Estiagem

Lavoura mais protegida

Técnicas de manejo adotadas pelos produtores podem ajudar a reduzir as perdas provocadas pelo déficit hídrico. Adesão ao seguro, que é importante medida para mitigar os prejuízos, vem aumentando no Brasil

Denise Saueressig [email protected]

Motivo de apreensão a cada nova safra e fator sobre o qual o produtor não exerce nenhum controle, o comportamento do clima pode ter seus efeitos atenuados com determinadas práticas de manejo. Quando o problema é a falta de chuva, como a que está ocorrendo nesta safra no Rio Grande do Sul, algumas técnicas sempre recomendadas, mas nem sempre seguidas, podem fazer a diferença no resultado final da lavoura.

O grande desafio é segurar a água onde ela cai, sustenta o chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Trigo, Jorge Lemainski. “Medida de altíssimo impacto e de baixíssimo custo é o plantio em contorno. Se planto morro acima e morro abaixo, tiro fora essa água da lavoura. É uma prática tanto para o controle da erosão quanto para o desenvolvimento das plantas. Se contenho a erosão, mantenho os nutrientes no solo, o que impacta sobre os custos”, destaca o pesquisador, lembrando que os terraços também colaboram para a retenção da água.

Reduzir os riscos de quebra de safra ainda passa pela diversificação do sistema produtivo e pela intensificação do uso da terra. “Raízes que podem ultrapassar dois metros, ao apodrecerem, geram os fluxos para a infiltração de água e os agregados de solo, onde estão os reservatórios de água e de ar para as plantas”, frisa Lemainski.

soja, os produtores façam o plantio dos chamados adubos verdes de outono, que podem ser milho, capim-sudão, milheto e sorgo. O milho e o sorgo, por exemplo, podem produzir entre dez e 20 toneladas de matéria seca por hectare em um ciclo. O pesquisador informa que um quilo de solo fértil pode ter 500 bilhões de bactérias, 10 bilhões de actinobactérias, 1 bilhão de fungos e mil quilômetros de filamentos de fungos, micro-organismos que precisam se alimentar da matéria seca gerada por essas raízes. “Só a safra de soja e de trigo, por exemplo, não fornecem o suficiente. Vamos pensar em um sistema pós-colheita da soja em que o produtor opta por uma dessas plantas por períodos entre 70 e 90 dias, e, na sequência, realiza o plantio da cultura de inverno. Em outubro ou novembro, no momento do plantio da soja, o custo com herbicida terá uma redução de, no mínimo, R$ 120,00, porque não haverá plantas invasoras como a buva”, detalha o pesquisador.

Lemainski cita o exemplo de uma propriedade em Sarandi/RS em que todas essas orientações foram seguidas. “Na safra 2013/14, esse produtor enfrentou 30 dias de sol, seguidos de apenas 7 milímetros de chuva e mais 45 dias de sol, com picos de temperatura acima de 40 graus nas duas últimas semanas. Mesmo assim, a produtividade em 149 hectares chegou a 57 sacas por hectare, enquanto lavouras no entorno não chegaram a 25 sacas/ha”, descreve.

Planejamento de longo prazo

Muitas sacas, em diferentes estados do País, vêm sendo perdidas em anos com ocorrência de veranicos devido à compactação do solo, acrescenta Lemainski. “No entanto, o Brasil tem a melhor tecnologia para a agricultura tropical para resolver esse tipo de problema. São fundamentos clássicos da agronomia, um conhecimento consolidado. O que precisamos é trabalhar pensando no futuro e sobre um manejo que pode reduzir os riscos”, salienta.

O gerente técnico da Emater/RS, Rogério Mazzardo, concorda. Para ele, uma safra de bons resultados se inicia com um planejamento eficiente que considere cultivares adaptadas e recomendadas para a região e um plantio que obedeça ao zoneamento agroclimático. “É interessante que o produtor estabeleça um escalonamento, com diferentes cultivares e épocas de semeadura. Nesta safra, no Rio Grande do Sul, o milho plantado mais cedo teve os melhores desempenhos porque escapou do período mais severo da estiagem. É uma forma de reduzir os riscos, também”, complementa.

O cultivo em solos com aptidão agrícola, a análise da fertilidade, o investimento na estrutura do solo, com rotação de culturas e plantas de cobertura que ajudem a diminuir a evapotranspiração são outras práticas importantes. “É uma programação que não depende da situação do mercado a cada safra, mas que deve estar na rotina do produtor”, constata Mazzardo.

O Rio Grande do Sul tem um potencial importante para a ampliação das lavouras de inverno, que muito podem colaborar para a melhoria das condições do solo. Na safra 2019/20, o estado plantou 5,956 milhões de hectares com a soja e 771 mil hectares com o milho destinado a grão. No inverno passado, no entanto, a área cultivada ficou próxima a 1,4 milhão de hectares, indicando que o restante das terras produtivas ou permaneceu em pousio, ou foi utilizada para a pecuária. “Esses cultivos, infelizmente, muitas vezes, são limitados por decisões relacionadas ao mercado”, reflete o dirigente da Emater.

No contato com os produtores, os técnicos da estatal gaúcha têm capacitação para transmitir orientações sobre práticas de agricultura conservacionista e sobre questões de acesso ao crédito, relata Mazzardo. “Faz parte do nosso trabalho incentivar que os produtores dentro do zoneamento façam a adesão ao Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária), que é um seguro público que vai garantir o seu custo em caso de problemas relacionados ao clima”, completa.

Segurança contratada

A lógica do seguro agrícola é a mesma do seguro feito para automóveis ou residências: o usuário paga para não precisar usar, mas, quando há ocorrência de sinistro, será a ferramenta que vai ajudar a mitigar as perdas. “Ainda que o nosso seguro seja incipiente e nosso programa de subvenção seja modesto, a recomendação é que o produtor use. Até porque, quanto mais pessoas contratarem, mais o seguro pode reduzir de custo, já que a escala será maior e as seguradoras conseguirão distribuir melhor os riscos”, declara o chefe do Departamento Econômico da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Cláudio Brisolara.

A adesão ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) cresceu no Brasil. Em 2019, o Governo disponibilizou R$ 440 milhões para a contratação, 19% a mais do que em 2018. O número de produtores atendidos aumentou 38%: 58.215 em uma área de 6,9 milhões de hectares. A soja lidera o número de apólices, com quase 43% do total. A subvenção do PSR depende da cultura e do tipo de apólice, mas, em 2019, a taxa ficou em uma média de 35% do prêmio.

Para este ano, o valor destinado ao PSR é de R$ 1 bilhão. “O Ministério da Agricultura tem colocado o seguro como prioridade na política agrícola. Existe a expectativa de que o orçamento possa crescer ainda em 2020, assim como se fala em um valor de R$ 2 bilhões para o próximo ano”, observa Brisolara. Para que o programa avance ainda mais no País, o dirigente da Faesp acredita que as seguradoras precisam adequar melhor seus produtos à realidade dos produtores, considerando, inclusive, o nível de tecnologia empregado. “Em alguns casos, a seguradora fixa um valor abaixo do que o produtor deveria receber, porque ela utiliza valores médios”, afirma. Para melhorar a avaliação dos riscos de cada cultura em cada região, o especialista também acha importante expandir as informações disponíveis, como histórico de produtividade e de ocorrências climáticas. “Quando a seguradora não tem esses dados, acaba fixando taxas que se tornam caras”, justifica.

Problemas confirmados

A falta de chuva e as altas temperaturas vêm afetando municípios do Rio Grande do Sul desde dezembro. No levantamento divulgado em fevereiro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou recuo de 12,4% na safra de milho gaúcha, para cerca de 5 milhões de toneladas. Na soja, a queda projetada até agora é de 5,9%, para 18 milhões de toneladas. Em análise preliminar anunciada em janeiro, a Emater/ RS apontou perdas no milho e no feijão próximas aos 30% em algumas regiões, enquanto, na soja, a projeção variou entre 10% e 20%. Neste mês, os dados serão atualizados.

No final de janeiro, o Ministério da Agricultura divulgou que o Proagro e o PSR registraram 6,7 mil comunicados no estado por perdas pela estiagem no milho, na soja e na uva, culturas mais prejudicadas. Os problemas no milho responderam por 54,5% do total.

Manejo preparatório e “banho” na lavoura

Alternativa de diversificação em regiões orizícolas, a soja é presença cada vez mais notada em áreas de várzea em propriedades da Zona Sul do Rio Grande do Sul. O produtor Jéferson Parreira, que é presidente da Associação dos Arrozeiros de Rosário do Sul, iniciou o sistema de rotação há cerca de dez anos, sobretudo para controlar o arroz vermelho. Hoje, as áreas que recebem o cereal depois da soja chegam a ter um incremento de produtividade de 20 sacas por hectare. Nesta safra, ele, o pai, Jorge, e o irmão Matheus cultivaram 70 hectares com o cereal e 170 hectares com a oleaginosa, dos quais 50 hectares em áreas de sequeiro. No inverno, as lavouras dão lugar à pastagem de azevém que serve ao gado de corte.

O planejamento voltado a bons resultados se inicia com adequações física, química e biológica do solo, com práticas de descompactação, calagem e uso de inoculantes. “Fazemos a escarificação para conseguir um maior aprofundamento das raízes, além de um manejo antecipado com pré-emergentes para diminuir a competição com plantas invasoras e um bom tratamento de sementes. Todo o trabalho é pensado na prevenção”, ressalta Parreira.

Uma ajuda extra também vem sendo utilizada nos últimos anos quando há déficit hídrico na região. A irrigação por “banho rápido”, aproveitando toda a estrutura que existe para o arroz irrigado, é possível em áreas sistematizadas, explica o engenheiro-agrônomo Julio Vasconcelos, diretor da Agroponto Fertilizantes. “É uma técnica que molha bem o perfil do solo e tem efeitos duradouros”, informa. A medida, segundo o especialista, também pode ser aplicada na lavoura de milho com posterior drenagem, já que o cereal é mais sensível ao encharcamento. “Em duas experiências que tivemos com a cultura, a menor produtividade ficou em 99 sacas por hectare e, a melhor, em 135 sacas por hectare”, revela.

Parreira conta que, nesta safra, a soja recebeu um banho no início de janeiro. Foram 40 hectares irrigados em dois dias, e ele calcula que o gasto foi de menos de 10% da água que utiliza no arroz. Plantando variedades que toleram mais o encharcamento, ele acredita que deverá alcançar médias entre 40 e 50 sacas por hectare no atual ciclo – entre áreas de sequeiro e de várzea – com potencial para até 80 sacas em alguns talhões. No arroz, a expectativa é para os 10 mil quilos por hectare, volume que já foi registrado há dois anos. A família também iniciou, nesta safra, uma área experimental de milho em um hectare.

Em Rosário do Sul, Julio, Matheus e Jéferson (da esq. para a dir.) destacam importância das adequações física, química e biológica do solo