Na Hora H

75 anos de bons serviços à agricultura brasileira

A revista A Granja, que está comemorando 75 anos de vida, pode ser e é uma testemunha fiel da evolução de nossa agricultura neste período. A sua existência coincide em muito com as grandes transformações que o nosso setor agrícola também viveu neste mesmo período. De 1945 para cá, convivemos inicialmente juntos em um período de grandes dificuldades. O Brasil estimulava a sua indústria e provocava profundas transformações em seu perfil político. Ao início do seu plano de industrialização, apenas 20% da população era urbana. O incentivo ao sistema industrial, que teve seus recursos originados da conta do café, único produto que, por si só, representava de 70% a 80% do nosso saldo em conta-corrente, estimulava, também, o êxodo rural, o que provocou a mudança que, em 1960, já a metade da população era urbana.

Até aí, o Brasil só produzia competitivamente os produtos tropicais que não eram capazes de ser produzidos nas regiões temperadas do globo. Não tínhamos um conhecimento seguro para produzir de forma competitiva os produtos que eram produzidos nas regiões temperadas, que, pela sua capacidade tecnológica e de conhecimento, não permitiam que países tropicais como o Brasil conseguissem capacidade competitiva para lhes fazer frente. O impasse surgiu 29 anos após a criação da nossa querida revista A Granja. Até aí, o Brasil não tinha conhecimento suficiente de seus biomas tropicais e, com isso, não era capaz de ter a competência de produzir a totalidade de sua alimentação, seja em qualidade, produtividade e, principalmente, preço do que podia importar.

Em 1968, uma variação climática em todo o Hemisfério Norte põe à prova a infinita capacidade de atendimento à população mundial na área dos alimentos. Os Estados Unidos da América realizam, para espanto de todo mundo, o seu primeiro embargo de exportação de alimentos para os seus tradicionais compradores. Alegava que tinha os seus estoques estratégicos comprometidos e que seriam suficientes somente para alimentar seu povo por mais seis meses, tempo necessário à produção de sua nova safra. O mundo fica abalado. O preço dos alimentos dobra imediatamente nos mercados internacionais. O Brasil, tradicional importador – pois, àquela época, importávamos praticamente um terço do que consumíamos –, fica com restrições, pois seu saldo comercial começa a reduzir. A indústria sacrificava toda a população brasileira por seus preços mais altos que seus concorrentes e exigia uma boa fatia de nosso saldo comercial para subsidiar esse segmento. Em 1953, a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) atinge países como o Brasil, que àquela época dependia de 80% de seu combustível de petróleo importado. Esses três fatores davam a nítida transformação que o País estaria quebrado em menos de dez anos.

A revista acompanhou de forma clara a decisão de Estado em 1974, quando, estrategicamente, o Brasil teve de adotar o setor rural como única alternativa para, em tempo hábil, evitar o afundamento da nau em que vivíamos. Ela, como toda a população compreendeu que essa era a última esperança para salvar a pátria, teria de ser compreendida e participada por todos os brasileiros, onde estivessem. Acreditou-se na juventude brasileira. Um programa intenso de treinamento nos melhores centros da ciência mundial foi executado, e com uma definição muito clara: conhecer a ciência no mais alto grau, e os senhores treinados foram buscar lá fora, mas não esqueceram que tecnologia e inovações terão de ser feitos aqui em nossos biomas tropicais. A revista ajudou e incentivou toda essa juventude brasileira que, lá fora e aqui, teria de cumprir fielmente o seu dever.

A Embrapa foi criada. Sua tarefa, que não era pequena, teve grande ajuda nos órgãos de comunicação, e a revista A Granja se projetava como uma das mais confiáveis. As inovações foram criadas, e a revista, incansavelmente, ajudava a transferi-las aos produtores sedentos de novos conhecimentos. Isso foi muito importante. A criação de um sistema de transferência de tecnologia representado pela Embrater da mesma forma foi reconhecida e ajudada pela revista. As políticas públicas desde o crédito rural, a infraestrutura na qual a União chegava a inverter mais de 10% de seu PIB, os programas de armazenamento, mecanização, sementes e mudas, padronizações e fiscalização do produto foram acompanhados de perto pela prestigiosa revista que compreendeu e ajudou o próprio governo.

Ninguém melhor que A Granja acompanhou e estimulou o vertiginoso crescimento da produção brasileira, que, então, em menos de cinco anos, já havia amortizado os custos da importação dos alimentos que dependíamos. De lá para cá, nenhum outro órgão de comunicação fez melhor do que a revista A Granja o acompanhamento, o estímulo, a avaliação do que acontecia em um país que, em menos de 40 anos, se transformou num dos principais players capazes de garantir a segurança alimentar de um mundo que cresce em população, em renda e que vai necessitar praticamente do dobro que hoje consome em alimentos.

Esta testemunha viva completa, agora, 75 anos. Tenho a honra de ser seu comentarista e uso sempre o espaço que me dão para orientar com firmeza aqueles que nos seguem. Tenho, portanto, de agradecer a esta valiosa instituição, desejando a Deus que ela seja a testemunha fiel das evoluções que a agropecuária brasileira ainda fará. Nisso, juntos, acreditamos. Que Deus nos proteja!

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura