Palavra de Produtor

MEMÓRIAS E FUTURO

Em dezembro de 1944 foi publicada a primeira edição da revista A Granja, sob a condução de Arthur Fabião Carneiro. O nome dela já ditava desde então sua linha editorial quanto à modernização das práticas na produção agropecuária, entre outros temas. Na esteira dos 75 anos de edições sucessivas da revista A Granja está a marca dessa visão estratégica e dos desafios que a produção rural enfrentou até agora. Felizmente, aí estão os registros dessa história, estimulando e permitindo que todos leiam o que ocorreu nesse tempo, num trabalho incessante do jornalista Fabião e de seus sucessores da família Hoffmann. Pela importância da revista, cito frase de Ray Bradbury: “Você não precisa queimar livros para destruir uma cultura. Só faça com que parem de lê-los”.

O desafio para produzir e fornecer alimentos às populações urbanas durante a Segunda Guerra Mundial ficou evidente, e o Rio Grande do Sul, pelo destaque da sua contribuição, era denominado celeiro do Brasil, assentado em sua produção colonial. Inicialmente, o foco da revista era bovinocultura de leite, suinocultura e ovinocultura do Rio Grande do Sul. Segundo o Anuário Estatístico do Brasil de 1948, derivado do Censo Agrícola de 1940, o estado gaúcho produzia, entre outros itens, 273.306.900 litros de leite, e contava com a existência de 3.168.860 cabeças de suínos e 5.190.831 ovinos.

Faz-se necessário resgatar essas informações para contextualizar historicamente as razões e o entorno econômico para que a revista prosperasse, como a constituição da Associação dos Criadores do Gado Holandês do Rio Grande do Sul, em 1936, e a implantação do Entreposto do Leite, em 1937, pelo governo estadual, através da Sociedade Anônima Beneficiadora do Leite (Sabel), para beneficiar e pasteurizar leite objetivando atender à demanda da população de Porto Alegre.

Hoje, ela é lida planetariamente através das diferentes mídias disponíveis, constituindo-se em importante fonte de informações tecnológicas e econômicas do campo brasileiro, fundamentais à realização de estudos que permitem melhor compreensão de seu papel e relevância. Contribuidesmistificando a realidade desse segmento econômico, como fez de maneira brilhante o norte-americano Nathaniel Leff ao pesquisar sobre a história econômica brasileira e escrever tese expressa em seu livro Subdesenvolvimento e desenvolvimento no Brasil, publicado em 1982, com explicações para o atraso e a desigualdade no Brasil. Sua obra diverge frontalmente em relação às de Caio Prado Jr., Celso Furtado, entre outros, esses tão ao gosto de setores da “intelligentsia”, os quais, ideologicamente, condenam, ainda hoje, a agropecuária, taxando-a como fator de atraso e subdesenvolvimento, o que gerou tantas políticas públicas equivocadas.

No tempo presente, com o perigoso estreitamento do número de fontes de informações e notícias ao nível mundial sendo transmitidas em nanossegundo, além do viés concentrador da riqueza, tornam, mais do que em qualquer período anterior, tão importante e necessária a existência de canais confiáveis para o setor bem se informar. Os cenários projetados para 2050 impõem desafios à agropecuária, que se manifestam pelo obrigatório aumento da oferta global de alimentos, e a informação passa a ser crescentemente imprescindível.

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano