Sistema Produtivo

Matopiba: as promissoras alternativas pós-soja

Milheto, sorgo, feijão-caupi e gergelim, além de forrageiras para o boi-safrinha, são opções bem interessantes para as lavouras de Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste da Bahia

Engenheiro-agrônomo e mestre Ivanir Maia, diretor-executivo da Associação dos Produtores de Sementes de Soja dos Estados do Matopiba (Aprosem)

A região Matopiba – extensão geográfica formada por territórios dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – tem 91% de sua área dentro do bioma Cerrado. Mais de 77% da região tem clima tropical, semiúmido, com temperatura média mensal de 18°C ao longo do ano e períodos de, pelo menos, cinco meses sem precipitações. Com uma topografia plana, solos profundos e o clima favorável ao cultivo das principais culturas de grãos e fibras, o ambiente vem passando por diversas transformações socioeconômicas, como a ampliação da infraestrutura viária, logística e energética, e o surgimento de polos de expansão da fronteira agrícola baseados na implantação das tecnologias agropecuárias e nas altas produtividades.

Mesmo com todo o crescimento e a expansão no agronegócio, e tendo como carro-chefe o cultivo de soja, milho e algodão no verão, os produtores têm buscado novas alternativas de plantio – sobretudo após a colheita da primeira – que garantam um bom desenvolvimento produtivo e, consequentemente, retorno econômico. Mesmo existindo outras possibilidades, é necessário estar atento às particularidades locais, essencialmente às condições climáticas, que variam bastante regionalmente, fazendo com que cada estado tenha suas particularidades na hora do plantio e, especialmente, na escolha e na definição das espécies a serem semeadas em uma segunda safra.

No Oeste da Bahia, por exemplo, as chuvas se iniciam no final de outubro, estendendo-se até o fim de março, sobrando pouco espaço para lavouras alternativas. Diferentemente de grande parte do Maranhão e do Norte do Tocantins, onde existem maiores precipitações pluviométricas e o calendário de chuvas se alonga até maio, o milho entra como uma cultura segura para a safra posterior à soja. Por outro lado, o cereal não é indicado para a maioria das outras regiões no Matopiba, por faltar chuvas no final do ciclo. No entanto, em algumas áreas bem localizadas e com melhor histórico de chuvas, é possível arriscar esse cultivo, preferencialmente com baixa tecnologia, como estratégia de gestão de risco. Especificamente no Maranhão, não ocorrendo atrasos na semeadura da soja, o milho entra como uma excelente opção após essa cultura.

Levando em conta a condição climática local, surgem desafios de escolha de culturas viáveis para se investir após a colheita da soja, que resultará em produção e retorno econômico. Algumas alternati vas já estão relativamente consolidadas, que são milheto, sorgo, feijão-caupi e forrageiras, bem como opções que ainda estão em fase de pesquisas, como o gergelim e os novos tipos de feijão-caupi.

O milheto tem despertado cada vez mais interesse entre os agricultores, por ser um grão de fácil liquidez, com vasto mercado comprador, essencialmente no Nordeste. Tem se destacado no setor de rações para aves e suínos, com crescente demanda do mercado. Além do baixo custo de produção, o milheto tem chamado a atenção pelo ciclo rápido, de, em média, três meses. Considerada uma gramínea rústica, é de grande utilidade para sistemas integrados de produção, por se desenvolver bem e apresentar alta resistência à seca, adaptabilidade aos solos com baixo nível de fertilidade e elevada capacidade de extração de nutrientes, com boa produção de massa verde e seca. Entre os destaques no uso dessa espécie está que a sua semeadura é prática, podendo, inclusive, ser a lanço antes da colheita da soja, além do fato de, em situações de falta de chuva que comprometam a produção de grãos, propiciar uma palhada satisfatória para proteção do solo.

Outra excelente opção após a safra da soja é o plantio de sorgo, por se adaptar aos diversos ambientes e produzir sob condições desfavoráveis, quando comparado à maioria dos outros cereais. Devido à sua tolerância à seca, é recomendado seu cultivo pela possibilidade de fechar o ciclo vegetativo com baixo nível de umidade no solo. Do ponto de vista de mercado, essa gramínea tem contribuído para a oferta sustentável de alimentos de boa qualidade para alimentação animal e de baixo custo, tanto para pecuaristas como para a agroindústria de rações. Desse modo, também o sorgo tem sido uma ótima escolha para a produção de grãos e forragem.

O feijão-caupi também é uma realidade para a região, sendo uma espécie rústica e com muitas vantagens fitossanitárias, sendo uma cultura consolidada. A produção tem crescido como opção de segunda safra na região do Matopiba, cujo mercado comprador e com grande demanda é o Nordeste. Paralelamente a essa realidade, novas cultivares estão se destacando, voltadas à exportação, especialmente de materiais não tradicionais, como os do tipo branco.

Através da Embrapa – única empresa que trabalha com melhoramento genético dessa espécie, e que dispõe de um vasto acervo de informações tecnológicas para o feijão-caupi, juntamente com entidades de pesquisas locais, como a Fundação Bahia –, estão sendo desenvolvidas várias cultivares comerciais, ampliando o mercado e as formas de uso do produto. Com o novo potencial, empresas de outras regiões estão discutindo parcerias para ampliar a produção visando atender, de forma mais segura, às grandes demandas de países importadores. Um exemplo são as propostas como as da Fundação Sorriso, do Mato Grosso, que, atualmente, cultiva cerca de 40 mil hectares de feijão para esse fim e tem buscado novas regiões, como do Matopiba, para elevar ofertas para exportação.

Cobertura de solo

A seleção de espécies destinadas à cobertura de solo e à formação de palhadas tem sido um desafio para a realidade tropical, porém com várias opções para a implantação do sistema de plantio direto, cada vez mais necessário para retenção de água e preservação da vida no solo. Experiências locais comprovam que várias espécies vegetais podem ser utilizadas, de forma isolada ou em consórcio para a produção de palha nas condições do Cerrado para o período seco, como é o caso de milheto, braquiária, panicum, crotalária e estilosantes, que têm comprovada eficiência agronômica em favor do ganho de produtividade nos cultivos subsequentes, principalmente soja e algodão.

Com a crescente oferta de forrageiras, sobretudo de braquiárias, tem expandido o modelo chamado de “safrinha de boi”, cuja metodologia segue os princípios do Sistema Santa Fé, em que é possível o uso intensivo de áreas agrícolas e a produção sequencial de forrageiras na entressafra para formação de palhada em quantidade e qualidade para o sistema de plantio direto e um pastejo temporário na mesma área. Essa disponibilidade de alimentação para o gado é possível através de um pastoreio gerenciado, permitindo a geração de receitas com grãos e carnes, além de manter parte da palhada para a proteção do solo, promovendo incrementos de produtividades nas culturas a serem implantadas no verão seguinte.

A soja é predominante em todos os estados, e a inquietação na busca de alternativas continua. Um bom exemplo são as pesquisas que estão em desenvolvimento, sobretudo na Fundação Bahia, para o melhoramento e a adaptação de espécies de ciclo rápido, como o gergelim, que, atualmente, é o principal estudado. O gergelim tem origem em região semiárida, que se adequa facilmente ao clima do Cerrado, sendo possível plantar após as culturas de verão, a partir de fevereiro, quando os índices pluviométricos remanescentes são de, aproximadamente, 300 milímetros. Um grande diferencial é que todo o sistema de produção utilizado é o mesmo usado para a soja. As cultivares de gergelim que estão sendo melhoradas são indeiscentes (não abre quando maduro), resultando em perdas mínimas na colheita, que chega, facilmente, acima dos 500 quilos por hectare. A nona oleaginosa mais plantada no mundo tem baixo custo de produção, traz ao produtor rentabilidade financeira, visto que o principal produto obtido é o óleo, que possui excelentes características químicas para consumo na alimentação humana.

Desafio fitossanitário

Embora existam algumas culturas tecnicamente viáveis para serem conduzidas após a colheita de soja ou milho, há um desafio maior que precisa ser mensurado, que é o fitossanitário. A maioria das espécies multiplicam pragas comuns às lavouras de verão, como nematoides, mosca-branca, percevejos e lagartas. Para agravar, estas podem dificultar o controle de plantas tigueras ou guaxas, o que potencializa o problema com as pragas.

Diante desse cenário, sendo a soja a principal cultura no Matopiba, representando cerca de 11% da produção brasileira, e com períodos de chuvas mais restritos que em grande parte do Cerrado, é possível contar com alternativas para uma segunda safra. Mesmo com o calendário de finalização das chuvas não sendo tão padronizado, cabe ao agricultor a gestão prévia, com base em previsões climatológicas, da escolha de espécies mais viáveis. Nesse contexto, a seleção de cultivares de soja com ciclos precoces tem sido o viabilizador de novas culturas, pois amplia a janela para a segunda safra, sendo outro importante elemento na tomada de decisão pelo agricultor que visualiza duas safras ao ano.