Na Hora H

Para se considerar desenvolvido no agro, o Brasil Precisa de um novo salto

No setor agrícola, pode-se considerar que o Brasil deu o seu primeiro grande salto com a verdadeira revolução produtiva que se fez da década 1970, até 2020. Foram praticamente 45 anos em que se processaram as grandes transformações. Graças à ciência, à tecnologia e às inovações criadas por um grupo de jovens cientistas que tiveram as plenas condições de exercer com toda intensidade a sua vocação para resolver e criar soluções de uma agricultura tropical, antes inexistente. E que deu ao Brasil, sem dúvida, as condições para iniciar o seu grande salto

É evidente que, além da geração de conhecimentos e inovações, foi necessário se estabelecer também um sistema nacional de assistência técnica e extensão rural, que, além da transferência das inovações criadas, possibilitava – através de um sistema de crédito rural bem composto que trazia em sua essência a oportunidade –, a suficiência e as condições ideais para que o produtor bem assistido conseguisse trocar a sua maneira tradicional de produzir em um correto sistema de produção acompanhado de um esforço de criação e desenvolvimento de uma logística de transformação, transporte e armazenamento.

Tudo isso deu condições no início de promover o alto abastecimento em um país onde mais de um terço de seu consumo de alimentos era importado. E, rapidamente, na segunda fase, conseguiu conquistar mercados internacionais com uma capacidade competitiva invejável, transformando o nosso País de hoje no grande player da exportação de alimentos, em que se estima que já estamos abastecendo a alimentação de mais de 1,2 bilhão de habitantes em mais de 120 países.

Essa corrida para assumir a posição que hoje detemos exigiu dos produtores brasileiros o uso de sua competência de forma extremada, que, sem dúvida, faz deles os melhores do mundo. Somos, hoje, imbatíveis dentro da porteira de nossas propriedades. Fomos capazes de ganhar a competição de velhos e tradicionais sistemas produtivos, mesmo na produção de commodities (milho, soja, algodão, café etc.). Essa corrida, como é natural, exigiu que o produtor se esmerasse para ter o produto de melhor qualidade com o menor preço e em constância de oferta para garantir o mercado conquistado. Esta corrida competitiva o obrigou a cortar custos, reduzir despesas, mecanizar no mais alto nível a produção de suas commodities. Isso significa reduzir despesas, e, num país onde os custos da mão de obra têm um verdadeiro penduricalho de exigências, reduziu ao mínimo seus gastos com o pessoal.

Segundo mostram as estatísticas com apenas 842 mil produtores, demos esse grande salto. Essas mesmas estatísticas nos mostram dolorosamente que mais de 4 milhões de proprietários rurais não foram capazes de incorporar ciência e conhecimento, usando as suas terras apenas de forma extrativa, e só conseguindo produzir uma agricultura de subsistência que, na maioria das vezes, não lhe dá nem alimentação suficiente e muito menos a renda desejada. Não estou falando aqui apenas de pequenas propriedades. Ainda existem muitas médias e grandes propriedades nas quais a produção só se faz de forma extrativa. E com isso degradando as riquezas naturais, provocando, como é lógico, a degradação de seus recursos naturais. Não conseguem eles entrar na corrida competitiva alcançada pelos produtores com níveis educacionais, tanto formais como informais. E com vocação gerencial se obtém de seus recursos naturais com a permanente reposição do que deles se extraiu, mantendo-os com capacidade de alta competição.

Esse é um quadro desolador que leva o País a oferecer estatisticamente números indesejáveis na sua evolução econômica, social e ambiental. A pergunta: como resolver esse problema? Mais uma vez, afirmamos: o que estimula a produção é o mercado. Mais uma vez, parece-nos que Deus protege o nosso Brasil. Estamos, hoje, a cada dia, de forma pronunciada, acompanhando uma tremenda evolução no hábito dos consumidores, especialmente os dos países mais ricos e de poder aquisitivo alto. Ali, a alimentação a cada dia é desejada por alimentos naturais, se possível, orgânicos, saudáveis e nutritivos. É o que chamamos da alimentação verde. Para ser produzida, requer três condições excepcionais: calor e água, fertilidade e mão de obra. Essa produção não será possível em escalas automáticas dominadas pelas máquinas e pela extensão da terra. Exige o manuseio e o carinho de uma mão de obra insubstituível que lhe dá feição de produto saudável, natural e de excelente aparência, além da produção carinhosamente manuseada, com a visão indispensável de seu produtor, planta por planta, em que a colheita, o processamento, a embalagem e o próprio transporte tem de ser acompanhado por mãos habilidosas que carinhosamente faça chegar à mesa do consumidor exigente. Essa é a grande janela que se abre a um país que tem sol e calor 12 meses no ano, água abundante, mão de obra à espera de uma qualificação adequada para que ela possa incorporar-se a um processo competitivo de ganhar e sustentar os novos mercados que surgem.

Tenho a sólida esperança de profissional que viveu intensamente o nosso primeiro salto que, se tivermos competência, disposição e fé, não falharemos neste segundo e decisivo passo para incorporar ao processo produtivo brasileiro as 5 milhões de pessoas que aqui poderão garantir, de outra forma, aos consumidores exigentes, o alimento saudável, nutritivo, natural e verde que eles esperam. Apelamos especialmente à nossa juventude, que ela se prepare com o treinamento necessário para comandar este segundo salto para um país de agricultura realmente desenvolvida.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura