Colheita do arroz

O desafio da sustentabilidade

A 30ª edição da Abertura Oficial da Colheita do Arroz foi realizada no mês passado, em Capão do Leão/RS, e reuniu 7,5 mil pessoas

O tema “Intensificação para Sustentabilidade” conduziu a programação da 30ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz, realizada entre 12 e 14 de fevereiro, na Estação Experimental Terras Baixas, da Embrapa Clima Temperado, em Capão do Leão/ RS. O evento, realizado pela Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), com correalização da Embrapa e patrocínio premium do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), reuniu em torno de 7,5 mil pessoas em palestras, orientações técnicas, demonstrações a campo e lançamentos de tecnologias de empresas e instituições públicas.

Presente à cerimônia de abertura da colheita no dia 14, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, anunciou que o estado terá um Terminal Logístico do Arroz (TLA) no porto de Rio Grande com a assinatura do lançamento do processo licitatório para a administração de uma área que pertencia à Companhia Estadual de Silos e Armazéns (Cesa). A estrutura irá facilitar a logística e impulsionar as exportações do arroz produzido no estado. O local tem mais de 60 silos, com capacidade total de armazenamento de cerca de 50 mil toneladas.

O governador destacou a importância da cadeia orizícola, tendo em vista que o Rio Grande do Sul é o maior produtor do cereal no País, com cerca de 70% do total. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra gaúcha 2019/20 é de 7,3 milhões de toneladas, redução de 1,2% em relação ao ciclo anterior. A área também recuou: 940 mil hectares, queda de 6,1%.

O presidente da Federarroz, Alexandre Velho, ressaltou que o governo atende a uma demanda do setor com o TLA. “A iniciativa vai solucionar uma necessidade de modernização do porto em função da pauta da federação de buscar novos mercados”, destacou. Segundo ele, é necessário continuar in crementando a exportação para diminuir a pressão dos preços no mercado interno.

Ao justificar o foco do evento, o dirigente abordou questões de fundamental importância, como a diversificação. “Não é por acaso que reunimos soja, pecuária, armazenagem e pastagem com arroz. Estamos insistindo nesse sistema de produção, pois acreditamos que é o grande caminho para o produtor trazer renda ao seu negócio”, afirmou.

A Abertura da Colheita também foi marcada por uma homenagem especial ao Irga, que completa 80 anos em 2020. O presidente da autarquia, Guinter Frantz, recebeu de Alexandre Velho uma “Pá do Arroz” em comemoração à data.

Programação da lavoura

O PlanejArroz foi uma das novidades da Embrapa durante o evento. O aplicativo, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria/RS (UFSM), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Irga, é apresentado em dois módulos. No primeiro, a tecnologia utiliza o método de graus-dia para estimar a data de ocorrência de seis estádios de desenvolvimento das cultivares recomendadas – 41 cultivares – na média dos anos e na safra, visando ao planejamento e à tomada de decisão sobre o manejo da cultura.

O produtor escolhe o município da sua lavoura, sendo disponibilizada a consulta a 131 cidades gaúchas. O segundo módulo utiliza o modelo SimulArroz para estimar a produtividade de grãos, na média dos anos e na safra, das três cultivares mais semeadas no Rio Grande do Sul. “Essa ferramenta vai melhorar o manejo da lavoura. O produtor tem uma cultivar importante e produtiva, mas ela não tem o rendimento esperado na lavoura pelo fato de o produtor não fazer o manejo correto. O aplicativo, então, planeja e ajuda o produtor a tomar a decisão de realizar as práticas de manejo e adequar as informações conforme a safra”, explicou o pesquisador Silvio Steinmetz.

Nas vitrines tecnológicas da Embrapa também foi apresentada a futura cultivar de arroz irrigado BRS A705, que deverá ter lançamento comercial ainda neste ano. Sua característica forte é a resistência ao acamamento, agregando alta produtividade e qualidade de grãos. Testes experimentais indicam rendimentos que podem alcançar uma marca superior a dez toneladas por hectare.

Um dos assuntos abordados em palestras realizadas durante o evento foi a irrigação por aspersão. Pesquisas realizadas pela Embrapa Clima Temperado indicam que a prática representa economia de 40% de água comparado ao sistema por inundação. O método também garante redução dos custos das lavouras de até 20%, chegando a mais de R$ 1 mil anuais por hectare, mesmo quando se considera uma pequena redução na produtividade em relação ao sistema inundado.

Riscos no financiamento

Um levantamento do financiamento da lavoura arrozeira nas últimas dez safras aponta uma forte descapitalização do produtor, a redução do crédito rural controlado e o aumento do financiamento nas indústrias, inexistente em 2010 e que, hoje, responde por mais da metade do total do mercado, juntamente com revendas e cooperativas. O estudo foi realizado pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) e divulgado durante a abertura da colheita.

Em 2010, ano do início da pesquisa, o capital próprio do produtor respondia por 35% do total dos custos. Em 2019, esse percentual caiu para 10%. No mesmo período, o crédito rural controlado recuou de 50% para 20% dos recursos captados. Para o economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz, a dependência por recursos externos afeta diretamente no gerenciamento do negócio. “O efeito da queda do capital próprio é que o produtor compra mal os insumos e vende mal seus produtos”, analisou.