Herbert & Marie Bartz

CONTOS DA ÁFRICA: MEMÓRIAS NA ÁFRICA DO SUL

Neste mês, vamos dar continuidade ao relato que Herbert Bartz fez sobre sua vivência em terras da África do Sul, em 2002. “A agricultura em escala comercial na África do Sul era praticada pelos brancos, de origem europeia – na sua maioria holandeses e ingleses. Eles possuíam grandes áreas, em geral, em localidades com baixíssima precipitação (de 350 a 500 milímetros), mas que os obrigaram a desenvolverem técnicas sofisticadas de produção de milho e sorgo. Grande parte da renda obtida na produção era gasta com armamento bélico e milícias treinadas para defesa contra assalto e invasão de bandidos.

Para mim, era tudo muito assustador, uma realidade muito além da que eu vivia; no entanto, eles consideram isso bastante natural. Pairava-me a dúvida de quanto tempo a classe média aguentaria tanta pressão social e política, uma vez que era quem gerava e executava as tecnologias mais avançadas. O nosso meio de transporte nessa viagem era um automóvel Toyota Corola com mais de 400 mil quilômetros rodados, mas de uma confiabilidade absoluta. O guia Richard Fowler (in memoriam) me relatou que sua única rotina de manutenção eram as trocas do óleo do motor e filtros, e a checagem da pressão dos pneus. Fowler tinha hábitos ingleses e gostava demais de ovos com bacon, nada mais típico.

Durante a maior parte da viagem, que foi em estrada de chão, encontrávamos somente feiras rurais. Eu comprava tomate, cebola e alho, e, de vez em quando, uma latinha de sardinhas, o que Fowler não considerava comida – ele acabava consumindo enormes volumes de mandioca e carne frita. Nosso objetivo maior era cumprir a quilometragem pré-estabelecida para que pudéssemos encontrar e visitar o maior número possível de agricultores e técnicos, que, na sua maioria, sempre estavam ávidos para discutir a tecnologia da agricultura conservacionista. O Brasil e o sistema plantio direto era (ainda é) um modelo de agricultura conservacionista a ser seguido conforme uma recomendação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Banco Mundial no 1º Congresso Mundial de Agricultura Conservacionista*, realizado em Madri, na Espanha, em 2001.

No final dessa exaustiva viagem de carro, Fowler ainda me fez uma grande surpresa. Estávamos no Leste da África do Sul, onde Fowler me fez conhecer um pequeno Reino Zulu que tinha poderes políticos absolutos. Na sequência, Fowler tinha conseguido duas passagens aéreas para Cape Town, onde havia um grupo maior de agricultores nos esperando. Fomos muito bem recebidos e, em poucos dias, participamos de várias reuniões com agricultores e técnicos, que eram quase todos amigos de Fowler. Nesses últimos dias de minha visita, Fowler organizou um encontro com mais ou menos 12 agricultores top (referências), que possuíam áreas de até 500 hectares, para uma demonstração com tratores de 300 hp a 450 hp e equipamentos de chiseling (subsolagem) de até 50 centímetros de profundidade, objetivando romper as camadas compactas em profundidade.

Eles afirmavam que não havia minhocas nos solos africanos. Mas, ao lado da área de demonstração, havia um local para estacionar os grandes implementos e que tinha capim de grande porte “amassado” (área que antes servia para pastoreio), cobrindo e protegendo todo o solo, mantendo também os pés dos visitantes limpos. Causou estranheza aos participantes o meu pedido por uma pá vanga, porque havia diversos buracos de até 1,5 metro de profundidade na área demonstrativa dos equipamentos, mostrando e provando a completa insistência de minhocas. Os agricultores enfatizavam que aqueles solos não tinham minhocas.

Trouxeram-me a vanga e, com muito esforço, pois eu usava sandálias, consegui tirar um tijolão de quase 20 centímetros cúbicos de solo na área ao lado com o capim amassado. O solo estava bem enraizado e úmido, com a rica camada de capim na superfície. Fomos tirando devagarinho, e todos os participantes observavam atentamente o buraco, que, para a surpresa de todos, havia ali uma minhoca se movimentando com pressa, à procura de abrigo. A admiração foi enorme para os agricultores, e não foi difícil para mim realçar a importância da cobertura e da não movimentação do solo para a sua qualidade, que, de forma muito simples, é mostrado com a presença das minhocas.

A experiência que tive com essa rica viagem, o que me surpreendeu bastante era o fato do meu nome e o sistema plantio direto brasileiro serem conhecidos e muito discutidos na época. Uma atenção especial foi dada às plantadeiras brasileiras fabricadas no Rio Grande do Sul e em São Paulo. E minhas apresentações terminaram sempre com a minha tese de que as minhocas, cuja presença exigia qualidade e diversidade de matéria orgânica através da rotação de culturas, eram fundamentais para o um sistema plantio direto bem-sucedido. Não posso deixar de ressaltar que a fantástica colaboração de Fowler fez com que eu recebesse mais informações do que podia oferecer de volta. Essa troca não tem preço. É como registro minha dívida e gratidão pela grande hospitalidade e acolhimento de Fowler e seu círculo de amizade, sobretudo o da África do Sul.” *Neste ano, ocorre em Berna, na Suíça, de 29 de junho a 2 de julho, o 8º Congresso Mundial de Agricultura Conservacionista (https://8wcca. org/). A oportunidade ímpar para saber como anda a situação mundo afora, mas, principalmente, aproveitar a rica troca de experiências dos que lutam em prol de uma agricultura sustentável, especialmente através do sistema plantio direto.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo, pesquisadora na Universidade de Coimbra