Futuro Sustentabilidade – Meio ambiente

Produção aliada do MEIO AMBIENTE

O Brasil é modelo em práticas sustentáveis, como o sistema plantio direto e a integração lavoura-pecuária-floresta. O crescimento das duas tecnologias depende, entre outros fatores, de manejo adequado e de ações de capacitação

Denise Saueressig [email protected]

A continuidade do crescimento da agropecuária brasileira passa, em grande parte, por práticas sustentáveis. O País é referência em modelos que trabalham em conjunto com a responsabilidade ambiental e o aumento da rentabilidade, como o sistema plantio direto (SPD), que é considerado uma das grandes revoluções da nossa agricultura. O modelo está amparado em três princípios fundamentais: o não revolvimento do solo (restrito à linha de semeadura ou a covas para mudas), a cobertura permanente do solo com plantas vivas ou palhada e a diversificação de plantas na rotação de culturas. A área com SPD no Brasil é estimada em torno de 35 milhões de hectares. No entanto, o sistema, conduzido rigorosamente com base nos três pilares, está presen te entre 12 milhões e 15 milhões de hectares, enumera o produtor Jônadan Ma, diretor-presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp).

Embora acredite que esses números estão evoluindo, o dirigente considera que é preciso trabalhar sobre diferentes parâmetros para um avanço ainda maior e concreto. Um deles envolve aspectos conjunturais sobre a importância do País no fornecimento mundial de alimentos e, ao mesmo tempo, a responsabilidade ambiental esperada no manejo de todos os biomas. “O SPD é a tecnologia que nos afasta do desmatamento e que nos ajuda a entregar um sistema de redução de emissões de gases do efeito estufa. É uma questão de política, de estratégia de crescimento sustentável. Por isso, é necessária uma ação integrada entre os representantes da cadeia, incluindo órgãos do governo e instituições de pesquisa, para o estímulo às práticas conduzidas adequadamente”, ressalta Ma.

Do ponto de vista econômico, o produtor precisa e continuará precisando do amparo do SPD para produzir mais gastando menos. “Quando bem manejado, o sistema proporciona redução de custos nas operações e no uso de insumos, com incremento de produtividade. E o grande desafio do produtor é calcular não apenas quantas sacas a mais ele consegue colher, mas quantas sacas sobram por hectare ao final da safra, ou seja, a rentabilidade da atividade”, observa o presidente da Febrapdp.

O fundamento técnico, e que representa a eficiência da prática, engloba especialmente o trabalho pela redução das perdas físicas de solo por problemas como a erosão causada pela retirada dos terraços. Para Ma, o futuro do SPD passa, obrigatoriamente, pela obediência a todos os pilares da prática e pela utilização mais racional de químicos, tanto fertilizantes quanto defensivos.

Diversidade com a integração

As inúmeras possibilidades geradas pelos sistemas integrados demonstram a incrível capacidade de adaptação da agricultura brasileira aos locais de produção, considerando mudanças e adversidades climáticas ou geográficas. A evolução da integração lavoura-pecuária (ILP) e floresta (ILPF) é constante desde 2005, quando a área com a tecnologia foi calculada em 1,87 milhão de hectares. Agora, a estimativa aponta para 15 milhões de hectares, segundo dados da Embrapa, Associação Rede ILPF e IBGE. A evolução pode ser creditada a iniciativas de geração e difusão de conhecimentos, e, sobretudo, aos exemplos positivos de propriedades que se tornaram modelos de sustentabilidade ambiental e econômica.

A diversidade de atividades que podem ser integradas em uma mesma área só é possível no Brasil, constata o pesquisador Flavio Wruck, da Embrapa Agrossilvipastoril. “É uma tecnologia que tem a nossa cara, é a nova revolução da nossa agropecuária, porque mudamos de patamar de produtividade aliados à sustentabilidade. A integração é a nossa última grande mudança no agronegócio”, salienta.

A expectativa é de que o Brasil possa chegar a 2030 com 35 milhões de hectares de integração, sendo que a maior parte dessa extensão deverá ser obtida com a conversão de áreas de pastagens degradadas. O esforço para alcançar esse incremento inclui a certificação de propriedades a partir deste ano, conta o pesquisador da Embrapa Solos Renato Rodrigues, presidente do Conselho Gestor da Associação Rede ILPF. Outra iniciativa, segundo o especialista, envolve a ampliação de ações de capacitação de técnicos que atuam na área. Um programa amplo está em desenvolvimento e prevê módulos on-line e presenciais para a habilitação de profissionais que possam auxiliar os produtores na elaboração e na execução de projetos.

Nas propriedades, a viabilidade dos sistemas integrados se inicia com planejamento e diagnóstico para definição da aptidão da área. “Em cada talhão de uma fazenda haverá um sistema integrado mais adequado, o que também pode variar ao longo do tempo, ou seja, é um processo que sempre demandará ajustes finos”, pontua Wruck.

O incentivo ao SPD e à ILPF integram a lista de programas que formam o Plano ABC, de agricultura de baixo carbono, criado em 2010 pelo Governo Federal para cumprir os compromissos assumidos pelo País para a redução de emissão de gases do efeito estufa. O plano ainda contempla a recuperação de pastagens degradadas, a fixação biológica de nitrogênio, as florestas plantadas, o tratamento de dejetos animais e a adaptação às mudanças climáticas.