Milho

A segunda safra em Alto desempenho

São muitas as ações para se obter altos rendimentos do milho. Lembrando que boas produtividades também são consequência da sustentabilidade do sistema soja e safrinha, e da diversificação das espécies cultivadas no outono-inverno – com atenção às de cobertura

Aildson Pereira Duarte, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, [email protected]

O milho safrinha é definido como o milho sequeiro semeado na segunda safra, em sucessão de culturas, quase sempre depois da soja. É a modalidade de cultivo mais importante no País, tendo sua produção suplantando a do milho verão desde 2012. Em 2019, foram cultivados, aproximadamente, 12,5 milhões de hectares safrinha, cerca de 70% da área total do cereal no Brasil (Conab, 2019), concentrando-se em regiões onde o clima e o solo são propícios ao seu desenvolvimento. Particularmente nos estados de Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, que são os mais tradicionais na cultura, e nos chapadões de Goiás, Mato Grosso e, mais recentemente, expandindo para os estados de Maranhão, Piauí e Tocantins (Mapito), Rondônia, Pará e Oeste de Santa Catarina.

A produtividade média dos principais estados produtores de safrinha aumentou de duas para seis toneladas/hectare nos últimos 25 anos, mas de maneira descontínua. Em 2018, por exemplo, os estresses abióticos foram bastante severos em razão da ocorrência de seca e geadas, reduzindo a produtividade na maioria das regiões produtoras. Esse aumento de produtividade ocorreu principalmente devido à antecipação de semeadura, ao emprego de híbridos adaptados e às melhorias no manejo da adubação, juntamente com as tecnologias apropriadas de manejo de pragas, doenças e plantas daninhas. Destaca-se o emprego de fórmulas concentradas em nitrogênio (N) no sulco de semeadura nas regiões tradicionais de cultivo, a partir dos resultados de pesquisas na década de 1990 pelo Instituto Agronômico (IAC).

Os ganhos de produtividade foram muito pequenos nos últimos cinco anos, e os custos de produção continuaram aumentando devido ao agravamento de pragas e doenças na cultura. Na maioria das lavouras ainda persistem os problemas do desenvolvimento desuniforme das plantas e da heterogeneidade no peso das espigas. O objetivo deste artigo é apresentar quais são os principais desafios para suplantar os atuais patamares de produtividade e melhorar a rentabilidade da cultura do milho safrinha.

Época de semeadura

A maior parte do milho safrinha é semeada dentro da época de maior potencial produtivo. A adoção do sistema plantio direto faz com que a colheita da soja e implantação do milho sejam simultâneos, e os ajustes realizados no sistema de cultivo da cultura da soja anteciparam a época da semeadura do milho safrinha. O emprego de cultivares de soja com crescimento indeterminado e de ciclo mais precoce permitiu antecipar sua semeadura e colheita. Contudo, a irregularidade climática tem dificultado a antecipação da semeadura da soja, principalmente na região Norte/Noroeste de São Paulo e no Centro-Sul de Mato Grosso do Sul. Em algumas áreas, tem sido feita a dessecação da soja para antecipar ainda mais sua colheita.

O milho safrinha é semeado mais cedo nas regiões com elevada altitude ou latitude (PR-altitude e SC-Oeste, respectivamente) para escape das geadas. As semeaduras mais tardias ocorrem na região de transição climática, próximo da divisa dos estados de São Paulo e Paraná (Norte do Paraná e Médio Paranapanema em SP) e Centro-Sul do Mato Grosso do Sul, além do Sul de Minas Gerais.

Cultivares

Atualmente, a resistência ao complexo enfezamento e viroses é o primeiro critério utilizado para a escolha da culti var. Em 2018 e 2019, essa doença atingiu também as regiões paulistas do Médio e Alto Paranapanema, além do estado do Paraná, onde não eram observados seus sintomas e/ou prejuízos na produtividade. Considera-se também o custo das sementes e a adaptação produtiva da cultivar, e, dependendo da região, o ciclo, a sanidade foliar e a qualidade dos grãos. A precocidade é importante, evitando as cultivares mais tardias, principalmente nas regiões com ocorrência frequente

Arranjo populacional

Predomina população inicial de plantas em torno de 55 mil a 60 mil plantas por hectare, principalmente nas primeiras épocas de semeadura, reduzindo para 50/55 mil plantas por hectare nas semeaduras mais tardias. Nas regiões com maior restrição hídrica, é comum populações na faixa de 50/55 mil plantas/hectare e em ambientes de alto potencial de populações entre 60/65 mil plantas. O espaçamento reduzido de 45 a 50 centímetros é utilizado na maioria das propriedades em todas as regiões; corresponde à quase totalidade das lavouras nas regiões de altitude de São Paulo e Paraná, as quais eram tradicionais produtoras de milho verão. O espaçamento 45-50 centímetros facilita as operações mecanizadas na propriedade, por ser utilizado tanto para soja quanto para o milho safrinha, e proporciona o fechamento mais rápido da entrelinha pelas folhas do milho.

A qualidade geral da semeadura/ implantação da cultura é relativamente boa, mas ainda existem lavouras com distribuição irregular de plantas na linha, inclusive plantas duplas. O principal fator que afeta a qualidade é a velocidade excessiva de plantio, somada à umidade elevada do solo e aos problemas operacionais do mecanismo de distribuição de sementes. Destacam-se o uso de discos inadequados e a falta de uniformidade no formato das sementes. Cerca de 10% a 30% das semeadoras são equipadas com mecanismo pneumático, que requer menos trabalho para a sua correta regulagem, mas custa mais caro em comparação ao sistema de discos. No Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, em Minas Gerais, e nas áreas de altitude no Paraná, regiões tradicionais de milho verão, predominam semeadoras com mecanismo pneumático.

Adubação

O fator mais crítico na adubação do milho safrinha é o pouquíssimo emprego dos resultados de análises de solo para as recomendações dos fertilizantes, de acordo com nível de suficiência de cada nutriente. Nos estados de São Paulo, Paraná e parte do Mato Grosso do Sul, emprega-se a adubação no sulco de semeadura com fórmulas NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) concentradas em nitrogênio (ex.:12-15-15), complementando na maioria das lavouras com nitrogênio em cobertura, mas em doses insuficientes para repor as exportações nos grãos.

Nos chapadões do Brasil Central (Norte do MS, MT, GO) e estados ao Norte (RO, Mapito e PA), onde predomina a adubação a lanço com N e K (nitrogênio e potássio) ou N, K e S (nitrogênio, potássio e enxofre) apenas em cobertura, depois da emergência das plantas, é necessário antecipá-la para o momento da semeadura, o que é denominado de adubação de semeadura a lanço, complementada ou não com uma aplicação de nitrogênio a lanço até o estádio cinco folhas. Além disso, o uso de fórmulas padrões NK e NKS contendo mistura de grânulos de diferentes matérias-primas não atende, em muitas lavouras, à demanda nutricional da cultura, pois omite a aplicação de P, além de comprometer a qualidade da distribuição a lanço.

Controle de daninhas

O manejo das plantas daninhas é feito exclusivamente com herbicidas. O herbicida atrazine é utilizado em todas as lavouras por controlar eficientemente a soja resteva, que deve ser eliminada para atender às normas do vazio sanitário, e ainda controla a maioria das folhas largas. O uso da mesma tecnologia transgênica RR e a consequente aplicação de glifosato na soja e no milho safrinha está levando ao aparecimento de plantas resistentes a esse herbicida e à infestação das lavouras de soja com milho tiguera.

Uma das consequências é o aumento da ocorrência do complexo enfezamento e viroses nas plantas na maioria das regiões, pois os patógenos e os insetos vetores se beneficiam da ponte verde, tão temida nos primórdios do milho safrinha. Estima-se que o glifosato é aplicado continuamente na soja e no milho safrinha em aproximadamente três quartos das lavouras. Uma pequena parte das lavouras com híbrido RR não recebe a aplicação de glifosato, especialmente quando se usa a braquiária em consórcio com o milho safrinha, como ocorre frequentemente no Mato Grosso do Sul.

Manejo de pragas e doenças

Estima-se que, nos últimos oito anos, ocorreu um aumento de 170% no item atividades operacionais do custo de produção, devido, principalmente, ao aumento do número de pulverizações para controle de pragas e doenças. O percevejo-barriga-verde (Dichelops melacanthus e furcatus) e a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) são os insetos-pragas que ocorrem em todas as regiões de milho safrinha, seguido pela cigarrinhado-milho (Dalbulus maidis). A cigarrinha-do-milho é uma praga importante há, aproximadamente, quatro anos nas regiões do Triângulo e Alto Paranaíba, em Minas Gerais, e Norte/Noroeste de São Paulo. A eficiência do controle da lagarta-do-cartucho reduziu nos dois últimos anos na maioria das cultivares com as tecnologias transgênicas Bt, exceto para a Leptra e a Viptera, que contêm a mesma proteína.

Recentemente, a partir de 2015, estão ocorrendo surtos epidêmicos de enfezamentos e viroses, doenças transmitidas pela cigarrinha-do-milho e pelo pulgãodo-milho (Rhopalosiphum maidis), em importantes regiões produtoras. Os surtos epidêmicos de pragas – nesse caso específico, os insetos vetores desses patógenos – ocorrem, sobretudo, devido ao cultivo contínuo do milho (ponte verde) associado ao menor plantio de cultivares resistentes. O manejo dos enfezamentos engloba, principalmente, medidas preventivas, especialmente a eliminação de plantas voluntárias de milho tiguera RR na soja em sucessão, que podem servir de fonte de alimento para os vetores e para a multiplicação de inóculo dos patógenos. É importante, também, tratar as sementes com inseticidas para controlar a cigarrinha nos primeiros estádios de desenvolvimento das plantas.

O uso de cultivares resistentes e a aplicação de fungicidas são os principais métodos de manejo das doenças foliares. De maneira geral, as doenças foliares mais importantes no milho safrinha são a queima-de-turcicum e a mancha-branca. Em quase todas as regiões, os produtores fazem uma aplicação de fungicida e, em determinados ambientes e/ou nichos de alta tecnologia, passaram a fazer duas a três aplicações. Geralmente, a primeira é feita na última entrada do trator na cultura, próximo do estádio de oito folhas, e a segunda e terceira, no pré e pós-pendoamento.

Considerações finais

O aumento das produtividades tem assegurado a obtenção de lucratividade, mesmo com os custos crescentes principalmente pelos problemas mencionados anteriormente. Mas o aumento da produtividade tem sido interrompido periodicamente por adversidades climáticas, especialmente por seca, sendo necessário investir em práticas que aumentem o armazenamento de água e o aprofundamento das raízes no perfil do solo para diminuir os estresses hídricos. O aumento da adoção do consórcio do milho safrinha com braquiária demonstra que o agricultor está receptivo às novas tecnologias de manejo, desde que os benefícios sejam perceptíveis em curto prazo.

A nutrição de plantas é um dos pontos críticos, tanto por não utilizar os resultados de análise do solo como critério para recomendação de fertilizantes quanto pela reposição inadequada dos nutrientes exportados em quantidade cada vez maiores com o aumento das produtividades. Em suma, a adubação deve ser melhorada para assegurar maior arranque das plantas, repor os nutrientes e sustentar as altas produtividades.

O capricho na condução da lavoura tem sido menosprezado como fator crítico para altos rendimentos, comprometendo, principalmente, a uniformidade do estande do desenvolvimento das plantas e o peso das espigas. Por fim, os altos rendimentos dependem da sustentabilidade do sistema soja e milho safrinha, diversificando as espécies cultivadas no outono-inverno, com destaque para as plantas de cobertura, e reduzindo os dispêndios na proteção das plantas contra pragas e doenças.