Herbert & Marie Bartz

HISTÓRIAS EM PARALELO QUE SUSTENTAM O SUCESSO DE NOSSA AGRICULTURA

E vamos para mais um novo ano... Porque é tempo de renovar as forças para continuar lutando e a esperança para que o melhor e o bem sempre prevaleçam. Nesta edição, darei uma pausa em contar as aventuras nas terras africanas, porque iniciamos o ano em comemoração e isso merece uma atenção especial. Sim! A revista A Granja está em festa! Completando 75 anos de existência. É um tempo considerável e marcado por significativas mudanças e quebra de paradigmas. Entre elas, sem dúvida alguma, podemos pontuar o que aconteceu em nossa agricultura ao longo desse tempo. Avanços sem precedentes ocorreram nestes 75 anos quanto a insumos, quanto ao melhoramento genético das variedades, mas, em especial, quanto à consciência em conservar e presservar nossos recursos naturais.

E, particularmente, o advento sistema plantio direto tem, cada dia mais, unido o homem à natureza, cumprindo esse papel na conservação e na preservação de nossos recursos finitos. A Granja nasceu em um ano em que parte do mundo se encontrava em conflito e estava dilacerado, no ano que acabou a Segunda Guerra Mundial, em 1945. Vou retroceder um pouco e lhes contar onde estava e o que fazia Herbert Bartz nesse ano... Bartz, em 14 de fevereiro de 1945, completara oito anos de idade, em Dresden, na Alemanha, onde vivia com os irmãos e a mãe, revezando estadias entre tios e avós da família materna. A família já havia perdido o irmão caçula, que ficara doente e não encontraram tratamento adequado para salvá-lo, entre os horrores da guerra.

Essa data e ano em particular de seu aniversário, Bartz jamais conseguirá apagar de sua memória, pois foi o ápice dos dias em que Dresden, em ataques-surpresa, foi arrasada por mais de 1.300 bombardeiros e em torno de 3.900 toneladas de dispositivos incendiários e bombas. Ouvi várias vezes Papi contanto: “Eu estava na rua, indo para a casa dos meus avós, onde minha mãe estava, e, de repente, apareceram os aviões dando rasantes e metralhando tudo e todos. As pessoas correndo desesperadas. Ainda ouço o barulho das balas entrando nos corpos das pessoas e sinto as pessoas me agarrarem no pé pedindo ajuda”. Bartz é uma das poucas testemunhas vivas desses bombardeios, pois não existem registros oficiais feitos pelo Eixo dessa atividade. E não foi apenas Dresden, mas várias das principais cidades alemãs foram bombardeadas, como um tipo de castigo aos alemães.

No entanto, o chocante é que nas cidades havia apenas crianças, mulheres e idosos. Naquela época, o pai de Bartz, Arnold, era prisioneiro de guerra do exército russo, mantido em trabalho forçado nas profundas minas de carvão na Ucrânia. Sem saber se algum dia sairia de lá com vida, pois a maioria morria por graves infecções ao enfrentar a brusca mudança das temperaturas – altas nas minas profundas e negativas na superfície. Tempos muito difíceis, que, nos dias de hoje, parecem sair de um filme, imaginem para uma criança de oito anos de idade. Mas Papi também sempre nos relatou o cuidado, o carinho e a tranquilidade que a mãe, Johanna Marie, transmitia aos filhos, apesar de todo o cenário desolador.

Em um dos momentos, numa noite em que a fome e o frio eram severos demais, a mãe juntou os filhos envoltos dela, os abraçou (como uma galinha que acolhe seus pintinhos debaixo das asas) e lhes disse que um dia, um dia voltariam para o Brasil, onde poderiam produzir alimentos em abundância e o calor prevalecia. Essa forma de Johanna agir moldou os filhos, os fortificou e inspirou a família a retornar para o Brasil no início dos anos 1960 e recomeçar suas histórias. E convenhamos, que História essa família Bartz construiu, hein?

Não entrarei em detalhes demasiados, mas, apesar de tudo que vivenciaram, eles mudaram os rumos da agricultura brasileira e mundial. Em meio a um cenário de intensa erosão do solo devido ao modelo europeu de agricultura importado, Bartz, em 1972, chamado de “o alemão louco de Rolândia, que plantava na marmelada (no mato)”, iniciou a adoção do plantio direto em sua propriedade e, com toda sua conhecida teimosia, se manteve firme, pois sabia, era a solução e assim seria possível produzir alimentos sem agredir a natureza. E com o passar dos anos, o que, na minha opinião, é mais magnífico e bonito da história do plantio direto no Brasil, a adoção do sistema foi se alastrando entre os agricultores, um processo que aconteceu de baixo para cima, como Papi costuma dizer, dos agricultores para a ciência/a academia.

E não tem como não citarmos a revista A Granja como sendo uma das grandes divulgadoras e difusoras de informações do sistema. Os primeiros registros na revista datam de 1974, dois anos depois da primeira empreitada de Bartz e o ano em que a colônia japonesa de Mauá da Serra aderiu ao plantio direto. Passaram a ter conteúdos mais constantes sobre o plantio direto após 1976, ano em que se juntaram à causa Nonô Pereira e Franke Dijkstra, dos Campos Gerais paranaenses. E, desde então, ninguém mais segurou o trio Bartz, Nonô e Franke na difusão do plantio direto no Brasil e mundo.

Gostaríamos de parabenizar a revista A Granja e externar nosso profundo agradecimento pelas diversas oportunidades que nos concede, desde em transmitirmos nossa opinião até em divulgarmos os nossos trabalhos e o que sistema plantio direto faz de muito bom, tanto para nós (para mim, Marie Bartz, e para Papi, Herbert Bartz) como para a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação que representa os nossos agricultores que praticam o sistema plantio direto no Brasil e no mundo. E que esse pedacinho da vida de Bartz contado nesta edição inspire e estimule os nossos leitores para este novo ano que se inicia. Força, fé e coragem a todos para 2020.