Herbert & Marie Bartz

A CHEGADA À AFRICA: UM MUNDO DESCONHECIDO

Pois vamos dar continuidade à aventura nas terras africanas. Chegamos a Maputo, capital de Moçambique, em 16 de outubro (um dia após a eleição no país). No mesmo dia, pegamos um voo interno para a cidade de Beira, que foi uma das principais cidade atingidas pelo ciclone tropical Idai, em março, com ventos que chegaram a 195 km/h. Passamos o dia 17 de outubro na cidade para compra de materiais para os trabalhos de campo e de mantimentos. Qual a minha impressão, sinceramente? Bastante, mas bastante caótico. Entendo que há questões ainda a serem solucionadas devido à problemática do ciclone, mas se percebe que parte é cultural e organizacional mesmo.

Me assustou a quantidade de lixo jogado nas ruas e as edificações – a grande maioria, do tempo colonial – sucateadas e em deterioração. (Moçambique foi, por muito tempo, colônia de Portugal, e este assunto – colônias – merece ser expresso em outra coluna.) E mesmo para a compra de materiais, coisas simples para nós, no nosso dia a dia, aqui é impossível de encontrarmos (sacos plásticos resistentes para amostras de solo, bandejas para triagem etc.). Mas até encontrei bolacha brasileira aqui (risos) e não me senti tão distante assim de minha terra, porque a língua também temos em comum. Enfim... Por mais chocante que seja, é algo necessário e que deve ser visto para podermos conhecer e entender a diversidade de culturas que existe em nosso planeta, porque nem tudo são flores.

No dia seguinte, 18 de outubro, na hora do almoço, seguimos de carro para o Parque Nacional de Gorongosa (PNG). Um trecho de cerca de 205 quilômetros e que foi um percurso longo em tempo. País desconhecido, direção na direita e trânsito invertido ajudaram nisso. Novamente, impressionante, pois não vimos “cidades” como as que estamos acostumados na nossa organização. Passamos por alguns povoados, mas a maior parte das edificações é de barracos com as paredes feitas de varas de madeira que sustentam pedras e telhado de palha de gramínea. Muitas, mas muitas “casinhas” dessas esparramadas. E a rodovia em si estava muito boa.

Sérgio Timóteo, também pesquisador da Universidade de Coimbra, e que está nos acompanhando, pois já pesquisou no PNG entre 2014 e 2015, disse que é tudo novo e muito melhor. E, realmente, depois, em conversas com locais e vendo obras, empresas chinesas ganharam as concorrências e estão executando os serviços de renovação das estradas em Moçambique.

Sobre agricultura, vi muito pouco e, em geral, pequeninas áreas de subsistência. Poucos lotes maiores que pareciam ser uma produção para escala comercial. Por volta das 16h, chegamos à indicação da entrada do PNG, meu coração acelerou, um sentimento inexplicável por estar chegando ao tão esperado PNG. Foram mais uns 30 minutos até chegarmos na entrada oficial do parque. Antes de fazermos o cadastro na entrada, pegamos uma estreita estrada que era o antigo acesso ao parque e fomos a um mirante onde pudemos ver o vale do rio Púnguè. Visão lindíssima, de encher os olhos. Mas tudo muito seco. O próprio nível do rio, no mínimo de seu leito. Algo que não havia comentado antes, mas chegamos no ápice da estação seca (suspense gigante na espera em encontrar as minhas minhocas). Seguimos de volta para a entrada do parque, realizamos o cadastro e, daí por diante, foram mais 40 minutos, pelo menos, até o Chitengo, a sede do PNG, pois não se pode ultrapassar os 40 km/h dentro do parque. E levamos quase uma hora, porque tudo é novo e muito bonito. Os tipos de vegetação e os animais... Que maravilha, os animais são demais.

De cara, muitos babuínos pela estrada, pelos menos de três a quatro espécies de animais ungulados (de casco) e muitos javalis. E eu chamarei sempre os javalis de Pumbas! São meus animais preferidos aqui no PNG. Todos animais soltos, correndo à nossa frente e ao longo da estrada. Maravilhoso (repetitivo, né?! Mas é assim que vale apreciar a magnitude de nossa Mãe Natureza)! Chegando à sede, levamos um tempinho para nos cadastrarmos na recepção e fomos, então, levados para o alojamento dos pesquisadores, que, para mim, é perfeito. São pequenas casas com uma varanda e um quarto em cada extremidade e, no meio, banheiro compartilhado. Muito tranquilo! E, claro, fiquei com o lado virado para o mato. Vendo as instalações e o que o parque é em si, parece um paraíso em meio ao cenário que vi desde Maputo, passando por Beira e no caminho para o PNG. Bom, a partir do dia seguinte, iniciamos o reconhecimento das áreas a serem amostradas e as primeiras amostragens. Mas lhes trarei mais detalhes no próximo mês... Fiquem ligados!

O projeto no qual estamos desenvolvendo as pesquisas aqui é o “Ecoasses – A biodiversity and ECOlogical ASSESSment of soil fauna of Gorongosa National Park (Mozambique)”, um levantamento ecológico e da biodiversidade da fauna do solo no PNG, em Moçambique, financiado pela Fundação de Ciência e Tecnologia (FCT) de Portugal.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo, pesquisadora na Universidade de Coimbra