Futuro Máquinas – Automação?

Inteligência Artificial no campo

Expectativas e incertezas cercam o desenvolvimento de máquinas e soluções que aprimoram ou substituem o trabalho humano

Denise Saueressig [email protected]

Será comum, no futuro, vermos tratores sem operador ou sem cabine trabalhando nas fazendas? Sim ou não, a resposta está longe de ser definitiva, mas o fato é que grandes fabricantes de máquinas agrícolas vêm revelando, nos últimos anos, modelos de equipamentos autônomos e, claro, chamando a atenção de produtores no mundo todo.

Em novembro, durante a Agritechnica, megafeira de tecnologia agrícola realizada em Hannover, na Alemanha, a John Deere esteve entre as empresas que apresentaram diferentes soluções em inteligência artificial. Entre elas, um trator elétrico e autônomo (acima). “Por enquanto, o que observamos são conceitos, mas o desenvolvimento do mercado vai levar um bom tempo. Não há como fazer projeções, porque há uma série de questões que precisam ser trabalhadas, como aspectos de legislação. E ninguém vai colocar um produto no mercado sem saber quem assume os possíveis riscos em torno dele”, considera o professor José Paulo Molin, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). Esse é o momento em que as empresas lançam as ideias e aguardam a reação dos produtores, que nem sempre é animadora, conclui o professor. “Sabemos que o agro é um setor com perfil mais conservador, então esse é um processo que depende de maturação”, acrescenta.

A área que envolve a robótica apresenta inúmeras possibilidades para o agronegócio, salienta Molin, lembrando que o conceito supera a automação e remete às máquinas tomando decisões próprias. “É um autômato. Um trator, por exemplo, que está plantando e encontrou um obstáculo na frente e precisa decidir o que fazer. É algo factível, especialmente à medida que contamos com o recurso dos percursos programados”, declara. Na Europa, há exemplos de pulverização automatizada em pequena escala, assim como capina robotizada em áreas de horticultura orgânica comercial. “Nesse caso, a robótica tem sido utilizada para preencher espaços deixados pela falta de trabalhadores. Aqui no Brasil, percebemos o aumento da ordenha robotizada, principalmente nos últimos três anos”, informa o professor.

Além das questões que envolvem o desenvolvimento da tecnologia, existem os aspectos de mão de obra e de mercado que devem ser definidores para o emprego de equipamentos esse perfil nos próximos anos. “Não sabemos quando essas máquinas poderão mesmo substituir os operadores, assim como não sabemos se a relação custo-benefício irá emplacar com brevidade”, observa. Outro desafio importante para o avanço dessas tecnologias é o déficit de conectividade que ainda existe nas áreas rurais do País.

Maior precisão

O professor Molin recorda o histórico do movimento da eletrônica embarcada no Brasil, que teve início na década de 1980. “Inclusive, lembro que A Granja fez reportagens na época. Quem puxava essa discussão era a Massey Ferguson e falava de algo que já existia lá fora, basicamente a automação de comandos de cabine. O que aconteceu foi a substituição de alavancas por botões”, detalha. O avanço seguiu com tecnologias como a comunicação eletrônica entre trator e implemento (ISOBUS), os sistemas de navegação global por satélite (GNSS) e o piloto automático. A partir de 2010, entra em cena o monitoramento dos tratores, colhedoras e pulverizadores. Os sensores de coleta de dados permitem um feedback da operação da máquina por meio de informações gerenciais e funcionais. “Um dos desafios é que cada empresa e cada máquina têm o seu formato, linguagem e abordagem. Espera-se, para breve, por meio de iniciativas que estão em andamento, um ‘sistema do sistema’, uma unificação capaz de reunir todas as informações para que o produtor tenha um relatório de lavoura, e não apenas de máquinas”, observa.

Embora cercada de polêmicas, a expansão da automação e da robótica no agronegócio tem sido justificada pela necessidade de ampliação da precisão e da produtividade dos processos e pela escassez de mão de obra qualificada no setor. Para além da área de máquinas agrícolas, a tendência da inteligência artificial é a substituição do ser huma no em atividades críticas que possam colocar em risco ou a vida da pessoa envolvida no trabalho, ou o desempenho do negócio, avalia o professor Luís Hilário Tobler Garcia, coordenador do curso de Big Data no Agronegócio da Faculdade de Tecnologia (Fatec) Shunji Nishimura, em Pompeia/SP. “São subáreas da inteligência artificial que vão evoluir. Por exemplo, existem algoritmos para analisar doenças em folhas de determinadas plantas que são mais eficientes do que o ser humano”.

As expectativas são muitas, e o desenvolvimento das tecnologias parece não ter limites. Mas essa mudança de patamar certamente virá acompanhada de novas estruturas de mercado, da formação de competências que facilitem a transição e de definições sobre até que ponto as máquinas e os sistemas poderão não apenas aprimorar, mas substituir o trabalho do homem.