alternativa, além de elevar o dispêndio para manter a produção nacional, pode gerar pressões adicionais sobre o uso da terra no País. Esse é outro tema sensível no Brasil atualmente, tendo em vista as preocupações nacional e internacional com o desmatamento nas áreas de fronteira agrícola.”

As estimativas em números

O trabalho é bem objetivo na mensuração dos choques dos efeitos do encolhimento de produção de soja e milho na inflação ao consumidor. Em relação à cadeia da soja, no caso do não tratamento apenas da ferrugem e da helicoverpa, as perdas na produção poderiam atingir 30%. “Essa redução na oferta deve causar uma elevação nos preços da soja em grão de, aproximadamente, 22,9%, e, assim, os valores do óleo de soja responderão com aumento de 10,6%; os do leite, de 4%; os da margarina, de 3,1%; os do frango, de 2,8%; os de ovos, de 2,6%; os de suínos, de 1,4%; e os da carne bovina, de 1,1%”, enumera o estudo. Também são mensuradas as perdas – e consequências na gôndola do supermercado – provocadas por percevejos e mosca-branca.

Quanto à cadeia do milho, a influência é significativa, visto que o insumo atende, diretamente, aos segmentos das carnes, produtos amplamente consumidos pelos brasileiros. “Choques de preços do milho tendem a impactar de forma mais expressiva, no varejo, os preços de fubá, leite, carnes de suínos e de aves, e ovos”, ressalta. Assim, apenas a Spodoptera (lagarta) pode reduzir em 40% a produção nacional no primeiro ano, com reflexo de 13,6% no aumento de preço do cereal. Já os percevejos poderiam causar prejuízo de 17,4%, e os preços seriam 5,9% maiores. E a cigarrinha reduziria a colheita em 6,6%, com aumento de 2,2% nos preços. “Claramente o desempenho das safras agrícolas impacta toda a sociedade, via acesso a alimentos para a população, em termos de preços”, adverte o trabalho do Cepea/Esalq.

Transformação da agricultura

A conscientização sobre a importância dos defensivos é uma das bandeiras da recém-criada instituição CropLife Brasil, a junção das entidades Andef e a Associação Brasileira de Empresas de Controle Biológico (ABCBio), além do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) e da Associação das Empresas de Biotecnologia na Agricultura e Agroindústria (Agrobio). “A CropLife Brasil acredita que os defensivos agrícolas, químicos e biológicos, a biotecnologia e o uso de sementes e mudas geneticamente avançadas são parte importante de um pacote tecnológico que ajudou a transformar a agricultura brasileira nas últimas décadas. Graças à tecnologia aplicada nas lavouras, o Brasil ampliou a produção de alimentos, fibras e energia, expandindo muito pouco a área plantada e contribuindo para a conservação de florestas nativas”, defende Roberto Araújo, gerente de Educação e Boas Práticas Agrícolas da entidade.

O dirigente lembra que, nos últimos 40 anos, o País trocou a posição de importador a grande produtor mundial de alimentos, fibras e energia, período em que as empresas associadas à CropLife Brasil desenvolveram inúmeros produtos e tecnologias inovadoras para ajudar nessa expansão. “Ao longo dos anos, a inovação científica da indústria tem gerado produtos fitossanitários com menor toxicidade e formulações mais seguras”, atesta Araújo. Segundo ele, é possível mensurar os avanços na segurança pelo uso de metodologias internacionais para calcular indicadores de risco, como, por exemplo, o Environmental Impact Quotient (EIQ, em português, quociente de impacto ambiental), parâmetro fundamentado no uso de ingrediente ativo que combina várias informações, incluindo a dose de aplicação, para comparar cultivos, sistemas de produção, anos, países e produtos.

Conforme o dirigente, em levantamento realizado pelo professor doutor Caio Carbonari, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Botucatu/SP, foi possível constatar que, entre 2002 e 2015, os quocientes de impacto ambiental médio por hectare de área aplicada reduziram para os trabalhadores (-51%), os consumidores (-36%) e o meio ambiente (-33%) em lavouras de soja, milho, algodão e cana – as mais expressivas em área na agricultura brasileira. “Os dados combinam as reduções do risco médio dos produtos e da dose média aplicada por hectare”, esclarece. “Em resumo, podemos afirmar que os avanços nas moléculas e nas formulações, ao longo das últimas décadas, tornaram os produtos fitossanitários mais seguros para os trabalhadores, os consumidores e o meio ambiente.”

Biológicos prometem

A entidade congrega também as empresas fabricantes de produtos biológicos, um segmento que cresce a números significativos, ainda que não muito expressivos em relação aos químicos. As vendas, em 2018, foram de R$ 464,5 milhões, expansão de 70% sobre os R$ 262,4 milhões do ano anterior. E a entidade previa, para 2019, incremento médio de 20% a 25%, a média histórica. “As perspectivas para o crescimento do uso de produtos biológicos são positivas, mas o mercado ainda tem grandes desafios pela frente, como a disseminação dos benefícios dessa tecnologia para o manejo integrado de pragas e doenças”, explica Araújo. “Cerca de 50% dos agricultores ainda desconhecem o controle biológico. Entretanto, dos que conhecem, 98% pretendem usar na próxima safra.” O dirigente da CropLife lembra que os produtos biológicos fazem parte da estratégia de Manejo Integrado de Cultivos (MIC), que promove o uso combinado de tecnologias para controlar o ataque de pragas como lagartas, moscas, cigarrinhas, brocas, percevejos, nematoides, assim como de doenças causadas por fungos e outros agentes.

Aplicação correta ou perdas certas

Mas não existe nenhum tratamento químico ou biológico milagroso em caso de uma inadmissível irresponsabilidade: entre os tantos prejuízos fitossanitários que um ataque pode causar a uma lavoura, o mais inaceitável é a aplicação incorreta do (caríssimo) insumo. Afinal, por melhor e mais eficiente que seja um defensivo, o efeito será nulo – e o prejuízo, gigante – se a sua aplicação não for feita do jeito certo. Mas, então, o que seria uma aplicação correta, adequada, recomendada e que possibilite à planta aproveitar todo o potencial que o produto fitossanitário tem a oferecer? “A melhor resposta a essa pergunta é a própria definição de tecnologia de aplicação dada pelo professor Tomomassa Matuo (referência no assunto), que é ‘a que proporcione a correta colocação do produto ativo no alvo, em quantidade necessária, de forma econômica e com o mínimo de contaminação de outras áreas’”, esclarece o especialista em aplicação de defensivos Hamilton Humberto Ramos, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Porém, de acordo com Ramos, nem sempre as recomendações são cumpridas, por desconhecimento ou qualquer outro motivo. “Os equívocos são diversos, como falta de manutenção do equipamento, erros na regulagem, seleção inadequada das pontas de pulverização e/ou do tamanho de gotas etc.”, lista. E as consequências se transformam em aumento do custo de produção, maior contaminação do operador e do meio ambiente, deficiência do controle, aumento na resistência de pragas e doenças, e até resíduos no produto colhido. Ramos revela que trabalhos do Centro de Engenharia e Automação do IAC e de outros organismos de pesquisa já demonstraram que as perdas por evaporação, deriva, má regulagem do pulverizador e outros equívocos podem chegar a mais de 60%. E, “não raro”, representam entre 20% e 30% do produto aplicado. “Se considerarmos um mercado de defensivos na ordem de US$ 10 bilhões, os prejuízos com a aplicação inadequada passam dos US$ 2 bilhões”, quantifica.

O especialista lembra que erros e falhas acontecem e só podem ser sanados por treinamento e profissionalização dos agricultores e aplicadores. “Os defensivos evoluíram, os pulverizadores evoluíram, a tecnologia de aplicação evoluiu, mas a forma de se levar a informação ao campo não, o que tem se refletido em baixa assimilação da informação, não só por parte dos aplicadores, mas também pelos tomadores de decisão”, avalia. “Assim, formas de difusão do conhecimento adequadas devem ser desenvolvidas, e o quantificador dessa ação não deve ser mais o número de pessoas que atingiu, mas sim o quanto a ação foi efetiva em melhorar a aplicação, elevar a eficácia e/ou reduzir as perdas”, recomenda.

Calibração por deposição: no alvo

Sobre a aplicação correta, o pesquisador da Embrapa Meio Ambiental Aldemir Chaim ressalta a importância da calibração da deposição de gotas. Mas com uma ressalva importante: “Chamo de calibrar deposição, não calibrar máquina. Quando você calibra a decomposição, você coloca o produto no alvo, que é o que interessa. Porque aí você vai usar todas as ferramentas que dispõe: regula pressão, velocidade, bicos, vazão. Tudo isso pra calibrar a deposição para que chegue aquela quantidade correta de produto no alvo”, esclarece. Ou seja, a calibração da deposição exige que se se conheça qual é o alvo biológico, o local onde está ocorrendo o problema fitossanitário.

Chaim cita que, em caso de doenças, o fungo pode se encontrar debaixo da folha, onde os esporos germinam e penetram pelas aberturas dos estômatos. E a ferrugem da soja, a exemplo, começa a atacar a planta de baixo para cima. Em relação a pragas, em algumas situações, o produto precisa atingir o “baixeiro” da planta, ou seja, a região mais basal. A calibração exige que se coloque um determinado número de gotas por centímetro quadrado das folhas. Assim, deve-se calcular o volume de calda a ser gasto depois de calibrar a deposição.

“Em uma tentativa de melhorar a capacidade operacional nas pulverizações, tem um pessoal que faz errado, regula o volume antes da aplicação. E tem reduzido o volume de calda, mas, ao mesmo tempo, tem usado gotas relativamente grandes, e pode não cair uma quantidade de gotas suficiente para fazer o controle do problema fitossanitário”, adverte. Ele menciona, ainda, por exemplo, que a lagarta helicoverpa morre ao consumir folhas com determinado número de gotas depositadas, e, se essas forem grandes, mas em pequenas quantidades e espaçadas, a praga come muita folha antes de ingerir a dose letal. “Na prática, o pessoal fala, ‘ah, vou usar 30 litros por hectare’, mas usa umas gotas grandes, o que não dá o número de gotas por centímetro quadrado suficiente para a dose letal. E aí começa a ter subdosagem. E o que vai acontecer? Resistência”, alerta.

Em algumas variedades de soja, o índice de área foliar no período de florescência é seis, ou seja, a cultura apresenta 60 mil metros quadrados de folhas em 10 mil metros quadrados de terreno, ou seis hectares de folhas por hectare de terreno. “Mas o pessoal não presta atenção na área foliar. Isso que me preocupa um pouco, quem não leva em consideração a área foliar da cultura, o período da praga e o estágio de desenvolvimento”, afirma. E, em regiões de clima bastante quente, umidade relativa baixa e de lavouras gigantescas, ocorrem perdas de gotas pela evaporação. “Assim, a calibração de deposição de gotas é extremamente importante e deve levar em consideração a temperatura, umidade relativa, tipo de cultura, área foliar, tipo de alvo biológico, equipamento de pulverização, densidade de gotas necessária para dose letal, para se calcular o volume e concentração da calda que deverá ser aplicada.”

A revolução (e o futuro) dos transgênicos

A ferramenta da tecnologia dos organismos geneticamente modificados mudou de patamar o controle fitossanitário das lavouras mundiais. Sobretudo a agricultura tropical brasileira. “Com a evolução da ciência e o advento da biologia molecular foi possível modificar geneticamente organismos vegetais pela inserção de genes de interesse, como, por exemplo, tolerância a herbicidas”, destaca Mauro Rizzardi, professor da Universidade de Passo Fundo/RS (UPF). “A inserção dos OGMs na agricultura disponibilizou ao agricultor uma nova ferramenta para controle de pragas e plantas daninhas, reduzindo o uso de herbicidas e inseticidas, com consequente diminuição do impacto ambiental.”

E a revolução continua. Muito mais está por vir, pois a primeira geração da tecnologia se deu pela tolerância a herbicidas, em especial, ao glifosato (no princípio, soja RR; depois também em milho e algodão), e, na sequência, com tolerância aos herbicidas glufosinato de amônio e do grupo das imidazolinonas, além de tolerância a lagartas. “Em um futuro próximo, o agricultor terá à sua disposição culturas tolerantes aos herbicidas auxinicos, como dicamba e 2,4-D, associado a outros herbicidas, e, também, com a tolerância a pragas associadas em uma mesma planta. Entre as pragas está o complexo de lagartas desfolhadoras das culturas e algumas pragas de solo”, descreve.

No entanto, tais tecnologias só pro movem efeitos duradouros se aplicadas de maneira correta, para que não percam efeito. “Como toda e qualquer tecnologia, o seu uso deve ser feito de forma adequada, e não considerá-la como a solução do problema. O que quero dizer com isso é que se não adotarmos de uma forma adequada, estas tecnologias terão um curto período de uso”, lembra o professor. E ilustra que, “em um passado recente”, houve exemplos associados à evolução de espécies de plantas resistentes ao glifosato e à perda da tolerância a pragas, nas culturas Bt. “Os cuidados dos produtores devem estar associados ao uso de outras estratégias de manejo, integradas ao uso dos organismos Bt. Essas práticas vão desde o uso de áreas de refúgio, no caso das culturas Bt, quanto da rotação de culturas e de tecnologias de controle no caso das culturas tolerantes aos herbicidas”, explica.

Área de refúgio sempre

Sim, a invenção extraordinária da tecnologia dos organismos geneticamente modificados precisa da responsabilidade dos produtores para que seus benefícios sejam preservados. As áreas de refúgio, aqueles talhões cultivados sem a tecnologia, para que as lagartas não se tornem resistentes aos inseticidas, se constituem em uma obrigação de todos. No entanto, nem sempre tal orientação é seguida. E, então, a tecnologia dos transgênicos acaba sendo desperdiçada com o tempo. Mas isso jamais ocorreria se todos tivessem a consciência do pequeno produtor Jacir Comachio, que cultiva 52 hectares de soja e milho em Medianeira/ PR. Na lavoura da oleaginosa, 80% é com a tecnologia transgênica Intacta, e 20% não. O agricultor integra o Clube do Refúgio, da Bayer, criado em 2015/16 e que conta com 15 mil cadastrados, que cumprem uma série de ações.

O clube oferece premiações aos participantes, e, neste ano, Comachio foi sorteado com uma colheitadeira. “Sabemos do compromisso do refúgio. Já que estou fazendo a coisa certa, participo do programa. A sorte bateu na minha porta, e acabei ganhando a colheitadeira”, comemora. “Desde que surgiu a tecnologia Intacta, sempre fiz refúgio, sempre destinei uma parcela da minha propriedade para a soja não Intacta.” O agricultor conta que, na região, ele é “um dos poucos” que realizam a prática. “Os maiores produtores têm mais dificuldade em fazer, porque têm várias e grandes áreas. E eles têm pressa na hora do plantio, para estar trocando de sementes. Não é fácil fazer isso, e daí acabam plantando só Intacta. Mas o pequeno agricultor – como eu – tem mais tempo e consegue fazer a coisa certa”, deduz. Segundo o produtor, na região, ninguém fez o refúgio para o milho Bt, e os benefícios se perderam.


O caso da soja Ferrugem asiática

Na safra 2016/17, o custo dos produtores com fungicidas foi de R$ 8,3 bilhões (96% para controle da ferrugem), R$ 6,2 bilhões em inseticidas e R$ 4,8 bilhões em herbicidas, totalizando R$ 19,3 bilhões. Esse valor correspondeu a 16,5% do Custo Total (CT) com a produção de soja no Brasil nessa safra. O montante total para cultivar uma área de 33,9 milhões de hectares e produzir 114 milhões de toneladas de soja foi de R$ 117 bilhões na safra 2016/17.

Para avaliar a implicação econômica do controle da ferrugem, simulou-se uma situação em que os produtores não utilizassem fungicidas. Com isso, economizariam R$ 5,75 bilhões, mas a queda na oferta de soja é estimada em 30%.

Supondo que os produtores pudessem compensar essa perda em produtividade, expandindo a área, gastariam R$ 33 bilhões em recursos adicionais para custear um aumento de quase um terço na área produtiva nacional. Esses custos referem-se apenas aos recursos terra, trabalho e capital privados deles; não incluem custos de abertura de novas áreas e infraestrutura produtiva e logística etc.

No cenário sem essa compensação da queda de produtividade pelo aumento da área cultivada, o modelo econômico estima um aumento de 22,9% no preço no mercado interno.

Nesse cenário, embora os produtores tenham redução nos custos (sem o controle da ferrugem), o aumento dos preços não seria suficiente para evitar a queda da Receita Bruta, de 13,9%.

Assim, o resultado econômico com o plantio de soja passaria de um lucro de R$ 8,32 bilhões para um prejuízo de R$ 3,37 bilhões para o segmento produtivo nacional. Logo, os produtores incorreriam em uma perda de R$ 11,7 bilhões.

Para o País, em termos macroeconômicos, implicaria na queda de 30% em volume exportado, equivalentes a perdas de US$ 4,5 bilhões em faturamento externo para os produtos do complexo da soja.

Estima-se, ainda, que o aumento de 22,9% nos preços da soja, devido à perda na produção, teria um impacto de 0,57 ponto percentual no IPCA geral de 2017. Ou seja, o IPCA passaria de 2,95% para 3,52%.

Esse mesmo raciocínio aplicado especificamente ao IPCA de alimentos implicaria uma variação de 1,03 ponto percentual no índice, ou seja, este saltaria de -1,87% para -0,84% no ano de 2017.


O caso do milho Lagarta Spodoptera

Para o milho, na temporada 2016/17 (primeira e segunda safras), o custo dos produtores foi de R$ 1,28 bilhão em fungicidas, R$ 1,42 bilhão em inseticidas e R$ 1,53 bilhão em herbicidas, totalizando R$ 4,23 bilhões. Esse valor corresponde a 9% do Custo Total para produção de milho em 2016/17. A área cultivada foi de 17 milhões de hectares, resultando em produção de 97 milhões de toneladas.

Para analisar a implicação econômica do controle da lagarta Spodoptera no milho foi simulada uma situação em que os produtores não fizeram o seu controle químico e, com isso, economizaram R$ 3,42 bilhões. Contudo, a perda de produtividade causada pela Spodoptera levaria a uma redução de 40% na safra do grão.

Supondo que os produtores pudessem compensar essa perda em produtividade via aumento da área cultivada, teriam que gastar R$ 25,3 bilhões em recursos adicionais, garantindo um acréscimo de dois quintos dessa área.

Não havendo tal compensação de área, o modelo econômico aponta que ocorreria uma elevação de 13,6% do preço do milho no mercado interno.

Embora os custos de produção se reduzam pela ausência de controle da Spodoptera, devido à queda na Receita Bruta dos produtores de 32%, seu resultado econômico com o plantio do milho passaria de um prejuízo, na safra 2016/17, de R$ 12,95 bilhões para outro ainda maior de R$ 20,5 bilhões, agravando ainda mais a situação do produtor.

Essa quebra de safra levaria a uma redução nas exportações, em valor, de 32% correspondentes a uma redução da receita cambial de US$ 1,6 bilhão.

Estima-se que o aumento de 13,6% nos preços do milho, devido à perda na produção, teria um impacto de 0,39 ponto percentual no IPCA geral de 2017. Pelo mesmo raciocínio, o IPCA de alimentos teria uma variação positiva de 1,05 ponto percentual no índice, aumentando de -1,87% para -0,82%.


O caso do algodão Bicudo

Para o algodão, na safra 2016/17, o custo dos produtores foi de R$ 300 milhões em fungicidas, R$ 1,2 bilhão em inseticidas e R$ 500 milhões em herbicidas – ou R$ 2 bilhões no total. Esse valor corresponde a 27% do Custo Total de produção do algodão naquela safra, cuja área foi de 940 mil hectares. A produção, em 2016/17, somou 1,5 milhão de toneladas de algodão em pluma.

O bicudo é a praga mais relevante do algodão. A fim de avaliar a dimensão econômica de sua presença, simulou--se, a partir de dados da safra 2016/17, a ausência do controle químico pelos produtores. Nesse cenário hipotético, estima-se que haveria uma economia de R$ 460 milhões, mas que resultaria em uma redução de 30% da produção.

Supondo que todos os produtores pudessem compensar a queda na produtividade, causada pelo bicudo (sem controle), expandindo sua área produtiva, estima-se que teriam custos adicionais de R$ 2,53 bilhões.

Já ao se considerar a ausência de uma compensação via aumento de área, a quebra na produção do algodão, devido ao ataque da praga, levaria a um aumento nos preços internos de 5,5%.

A queda de produtividade de 30% combinada com um aumento de 5,5% no preço levariam à queda na Receita Bruta de 26%. O resultado da safra teria passado, então, de um lucro registrado de R$ 90 milhões na safra 2016/17, para um prejuízo de R$ 1,39 bilhão, configurando uma perda de R$ 1,48 bilhão para o conjunto de produtores.

As implicações desse cenário de ausência de controle do bicudo, queda na produção e elevação dos preços do algodão seriam, ainda, conforme as estimativas do modelo: queda de 26,2% da receita com exportações da pluma, aumentos de 0,024 ponto percentual no IPCA geral de 2017 e de 0,12 no IPCA alimentos.


Resistência, um prejuízo bilionário

A resistência de invasoras a herbicidas causa um rombo econômico gigantesco no bolso dos agricultores. Afinal, atualmente, na agricultura brasileira, há registro oficial de 51 biotipos de plantas daninhas resistentes a herbicidas, para 29 espécies e oito mecanismos de ação. Apenas para o glifosato, o herbicida mais “popular”, são nove espécies: buva (Conyza bonariensis, C. canadensis, C. sumatrensis), capim-amargoso (Digitaria insularis), capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), azevém (Lolium multiflorum), capim -branco (Chloris elata) e caruru (Amaranthus palmeri, A. hybridus). E esses biótipos resistentes estão espalhados nas principais regiões produtoras de grãos. “Em pesquisa liderada por colegas da Embrapa Soja, foi estimado que o custo médio da resistência de plantas daninhas para o sistema de produção da soja seja de, aproximadamente, R$ 5 bilhões/ano, que, se acrescido de outras perdas em função da matocompetição, esse total pode atingir R$ 9 bilhões”, revela o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Alexandre Ferreira da Silva (foto).

Mas existem estratégias de manejo a serem empreendidas por parte dos produtores para mitigar as adversidades. “Para o manejo de plantas daninhas resistentes a herbicidas, é importante a adoção de medidas preventivas, para evitar a entrada de biotipos resistentes, uso de plantas de cobertura, rotação de culturas, uso de herbicidas com diferentes mecanismos de ação, utilização de controle mecânico quando possível e erradicar focos de falhas de controle”, esclarece. “É importante integrar diferentes métodos de controle.” No entanto, Silva lembra que “pouca coisa” tem sido colocada em prática. “A maioria dos produtores se preocupa com a resistência apenas quando o problema já se encontra instalado em sua propriedade. As ações adotadas pela maioria consistem no manejo reativo. Trata-se de uma alternativa eficaz em um primeiro momento, mas que, se adotada por muito tempo, perde a sua efetividade.”

uívocos cometidos pelos agricultores que incrementam o problema da resistência: 1) Creditar que o manejo de plantas daninhas está relacionado somente ao controle químico; 2) Preocupar-se com o problema somente quando ele já se encontra instalado; 3) Não rotacionar os mecanismos de ação. De acordo com o pesquisador, os herbicidas são excelentes ferramentas de controle, “mas a resistência múltipla de plantas daninhas está nos falando que o uso de herbicidas sozinho não é uma prática sustentável”. Para tanto, adverte que é importante o produtor que não existe uma “bala de prata” que resolverá todos os seus problemas. “As novas tecnologias de OGM que estão surgindo para auxiliar no manejo de plantas daninhas, se não utilizadas dentro de um contexto adequado, logo perderão a sua efetividade. Dessa forma, é recomendado que o uso dessas tecnologias sempre esteja atrelado ao velho e bom conceito do Manejo Integrado de Plantas Daninhas, ignorado por muitos técnicos”, alerta.


O manejo das tigueras em tempos de resistência

A resistência aos princípios ativos de defensivos é o maior desafio do engenheiro-agrônomo e produtor Haroldo Cunha (foto), que cultiva uma área total (primeira e segunda safras) de 5,6 mil hectares em Turvelândia/GO – 2,7 mil hectares de soja, 1,5 mil de algodão, 800 de milho e 500 de sorgo. A área é cultivada desde os anos 1980, o que leva o produtor a concluir que, pelo longo tempo, os problemas fitossanitários são potencializados, e também por 650 hectares serem irrigados. E, entre os cultivos, o algodão, pelo ciclo mais longo, acaba por ser bastante atacado por pragas e doenças. Mas todas as culturas demandam muita atenção às invasoras, visto a resistência ao glifosato. “Tem que tentar fazer uma estratégia na qual não se tenha uma sobreposição de uma cultura com a outra com esses mesmos tipos de resistência, para evitar sobra de uma cultura para outra para proliferar pragas e doenças”, explica.

Cunha exemplifica que, com a biotecnologia, na área que abrigava soja resistente ao glifosato, em caso de plantio de algodão resistente ao mesmo princípio, se tornará complicado o controle das plantas da oleaginosa que restarem no terreno. “Você tem um leque muito restrito de opções de produtos para não ter aquela planta tiguera. Hoje, nosso foco é muito em cima de planta tiguera. Ao mesmo tempo, com soja e milho, é preciso cuidar do algodão tiguera, que seria um multiplicador de bicudo, a principal praga do algodoeiro. É muito difícil o controle, muito oneroso”, des creve a facilitação que as plantas tigueras oferecem para a proliferação de pragas e doenças. “Tem que ter cuidado para não ter algodão na hora em que ele não tem que estar. Isso exige um manejo cultural e um manejo de herbicidas muito bemfeito para evitar essa questão.”

As soluções

Como resolução, o produtor trabalha com produtos com mais de um modo de ação e mais eficientes, além de tratamentos preventivos em algumas situações, para, assim, evitar o excesso de “entradas” (pulverizações), pois, a partir do momento em que não se consegue controlar a doença, será preciso lançar mão de mais pulverizações. “Ou vão multiplicar as doenças que afetarão outras culturas”, afirma. Cunha lembra que, na realidade do Cerrado, com a sucessão primeira e segunda safras, por bem pouco tempo o solo permanece sem uma planta viva. “Então tem sempre ali um hospedeiro, seja de uma praga ou de uma doença com patógenos se multiplicando”, descreve. “Isso coloca a gente em uma posição de sempre ter um manejo cultural, manejo com produtos químicos bastante eficientes, de rotação de princípios ativos. E manter o nível de pragas e doenças sempre muito baixo para evitar as perdas na lavoura ou a passagem dessas pragas ou patógenos para a safra seguinte.”

Além disso, o produtor lembra da importância de atingir o alvo na pulverização, pois a aplicação inadequada tende O manejo das tigueras em tempos de resistência a levar ao aumento da dose do produto, o que ajuda a promover a resistência. “A tecnologia de aplicação é extremamente importante para você fazer não só no momento correto, mas na vazão certa, o bico de pulverização adequado, com pressão e vazão”, entende. Da mesma forma, o monitoramento da lavoura é fundamental. “As pulverizações não são com base em levantamento superficial. Nas lavouras, de quatro a cinco dias, entra alguém nos talhões para avaliar pragas e doenças. E o levantamento é feito em vários pontos do talhão.”