Futuro Digital – Conectividade

O avanço das fazendas inteligentes

Expansão das tecnologias da informação e da comunicação depende do maior acesso à internet nas áreas rurais e da qualificação da mão de obra

Denise Saueressig [email protected]

Em 40 anos, o Brasil passou de importador a exportador de alimentos. A chamada “revolução verde”, os sistemas integrados e o uso de insumos biológicos são alguns dos processos vivenciados na nossa agropecuária nessas últimas décadas. O mais recente e igualmente irreversível é o avanço das tecnologias da informação e da comunicação (TIC). O início, ainda na década de 1990, foi com a internet. Em seguida, a possibilidade do uso da ferramenta por meio dos dispositivos móveis e, finalmente, a internet das coisas (IoT). Muitas das demandas nessa área surgem de um novo perfil de consumidor, que só cresce no mundo todo, salienta a pesquisadora Silvia Massruhá, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária. “As pessoas buscam cada vez mais conhecer a origem dos alimentos, com focos na saúde, na qualidade e na sustentabilidade da produção. São questões que levam a modelos de negócios diferenciados e que impactam as diferentes etapas das cadeias”, conclui.

São inúmeras as soluções e as possibilidades de ferramentas que foram criadas e ainda surgirão para resultar em benefícios ao produtor. Sistemas inovadores colaboram com todo o gerenciamento do negócio e na redução de custos, diminuição do impacto ambiental e na ampliação da produtividade. “Existem sensores que analisam a disponibilidade de água no solo e que permitem uma irrigação mais inteligente, com economia de até 30% de água”, exemplifica a especialista.

Se, hoje, existem os sensores, as estações agrometeorológicas e pluviométricas, os drones capturando imagens e auxiliando até na pulverização, a nova era aponta para a necessidade de integrar as informações capturadas, estabelecendo uma comunicação entre as máquinas. “Precisamos transformar esses dados heterogêneos, capturados pelas diferentes ferramentas, em conhecimento para ajudar ainda mais o produtor”, acrescenta Silvia. A era 4.0, inevitavelmente, dará lugar à 5.0, em que há a integração dos espaços físico e virtual em um mesmo ambiente. “É o momento da inteligência artificial, em que as operações braçais ficarão cada vez mais sob o comando das máquinas, e o homem estará por trás da decisão das máquinas”, ressalta.

Outra tendência do futuro é o contínuo aumento do surgimento de startups relacionadas ao agro. O mapeamento Radar AgTech 2019 indica 1.125 dessas empresas no Brasil. Do total, 530 oferecem serviços pós-porteira, 398 dentro da fazenda e 197 estão ligadas a soluções para etapas antes da produção. “Muitas dessas startups utilizam modelos criados pela Embrapa, que têm colaborado como um facilitador do ecossistema e, ao mesmo tempo, recebe royalties que retroalimentam a pesquisa”, detalha Silvia.

Conectividade

O principal desafio para que as tecnologias da informação e da comunicação continuem avançando no campo são os problemas de conectividade. O Censo Agro do IBGE mostrou que o acesso à internet passou de 75 mil estabelecimentos agropecuários, em 2006, para mais de 1,4 milhão em 2017. O Brasil, no entanto, tem mais de 5 milhões de estabelecimentos rurais declarados.

Para buscar a ampliação da conectividade no campo, os ministérios da Agricultura e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) lançaram, em agosto, a Câmara do Agro 4.0, que faz parte do Plano Nacional de Internet das Coisas (IoT.BR). A iniciativa conta com parceiros da iniciativa privada para diagnóstico de gargalos e criação de soluções. Segundo a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, os pequenos produtores são prioridade nos trabalhos da câmara, que pretende levar o acesso à internet a todas as regiões, com atenção especial ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Com o mesmo objetivo, um grupo de oito empresas (AGCO, Climate FieldView, CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec, TIM e Trimble) lançou, no ano passado, a ação ConectarAgro. A ideia é expandir o acesso à internet 4G nas diferentes regiões agrícolas. Além do trabalho com produtores individuais, a ideia é formar parcerias com associações, sindicatos e cooperativas.

Conhecimento

O futuro também será de aprimoramento de ações de capacitação, já que as inovações exigem profissionais atualizados. “Essas tecnologias pedem uma qualificação diferenciada, tanto para o produtor quanto para os agrônomos. Considero que esse fator pode ser, inclusive, um estímulo para as novas gerações”, constata Silvia. “O profissional do futuro não pode apenas discutir aspectos agronômicos com o produtor, mas sim oferecer um serviço mais amplo, de interpretação de informações”, acrescenta.

Essa demanda do mercado levou à criação, em 2017, do primeiro curso da América Latina de Big Data no Agronegócio, na Faculdade de Tecnologia (Fatec) Shunji Nishimura, em Pompeia/ SP. A primeira turma, com cerca de 20 alunos, encerrou o curso no final de 2019, e a maioria vem trabalhando em áreas como o desenvolvimento de software, IoT e inteligência artificial. O professor Luís Hilário Tobler Garcia, coordenador do curso que tem em torno de 170 estudantes matriculados, conta que a realidade da agricultura passou a necessitar de profissionais capazes de entender o grande volume de dados gerados pelas máquinas para a tomada de decisões mais assertivas e que podem ser determinantes para a rentabilidade do produtor. “Um Uniport (pulverizador da marca Jacto), por exemplo, armazena 300 dados por segundo, ou em torno de 1 GB por dia em arquivo”, justifica.

Para o professor, as tecnologias digitais representam valiosas oportunidades de negócios e podem colaborar para reduzir um dos grandes problemas da cadeia de alimentos no mundo. “Hoje, perdemos em torno de 30% da produção entre a fazenda e o consumidor, o que representa cerca de 6% do PIB mundial”, alerta Garcia. O agro, continua, tem enormes oportunidades de captura de valor e, consequentemente, muito espaço para o surgimento de novas tecnologias disruptivas. Figuram, nesse contexto, o desenvolvimento de softwares, as soluções de IoT – especialmente para os aparelhos celulares –, a criação de dispositivos eletrônicos personalizados e o maior uso de recursos de realidade aumentada e virtual. A utilização dos drones deve ser expandida, na opinião do professor, na medida em que houver maior autonomia de voo, redução do peso dos equipamentos e capacidade para novos sensores, como os multiespectrais e os hiperespectrais.

O futuro ainda indica o crescimento de plataformas de treinamento criadas por startups e de tecnologias mais amigáveis para utilização no campo. “Também será cada vez mais importante a captura de dados nas diferentes etapas da produção. Alguns produtores não têm um histórico detalhado da sua propriedade, ou deixam as informações no papel. Esse processo mais preciso deve ser adotado por todos, independentemente do tamanho da sua área”, aconselha o professor.