Futuro Biotecnologia – Edição gênica

A possibilidades da EDIÇÃO GÊNICA

Diversidade maior de culturas e atributos, nanotecnologia verde e técnica do CRISPR-Cas9 são tendências para o melhoramento de plantas nos próximos anos

Denise Saueressig [email protected]

O homem vem adaptando e selecionando espécies desde a origem da agricultura, há cerca de 10.000 anos a.C. Todo o avanço presenciado ao longo do tempo por meio de diferentes técnicas de melhoramento resultou nas plantas que conhecemos hoje. Mas as possibilidades da biotecnologia são fartas, e a busca por materiais cada vez mais produtivos e saudáveis será incessante.

O Brasil se tornou o país com a maior área plantada de soja geneticamente modificada na safra 2018/2019, segundo a consultoria Céleres. Foram 34,86 milhões de hectares por aqui, e 34,09 milhões nos Estados Unidos. No ciclo 2019/20, a área com as culturas transgênicas no Brasil deverá alcançar 53,1 milhões de hectares, 93% do total nas lavouras de soja, milho e algodão.

Diante de números tão expressivos, o produtor brasileiro tem como grande desafio o manejo adequado das áreas para o incremento da vida útil das tecnologias e da rentabilidade das lavouras. “Práticas como a adoção da área de refúgio, o monitoramento e a rotação de culturas e/ou de produtos não podem ser dispensadas”, alerta a bióloga Adriana Brondani, fundadora e diretora da Biofocus Hub.

Assim como vai continuar o desenvolvimento de materiais resistentes a insetos e tolerantes a herbicidas – principais características dos transgênicos cultivados no País –, os próximos anos apontam para o aumento de OGMs em uma maior diversidade de culturas e também com uma maior variedade de atributos, como benefícios nutricionais e resistência a fatores de estresse abiótico – como a seca –, assinala Adriana.

A nanotecnologia verde é outra importante perspectiva, aponta o pesquisador Eduardo Romano (foto acima), da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. “A técnica emprega micropartículas carreadoras de compostos não tóxicos, como extratos vegetais, algas e fungos, para, por exemplo, controlar pragas e doenças”, diz. “O controle químico amplamente utilizado hoje é necessário para uma produção agrícola de alta produtividade, mas, por outro lado, existe a necessidade de desenvolvermos alternativas ambientalmente mais sustentáveis para a agricultura de larga escala”, complementa.

Melhoramento mais preciso

Revolucionária forma de modificar geneticamente plantas, a técnica de edição gênica CRISPR-Cas9 é a grande tendência para o futuro, na avaliação dos especialistas. Em tradução literal, o termo CRISPR significa “conjunto de repetições palindrômicas curtas regularmente espaçadas”. Localizado perto dessas sequências de DNA está o gene que expressa a enzima Cas9, que tem a capacidade de cortar precisamente o DNA. O pesquisador Eduardo Romano explica: “Na transgenia, transferimos, por exemplo, um gene de uma bactéria para o genoma da soja. Já na edição gênica, fazemos uma pequena modificação no DNA da própria soja sem introduzir um gene de outra espécie. É uma modificação muito mais precisa e permitirá obter uma ampla gama de variedades mais resistentes a doenças e pragas. Plantas com maior produtividade, mais adaptadas às condições ambientais adversas, como seca e solos salinos, variedades com melhor valor nutricional e melhor qualidade, como trigo sem glúten e soja com óleos menos saturados”, enumera.

A CRISPR-Cas9 é uma das técnicas inovadoras de melhoramento de precisão (TIMPs), descreve Adriana, lembrando que, como não são considerados transgênicos, esses produtos podem chegar ao mercado cinco vezes mais rápido do que os OGMs. “Também abre possibilidades para que pequenas empresas, universidades e instituições públicas de pesquisa participem do processo de desenvolvimento, aumentando a oferta aos produtores”, salienta.

Os custos para lançamento comercial também são inferiores, conclui Romano, citando que a regulamentação de uma planta transgência pode custar mais de US$ 50 milhões. “A redução de custos deve gerar uma diversificação de produtos. Poderemos ter plantas de cunho social relevantes para a segurança alimentar, como feijão e mandioca, e com características mais voltadas às demandas dos consumidores”, argumenta.

O cientista atesta que existe uma convergência internacional no sentido de considerar plantas editadas como convencionais. O entedimento vem sendo aplicado por órgãos de regulamentação do Brasil, dos EUA, da Argentina, do Chile, da Colômbia e do Canadá, entre outros. No entanto, o cenário regulatório mundial não está completamente consolidado, já que a União Europeia decidiu que plantas editadas devem ser avaliadas como transgênicas. “As principais empresas multinacionais estão desenvolvendo plantas editadas, e, recentemente, a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) autorizou a comercialização do primeiro milho editado no Brasil, da empresa Corteva, que apresenta maior conteúdo de amilopectina”, informa Romano.

A Embrapa, segundo o pesquisador, está lançando um amplo programa de melhoramento genético por edição gênica em parceria com grandes empresas e pequenas startups. Para o especialista, parte dessas vantagens potenciais para o produtor brasileiro só devem ser concretizadas caso o Brasil saiba aproveitar o momento e investir na participação do setor público na área de edição gênica e na ampliação das parcerias com o setor privado, o que levaria a uma diversificação saudável do mercado de sementes. Romano ainda acredita que outro ponto que irá influenciar o mercado será a harmonização ou não da regulamentação internacional, principalmente se a Europa seguir o entendimento dos demais países que consideram plantas editadas como não transgênicas.