O Segredo de Quem Faz

Especialista em tecnologias para agricultura tropical

A edição especial comemorativa ao aniversário d’A Granja, revista que, há exatos 75 anos, divulga absolutamente tudo sobre tecnologias desenvolvidas para aprimorar a agropecuária brasileira, não poderia deixar de conceder um destaque especial à maior especialista em tecnologias para agropecuária tropical no planeta: a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a nossa Embrapa. “O Brasil é líder mundial em tecnologia agropecuária para o mundo tropical. Nenhum outro país do mundo tem a capacidade de produzir alimentos, fibras e bioenergia nos trópicos como o Brasil”, sintetiza Celso Moretti, presidente da instituição que se encaminha para cinco décadas de existência, período este em que boa parte das tecnologias desenvolvidas pelas suas equipes técnicas foi apresentada aos agricultores e pecuaristas a partir das páginas desta publicação aniversariante. “Todas as soluções tecnológicas desenvolvidas pela Embrapa têm condições de ajudar a melhorar a vida do produtor rural brasileiro, seja ele pequeno, médio ou grande.”

Leandro Mariani Mittmann [email protected]

A Granja — Quais são, hoje, as mais relevantes áreas de pesquisa em tecnologias da Embrapa?

Celso Moretti — Nos últimos dois anos, a Embrapa alinhou sua programação em 34 portfólios, que tratam de temas e cadeias estratégicas para o País. Os portfólios asseguram a melhoria contínua da programação da Embrapa, reduzem redundâncias, maximizam o uso dos recursos públicos e permitem maior coordenação dos esforços e das nossas competências. Portanto, podemos dizer que o foco está situado em 34 temas estratégicos direcionados para a busca de soluções para o agro, como café, carnes, leite, grãos, fruticultura, hortaliças, convivência com a seca, agricultura irrigada, Amazônia, aquicultura, automação, agricultura de precisão e digital, manejo racional de agrotóxicos, mudanças climáticas, nanotecnologia, solos, nutrientes para a agricultura, pastagens, florestas, sanidade animal e vegetal, insumos biológicos, entre outros.

A Granja — Nesse sentido, quais as grandes novidades em soluções tecnológicas que a Embrapa deverá apresentar em 2020?

Moretti — Continuaremos a ofertar cultivares e variedades de grãos, frutas, hortaliças e forrageiras. Esses são produtos com importante papel, tanto para apoiar cadeias que têm grande participação de materiais desenvolvidos pela Embrapa – por exemplo, o feijão (49% de participação no mercado brasileiro em 2018) – quanto para possibilitar a abertura de novos nichos de mercado, como é o caso do grão-de-bico. É possível antecipar que estão previstos novos aplicativos para ajudar os produtores rurais a gerenciar melhor seus cultivos e sistemas de produção, além de duas soluções que podem contribuir significativamente em duas cadeias. A primeira é o sistema de inteligência territorial estratégica da aquicultura brasileira, que deverá ficar pronto provavelmente no primeiro semestre. A Embrapa está mapeando, por imagens de satélite, os viveiros de criação de peixes e outros animais aquáticos em todo o Brasil, e essas informações ficarão disponíveis em uma plataforma on-line, que abrigará vasta quantidade de dados georreferenciados sobre a atividade aquícola. O objetivo é utilizar esses dados para impulsionar a produção aquícola do País, que se encontra em franco crescimento. A segunda é que, em 2020, será iniciado o processo de certificação de Carne Carbono Neutro e a comercialização de produtos com essa marca-conceito. Começaremos a atestar a carne bovina produzida em sistemas de integração silvipastoril (pecuária-floresta) ou agrossilvipastoril (lavoura-pecuária-floresta), por meio de uso de protocolos específicos que possibilitam o processo de certificação. A marca vai garantir que os animais que deram origem ao produto tiveram as emissões de metano entérico compensadas durante o processo de produção pelo crescimento de árvores no sistema.

A Granja — Que balanço o senhor faz das pesquisas desenvolvidas em 2019?

Moretti — Foi um ano difícil. Tivemos contingenciamentos e cortes que atrapalharam um pouco, mas considero que o saldo foi muito mais positivo do que negativo. Fizemos entregas importantes para muitas cadeias produtivas. Uma das mais impactantes foi o BiomaPhos, um novo inoculante lançado em setembro, em parceria com a iniciativa privada e resultado de 17 anos de pesquisa. Ele aumenta a absorção de fósforo acumulado no solo e possui a capacidade de liberar a poupança desse nutriente considerada perdida. Estimamos que existam cerca de US$ 40 bilhões em adubo depositado nos solos brasileiros, ao longo de décadas, e não absorvido pelas plantas. A tecnologia pode contribuir para a redução de custos para o produtor, além de incrementar a produtividade das lavouras. Em ensaios realizados em mais de 300 áreas rurais, o BiomaPhos provou ser capaz de aumentar em mais de 10% a produtividade de culturas como a do milho e da soja. Outra novidade lançada é o aplicativo Zarc Plantio Certo, que vai permitir que produtores rurais e outros agentes do agronegócio acessem por meio de tablets e smartphones, de forma prática, as informações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), ferramenta utilizada para orientar os programas de política agrícola do Governo Federal. Outra conquista: a Embrapa fez parte de um consórcio internacional que conseguiu sequenciar e montar o genoma do fungo causador da ferrugem asiática, a principal doença que assola as lavouras brasileiras de soja e gera um prejuízo de US$ 2,8 bilhões por safra. Tal feito coloca o Brasil na vanguarda do conhecimento científico e tecnológico na batalha contra esse importante inimigo da agricultura brasileira. Com o genoma mapeado, poderemos entender melhor as mutações sofridas pelo fungo, sua resistência aos fungicidas existentes no mercado e nos programar para antecipar as novas possíveis variações do causador da ferrugem. Em 2019, a Embrapa lançou também dezenas de cultivares com grande potencial para abrir novos mercados para agricultores brasileiros. São exemplos que mostram que vale a pena investir em uma empresa de pesquisa pública e comprovam que, para cada R$ 1,00 aplicado na Embrapa, foram devolvidos R$ 12,16 para a sociedade – dados do nosso último Balanço Social, que apontaram um lucro social de R$ 43,52 bilhões, gerado a partir do impacto econômico de apenas 165 das tecnologias e de cerca de 220 cultivares desenvolvidas.

A Granja — Quais as ações da Embrapa para gerar tecnologias que estejam ao alcance de agricultores que dispõem de conhecimentos, capacitação e renda mais baixos?

Moretti — Todas as soluções tecnológicas desenvolvidas pela Embrapa têm condições de ajudar a melhorar a vida do produtor rural brasileiro, seja ele pequeno, médio ou grande. O que precisamos – o Governo e o Congresso Nacional estão atentos e trabalhando nessa direção – é de um investimento mais robusto em assistência técnica e extensão rural. A ministra Tereza Cristina tem dado grande apoio à estruturação da Anater, estrutura do Ministério da Agricultura que apoiará produtores em todo o território nacional. Se a grande maioria dos produtores brasileiros tivesse acesso à inovação tecnológica e à assistência técnica, o País conseguiria aumentar sensivelmente a produção de quase todos os produtos agrícolas. O grande desafio é fazer com que 85% dos nossos produtores rurais – o que corresponde a mais de 3,5 milhões de propriedades – tenham capacidade de inovar para melhorar a produção e torná-la mais competitiva para atender às novas perspectivas do consumidor e às novas demandas do mercado.

A Granja — E quais os maiores desafios da pesquisa agropecuária pública em tempos de recursos orçamentários tão escassos?

Moretti — Aumentar nossa eficiência, reduzir custos, redundâncias e sobreposições. Temos buscado fazer nossa parte. Nesses últimos anos, fizemos cortes em todos os serviços terceirizados, nos itens de material de consumo, desmobilizamos estruturas sem funcionalidade, diminuímos despesas com energia elétrica e água, gastos com combustíveis e insumos, e reduzimos nossa frota de veículos. Tudo foi feito com o intuito de evitar cortes na programação de pesquisa. E estamos buscando financiamento para novos projetos junto à iniciativa privada. O Marco Legal de C&T permitiu agilidade nesse sentido, e já fizemos uma série de mudanças internas nos dois últimos anos para nos adequarmos ao marco e tornar mais ágil o processo de parcerias com a Embrapa.

A Granja — Em que áreas tecnológicas da agropecuária brasileira deverão se dar os principais avanços para a ampliação da produtividade nos próximos anos?

Moretti — Os avanços ocorrerão em diferentes frentes, indo da biotecnologia à agricultura digital, passando, ainda, pelo estudo dos microbiomas. Na biotecnologia, os avanços na edição genômica permitirão a obtenção de plantas de soja tolerantes à seca e resistentes a nematoides. a melhoria da conectividade, será possível avançarmos de forma consistente na agricultura digital. Drones, sensores, internet das coisas e inteligência artificial estarão cada vez mais presentes no campo. Seguirá o crescimento dos processos de intensificação sustentável, com a integração lavoura, pecuária e floresta, que já ocupa 15 milhões de hectares, em processo de expansão. A economia de base biológica, a chamada bioeconomia, ocupará um espaço cada vez maior, com insumos biológicos aumentando sua participação no portfólio de várias empresas.

A Granja — Em relação ao emprego de tecnologias, quais desafios a agropecuária brasileira deverá enfrentar nos próximos tempos para suprir alimentos à crescente população global?

Moretti — Precisaremos fazer mais com menos. O mundo terá 8,5 bilhões de pessoas em 2030, sendo que 50% da classe média global estará no Sudeste Asiático. A demanda por alimentos crescerá em 30%; a de água, em 40%; e a de energia, em 50%. Teremos que ser muito melhores do que fomos até agora. O debate sobre sustentabilidade deverá se acirrar ainda mais, e o Brasil, que tem uma das agriculturas mais sustentáveis do mundo, terá vantagem competitiva em relação a outros players globais. A pesquisa e o desenvolvimento precisarão também buscar soluções para questões como mudanças climáticas; riscos na agricultura; agregação de valor nas cadeias produtivas; e atendimento às demandas de consumidores que terão crescente protagonismo. O mercado de proteínas vegetais aumentará exponencialmente, chegando ao redor de US$ 90 bilhões em 2030. A Embrapa, em parceria com o setor privado, já desenvolveu tecnologia para a obtenção de hambúrgueres e nuggets à base de proteína vegetal que imitam o sabor de carne. O sucesso competitivo e sustentável da agropecuária brasileira que alcançamos nas últimas décadas precisará ser intensificado para que o País permaneça aproveitando suas vantagens comparativas e consiga assumir o papel de líder mundial no fornecimento de alimentos, fibras e bioenergia. Temos potencial para produzir alimentos únicos e de forma sustentável, mais nutritivos e alinhados com as demandas dos mercados mais exigentes.

A Granja — Sobre a adoção de tecnologias, em que nível se encontra a agropecuária brasileira, tanto em relação aos produtores/ criadores como quanto à indústria (máquinas e insumos, nacionais e importados)?

Moretti — O Brasil é líder mundial em tecnologia agropecuária para o mundo tropical. Nenhum outro país do mundo tem a capacidade de produzir alimentos, fibras e bioenergia nos trópicos como o Brasil. O agro é um dos setores mais competitivos da economia brasileira, sendo provavelmente um dos que recebe menos subsídios governamentais. Produtores e criadores brasileiros adotam as mais modernas práticas de manejo e produção animal e vegetal. Não deixamos a desejar a nenhum outro país do mundo. Tratando-se de agricultura, o Brasil é o primeiro no mundo