Palavra de Produtor

NOVO DESAFIO GLOBAL

Em 1918, quando meus avôs migraram, de trem, do Rio Grande do Sul para Santa Catarina, ficaram sete dias confinados em um hotel, na cidade de Santa Maria/RS, pela falta de maquinistas. Causa: gripe espanhola. À época, essa gripe levou nove meses para se espalhar pelo mundo. Morreram milhões. Foi identificada como H1N1. Em 1956/1958, surgiu a gripe asiática causada pela cepa H2N2, tendo por origem a China. Em 1968, irrompeu a gripe de Hong Kong com a identificação de H3N2. Em 1996, a partir de um ganso, foi identificado, em Hong Kong, o vírus H5N1, denominado de influenza aviária. Em 2002 ocorreu, na China, o surto denominado SARS, tendo como origem animais silvestres vendidos em mercados. Em 2009, ressurgiu, no México, misteriosamente, o vírus H1N1, provocando nova pandemia. Esse caso atípico foi denominado de gripe suína. Em 2012, foi descoberta, na Arábia Saudita, uma variante viral denominada MERS. Em 2018, espalhou-se pela China a peste suína africana por conta do modelo de produção de subsistência lá empregado. Em 2019, foi identificado o coronavírus de Wuhan, sob a designação de coronavírus 2019 – nCoV.

Esse retrospecto histórico demonstra que as mutações virais têm se acelerado. Para melhor entender e estudar essa velocidade de eclosões e dispersão planetária, taxa de mortalidade humana e o crescente impacto econômico global, como ora verificado, torna-se necessário aprofundar a integração dos países nas áreas de saúde humana e animal. Essa leitura da cronologia viral evidencia: concentração crescente da população humana em grandes cidades; produção de subsistência de seres vivos sem regras sanitárias; hábitos culturais “exóticos” no consumo de fontes protéicas; elevada mobilidade humana, citando-se o transporte aéreo de pessoas – em 2009, foram 2,4 bilhões, e, em 2019, aproximadamente 4,5 bilhões que, em menos de 36 horas, chegaram a qualquer destino na face da Terra.

Como os principais surtos são de origem zoonótica, tem-se por onde começar o fortalecimento global de protocolos sanitários na produção, na fiscalização e na distribuição de proteínas. Países como a China deverão determinar o banimento de práticas que trazem riscos globais. O Brasil é um exemplo na questão sanitária, quando proíbe terminantemente a produção de animais e aves no perímetro urbano das cidades. A verticalização das fontes protéicas nos países é uma demanda global e, para isso, serão necessárias diretrizes políticas claras e duras.

Novamente, resgato fatos da história recente da China. Mao Tsé-Tung, entre 1958/1960, deflagrou a campanha “Grande Salto Adiante”, que, pelo fracasso, levou à morte dezenas de milhões de chineses pela fome. Naquele período, tudo que se movia era passível de ser comido. Entre 1966/1976, Mao lançou a Revolução Cultural, que levou milhões a “campos de reeducação”, morte, suicídios e deportação para o campo. As vítimas eram diversificadas, e até filhos de líderes da Grande Marcha foram exilados no campo – entre eles, Xi Jinping e Li Kequiang. Assim foram seus anos de juventude, assim viveram.

Hoje, o principal mandatário chinês, Xi Jinping, tem o passado a lhe lembrar que determinadas práticas de seu povo precisam ser modificadas, e a China, com sua inserção no mundo, tem profundas responsabilidades para evitar a repetição dessas ocorrências virais. As primeiras notícias são auspiciosas quanto ao nível de transparência adotado em relação ao coronavírus de Wuhan. O tempo presente demanda maior integração, empregando os modelos da agropecuária científica já globalizada, para imprimir as necessárias e urgentes medidas internas.

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano