Palavra de Produtor

APARÊNCIAS E REALIDADE

Ocorrem situações no Velho Continente, isto é, no âmbito da União Europeia (UE), as quais provocam perplexidade. Na Hungria, de Viktor Orbán, pessoas de seu entorno se apropriaram de largas fatias de terras agrícolas. As exploram e, em consequência, recebem os gordos subsídios da Política Agrícola Comum (PAC), com a complacência das autoridades de Bruxelas. Na comuna de Matera, Sul da Itália, a força de trabalho empregada para a colheita de tomates e de laranjas é basicamente composta por emigrantes africanos. Esses são submetidos a longas jornadas de trabalho, recebem baixa remuneração e vivem em condições insalubres. Tem sido feitas denúncias públicas, que se trata de trabalho escravo. Situações análogas se verificariam na colheita de uvas em Portugal, na Espanha e na França.

Onde estão a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Igreja Católica e as comissões do parlamento europeu para tratar dessas denúncias? O consumidor em Roma, ao comer uma pizza recoberta por molho de tomates produzidos possivelmente em Matera, não será cúmplice dessa exploração da força de trabalho africana, em condições de escravidão? A ironia é que a legislação jurídica ocidental é assentada no Direito romano e a sede visível do cristianismo é Roma, tão próxima de Matera, na Basilicata. Esse relato é possível porque as notícias, hoje, instantaneamente, percorrem a face da Terra permitindo fazer comparações do tratamento recebido, entre países, no comércio global. Os grupos e as comissões de trabalho no âmbito do parlamento da União Europeia e as decisões dos países membros que poderão chancelar o Tratado Mercosul-UE fornecerão, ao final, radiografia de como trabalham para proteger, a qualquer preço, os seus mercados.

Por outro lado, o Brasil precisa virar a chave do olhar e mirar aquele que será o grande mercado para a produção agropecuária brasileira: o Extremo Oriente. Importantes obras de logística, como a conclusão da pavimentação asfáltica da BR-163, Cuiabá-Santarém/PA, após 43 anos de seu lançamento, sinalizam reforço na musculatura da capacidade de inserção da produção nacional nos mercados da China, da Índia, da Indonésia, de países com bilhões de habitantes, destacando-se suas crescentes classes de renda média.

Em uma análise expedita entre o sombrio e dividido continente europeu, com uma população envelhecida e com baixa taxa demográfica e os países orientais, deve ser estipulado peso relativo às tratativas e às ações políticas aos primeiros, sem deslumbramentos do passado. Os recentes fatos ocorridos nas relações do Brasil com países do Hemisfério Ocidental demonstram, à exaustão, que o primeiro compromisso deve ser com seus interesses e assentado em políticas de longo prazo nas relações comerciais, como aquelas realizadas pelo governo do presidente Ernesto Geisel, quando reatou com a China do presidente Mao, trazendo enormes resultados para nossa balança comercial.

Foco e profissionalismo na produção sustentável, além de jogo estratégico nas relações globais, farão crescer o protagonismo brasileiro, colocando comida na mesa do consumidor onde ele estiver. As trocas globais sofrerão incremento na medida em que a longa cadeia global de suprimentos para essa produção for diversificada, em operações ganha-ganha, com parceiros comerciais confiáveis, que respeitem os princípios da Organização Mundial do Comércio (OMC)

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano