O Segredo de Quem Faz

Foco na qualidade da semente

Denise Saueressig [email protected]

Desde janeiro, a Associação dos Produtores de Sementes dos Estados do Matopiba (Aprosem) tem como novo presidente o gaúcho Idone Grolli, de 66 anos. Quando chegou à região, há mais de 30 anos, o propósito ainda não era trabalhar no campo, mas a visão empreendedora e a vocação herdada da família ajudaram a impulsionar os negócios. Com 5 mil hectares cultivados em Balsas, no Sul do Maranhão, Grolli é fundador e diretor-presidente da Sementes Cajueiro, que, ainda neste ano, terá uma unidade de beneficiamento de sementes (UBS) em funcionamento em Roraima. Eleito para o biênio 2020/2021, ele conta que pretende trabalhar para debater a possibilidade de modernização da Lei de Proteção de Cultivares e para disseminar a importância de uma semente de qualidade para o resultado final na lavoura. Com sede em Luís Eduardo Magalhães/BA, a Aprosem foi criada em 2011 e representa 12 empresas responsáveis pela produção de cerca de 3 milhões de sacas de sementes de soja por safra em áreas do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia.

A Granja — Quais são os seus principais projetos à frente da Aprosem?

Idone Grolli — Cheguei ao Matopiba pela Bahia, fiquei dez anos trabalhando por lá e construindo amizade com muitos produtores. Em Balsas/MA, já estou há mais de 20 anos e também mantenho bons relacionamentos. Não se vive isolado em uma região de fronteira agrícola. Desenvolvemos espírito de parceria, de solidariedade, de trocar ideias, experiências e tecnologias. Sempre participei de discussões a respeito da implantação de estradas, do fornecimento de energia e de outras questões relacionadas às necessidades da região. O Maranhão, pelas condições climáticas, tem pouca produção de sementes. Preciso estar integrado ao processo regional e nacional para entender as demandas, as novas tecnologias. É bom que se integre à cadeia para que se consiga direcionar a empresa dentro do que é a tendência de mercado e contribuir com a sociedade. Já era vice-presidente da chapa anterior da Aprosem e também sou vice-presidente do conselho da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem). Queremos trabalhar pela maior sustentabilidade do setor sementeiro, protegendo quem trabalha no processo.

A Granja — Quais ações são defendidas nesse sentido?

Grolli — Queremos discutir uma possível modernização da Lei de Proteção de Cultivares, especialmente no que diz respeito ao uso próprio de sementes. O produtor tem os equipamentos para multiplicar suas sementes, mas o custo é da pesquisa para gerar uma nova cultivar para que ele tenha aumento de produtividade. Tudo isso o produtor recebe em casa, mas alguém está investindo dinheiro para gerar essa cultivar. Defendemos que ele possa usar seus equipamentos para produzir sua própria semente, mas o custo daquela tecnologia deve ser repassado ao obtentor, que é privado. Tudo isso é diferente da semente pirata, que é uma contravenção. O que defendemos é que se pague um royalty para o germoplasma como se paga um royalty para a transgenia. É claro que para o germoplasma é muito menor, em torno de 15 quilos por hectare, mas é o suficiente para bancar a pesquisa, que tanto ajuda o agricultor. Poderemos, assim, ter mais dinheiro para pesquisa e, de certa forma, uma proteção para os multiplicadores que levam essa tecnologia até a casa do produtor. Tudo isso está sendo discutido, mas é preciso conciliar os vários interesses.

A Granja — Qual é a estimativa do uso de sementes certificadas na região do Matopiba?

Grolli — Na soja, acreditamos que esteja em torno de 70% no Tocantins e no Maranhão, e cerca de 50% na Bahia e no Piauí. Uma das nossas metas é ampliar esses índices. Outro objetivo é intensificar o treinamento de funcionários das UBS sobre diferentes aspectos que envolvem a qualidade da semente para que os produtores entendam, cada vez mais, que, quando ele compra uma semente certificada de um sementeiro de alto nível, vai haver diferença de produtividade. O germoplasma vai custar, por 40 quilos de sementes, o equivalente a duas sacas de grãos. Se o produtor trabalhar com uma semente de alto vigor e germinação, vai conseguir uma plantabilidade perfeita e mais do que cinco sacas de diferença de produtividade. Portanto, se comprar uma semente com esse padrão, não paga duas sacas por hectare, mas ganha três, porque produziu cinco a mais e pagou duas pela semente. Lembrando que guardar a própria semente também tem um custo. Queremos que os sementeiros e técnicos treinados pelas associações levem ao produtor as melhores tecnologias, mas também a informação qualificada. Precisamos ter a calculadora na mão para mostrar que o uso da semente certificada é uma vantagem em relação ao uso próprio, pelo aumento da produtividade, pela qualidade e pela homogeneidade dos grãos que resulta, inclusive, em um tratamento industrial com recobrimento melhor. Acreditamos que não devemos impor por lei algo que a pessoa não queira fazer, mas sim convencer e provar que é melhor.

A Granja — Qual é a sua trajetória na agricultura?

Grolli — Sou gaúcho, natural de Encantado. Sou formado em Administração de Empresas e trabalhava na antiga Ceval, que foi comprada pela Bunge. Em 1987, fui convidado para trabalhar na área de soja em Barreiras, na Bahia. O Matopiba precisava de muito naquela época. Eu trabalhava respondendo a diferentes áreas, porque havia dificuldade de comunicação, inclusive, mas atuava principalmente na área comercial. A partir de 2000, tornei-me agricultor em Balsas, no Maranhão. Associei-me a um amigo e, em 2002, iniciei a produção de sementes de soja com licenciamento da Embrapa. Em 2004/2005, também comecei a trabalhar com a Monsanto e, em 2007, adquiri ações da FT Sementes. A partir de 2007/2008, depois do fim da sociedade com meu amigo, passei a me dedicar a meu próprio negócio. Hoje, minha família administra a Sementes Cajueiro, em Balsas. Na soja, multiplicamos materiais da Embrapa e da FT. Neste ano, estamos iniciando também no milho, em genética própria e em licenciamento da Syngenta.

A Granja — Como foi a decisão de se tornar produtor?

Grolli — Sou filho de produtores. Minha infância e juventude foram vividas como agricultor. Trabalhei um tempo na área urbana, mas tinha na veia a vocação para o campo. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, em uma época de tantos planos econômicos no Brasil, a agricultura em regiões de fronteira agrícola era muito pouco valorizada, as terras não valiam nada. Mas eu já tinha acumulado algum conhecimento na área, já tinha ido ver a realidade da agricultura nos Estados Unidos, e sabia que haveria um momento em que aquilo tudo teria mais valor. Como não tinha o capital necessário para iniciar sozinho, comecei em sociedade. Também coincidiu com um momento de avanço das tecnologias da informação e o fechamento de muitos cargos de diretoria que as empresas do setor mantinham na região. Mas percebi que o caminho era seguir no setor. Já tinha filhos na faculdade, já estava na região há bastante tempo, então resolvi me dedicar plenamente à atividade. Tinha adquirido terras na década de 1990 e, em 2000, resolvi vender essas terras que estavam na Bahia e investi no Maranhão. Comprei metade de uma propriedade já em funcionamento no estado. Começamos com mil hectares, meu sócio e eu, 500 hectares cada um. Comecei com soja e fruticultura. Na época, a soja não dava lucro. Então, por um tempo, cultivei abacaxi e melancia para poder ter uma receita maior por hectare. Da fruticultura fui para a semente, também para agregar valor à produção de grãos. Como administrador, concluí que não poderia ficar ocioso e que precisava de receita na entressafra. Esse tempo de maior diversificação foi a época de desenvolver o mercado, quando eu produzia apenas 10 mil, 20 mil sacas de sementes por ano. Quando comecei a produzir 100 mil sacas de sementes por ano, passei a me dedicar 100%, porque precisava dar um foco maior naquilo que virou meu carro-chefe.

A Granja — Qual é a estrutura dos negócios atualmente?

Grolli — A Sementes Cajueiro, que é a empresa da nossa família, cultiva 5 mil hectares em Balsas, dos quais 520 hectares são irrigados. Produzimos 200 mil sacas de sementes de soja por safra e também pretendemos produzir 15 mil sacas de sementes de milho. Em Macapá/ AP, plantamos 700 hectares de soja grão e também estamos montando uma UBS em Roraima, junto à capital Boa Vista.

A Granja — Quais são os planos para essa UBS?

Grolli — Quem fornece semente aos produtores de Roraima percorre uma distância de 3 mil, 3,5 mil quilômetros. É muito longe para abastecer um estado em que a soja está em crescimento. Muitos produtores já são meus clientes por lá. Até julho ou agosto, esperamos que a UBS esteja pronta, com uma capacidade para 80 mil sacas de produção. Nos próximos três ou quatro anos, se houver expansão do mercado, podemos pensar em expandir a unidade, também. Mas pretendemos atingir, inicialmente, em torno de 50% do mercado. Queremos ganhar confiança, atender à demanda com sementes de alta qualidade, mas sem a pretensão de sermos um fornecedor único. Vamos trabalhar com a genética da Embrapa e da FT. É um investimento de cerca de R$ 1,5 milhão, com estrutura em uma fazenda que já opera com moega e secador. É uma área de um produtor parceiro que também é dono de uma revenda. Então ele será tanto produtor quanto revendedor, e eu entrarei com a genética e a indústria. Se houver necessidade, também vamos trabalhar com outros produtores.

A Granja — E a produção que vocês mantêm no Amapá?

Grolli — Em Macapá, cultivamos soja para exportação. Plantamos a uma distância de 60 quilômetros do navio. É uma logística perfeita. Como tenho experiência nessa área, percebi de perto o impacto da logística na venda de grãos. Com essa localização, pago em torno de R$ 3,00 por saca em frete. Mas claro que a viabilidade econômica não vem apenas da logística. Com o tempo, estamos investindo e conseguindo melhorar a produtividade. Cultivamos lá há cinco anos, mas é uma propriedade arrendada. Foi uma decisão em família como mais uma estratégia de negócios. É uma produção que está no Hemisfério Norte e que também não concorre em época com outras regiões exportadoras.

A Granja — Como é a evolução da produtividade naquela região?

Grolli — Nas áreas mais antigas, com fertilidade boa, já atingimos até 64 sacas por hectare de média. Em algumas áreas pequenas, até 70 sacas. Mas a média é entre 45 e 50 sacas por hectare. Em termos de cultivares, já há um potencial genético alto. O que precisamos é acertar a data de plantio, a população de plantas, os tratos culturais, a fertilidade, que é só conquistada com alguns anos de cultivo. Temos que trabalhar a rotação de culturas, a formação de palhada. Há todo um trabalho a ser construído, mas a genética já oferece produtividades interessantes. Também já há á produtores fazendo milho safrinha na região. Chove bastante, são 3.500 milímetros em oito meses, mas temos que encontrar variedades tolerantes à chuva. Começa a chover em dezembro, e nós plantamos em março para colher em final de julho e em agosto. É uma região que ainda carece de estrutura. Faltam armazéns, secadores, não tem condições para colher e secar volumes grandes. Estamos buscando ajustes e o incremento do fator segurança, mas é uma questão de tempo para consolidação dos investimentos.

A Granja — E como está estruturada a área da Sementes Cajueiro em Balsas?

Grolli — Cultivamos entre 16 e 20 diferentes cultivares para a produção de sementes de materiais convencionais e transgênicos. Além da soja, cultivamos milho em pivô e também milho safrinha em torno de 30% da área. No restante, cultivamos milheto como cultura de cobertura. Também rotacionamos a área do milho todos os anos. Pretendemos ampliar a área com o cereal e também a área irrigada. Estamos próximos à linha do Equador e temos temperatura constante. A diferença do menor e do maior dia do ano são 15 minutos, e as temperaturas são altas o tempo todo. Tendo irrigação, é possível plantar em qualquer época que o resultado em produção será muito próximo. Mas, em alguns anos, enfrentamos problemas com veranicos. Hoje, são 520 hectares irrigados para o milho e a soja. Minha ideia, para os próximos cinco anos, é chegar a 1,5 mil hectares irrigados, mas é preciso analisar bem a questão da água. Gostaria também de ampliar a área com milho safrinha, mas essa situação depende do mercado.

A Granja — Além de abastecer o mercado interno, a empresa já exportou sementes para outros países. Como está esse mercado?

Grolli — Estamos bem próximos à linha do Equador, assim como a Venezuela, a África. Já vendemos sementes para países como Camboja, Sudão, Nigéria, por exemplo, porque temos cultivares semelhantes ao necessário nessas regiões. São demandas pontuais, pelas condições parecidas e cultivares adaptadas, e também por recomendação da Embrapa pelos convênios e parcerias que a empresa mantém com outros países. Estamos em uma região com poucos sementeiros, então, às vezes, surgem essas oportunidades de negócios.