Agricultura 4.0

75 anos de informação tecnológica para a agricultura

Carlos Otoboni

Se, atualmente, estamos falando em Agricultura 4.0, temos que lembrar que, em seus 75 anos existência, a revista A Granja tem sido promotora da informação e da disseminação do conhecimento para o agronegócio brasileiro. Em pleno final da Segunda Guerra Mundial, surge esta renomada revista. Fazendo uma retrospectiva da evolução da tecnologia no campo, desde a sua criação até hoje, podemos imaginar as inúmeras transformações que esta revista participou e noticiou ao homem do campo. A começar pela grande mudança da produção no pós-guerra, que foi chamada de Revolução Verde, na qual ocorreu o uso intensificado da mecanização e de insumos na agricultura, derivados das evoluções tecnológicas da época nas áreas da física e da química, principalmente. A partir dessa revolução tecnológica no campo, em 10 de julho de 1954, o presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, assinou uma lei que se tornaria conhecida como Lei da Alimentação pela Paz (Food for Peace). Como resultado, o presidente John F. Kennedy criou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, por ordem executiva, em 1961, para tratar do programa Food for Peace ainda existente.

A física e a química foram as duas grandes ciências que nos levaram para a agricultura moderna, que conhecemos atualmente, nas transformações da mecanização agrícola e no uso de insumos na agricultura, fertilizantes químicos e defensivos agrícolas, que nos propiciaram o cultivo de alimentos em grandes extensões de terras. A década de 1970 pode representar bem essa época e ser marcada como a década dos fertilizantes e defensivos agrícolas modernos. Se não sabiam, muitos dos fungicidas e inseticidas que usamos atualmente são desse período, e foi nessa fase que gigantes da química fina aqui e no mundo se estabeleceram como grandes corporações desse segmento.

Nessa década, também não podemos nos esquecer das evoluções do melhoramento genético de plantas. Ainda do tipo clássico, como seleção massal, hibrida ção assistida, cruzamentos controlados, mas que levaram a enormes ganhos de produtividade nas lavouras. Obviamente, a agricultura brasileira veio incorporando essas inovações e achando seus próprios caminhos, visto que a tecnologia importada necessitava de adequações para o ambiente tropical em que nossa agricultura se desenvolvia. Vale destacar, neste momento, o surgimento, em 1973, da renomada Embrapa, na qual teve papel importantíssimo o nosso ex-ministro da Agricultura Alysson Paolinelli, que também escreve nesta revista.

As décadas de 1980 e 1990 podemos chamar da era da matemática, com o surgimento dos computadores, notadamente os PCs (Personal Computers). Essas foram as décadas que prepararam os alicerces para as grandes transformações tecnológicas que vivemos atualmente, como a agricultura de precisão e da digitalização do campo. Se tivesse que elencar uma das maiores tecnologias da época que traria uma total transformação de como a agricultura seria praticada na atualidade, sem dúvida, escolheria a tecnologia do sistema de posicionamento global por satélites (GNSS). Desenvolvido na Guerra Fria entre americanos e soviéticos, teve seu uso civil permitido no início dos anos 1980 e, a partir dos anos 2000, teve seu erro proposital de posicionamento desativado, a famosa “disponibilidade seletiva”, o que nos permitiu um posicionamento preciso no campo de até três metros, sem a necessidade de correção. Vale lembrar que, em meados da década de 1990, essa tecnologia GNSS e a agricultura de precisão já eram apresentadas aos agricultores brasileiros nas feiras de máquinas agrícolas, notadamente.

Ainda na década de 1990 e a partir dos anos 2000, observamos um movimento tecnológico importante, que foi a aquisição, pelas grandes corporações da química, das empresas ou dos materiais genéticos, marcando a era da biotecnologia na agricultura. Por outro lado, as empresas de mecanização, oriundas da física, começaram a incorporar soluções da matemática em seus equipamentos, entrando na era da tecnologia da informação na agricultura. Para se ter uma ideia do significado disso atualmente, um grande pulverizador, por exemplo, tem cerca de 12 computadores embarcados, que automatizam diversas ações da máquina e podem gerar mais de 300 informações por segundo da operação agrícola. Então está em curso uma verdadeira digitalização do campo, na qual plantas e periféricos (insetos, plantas daninhas, solo, sintomas etc.) estão sendo transformados em códigos binários, nos levando à era da bioinformática na agricultura.

Enfim, esses foram alguns dos pontos mais importantes de transformações tecnológicas recordadas ao longo destes 75 anos da revista A Granja, sem esquecer das nossas “revoluções verdes tropicais”, do plantio direto e da integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Tenho a honra de participar, nestes últimos três anos, desta maravilhosa história. Parabéns, A Granja!

Engenheiro-agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura