Plantio Direto

Impactos no solo pelas mudanças de atividade

Engenheiro-agrônomo, doutor em Agronomia Vanderlei Rodrigues da Silva, professor da Universidade Federal de Santa Maria/RS, campus de Frederico Westphalen/RS, pesquisador na área de Ciência do Solo; engenheiro florestal e mestre em Agronomia: Agricultura e Ambiente Gerry Rieth; engenheiro-agrônomo, mestre em Agronomia Felipe Bonini da Luz, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Solos e Nutrição de Plantas na Esalq/USP; e engenheiro-agrônomo Daniel Aquino de Borba, bolsista de treinamento técnico Fapesp-Esalq/USP

A conversão do uso da terra de sistemas naturais para agrícolas é processo constante no Rio Grande do Sul. A mudança ocorre, principalmente, pelo retorno econômico nessas áreas. Entre os sistemas agrícolas, a soja é o principal cultivo que faz com que seja promovida a mudança pelos agricultores gaúchos. Desse modo, modifica as características dos locais e, principalmente, das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. A conversão pode favorecer ou comprometer a qualidade do solo, principalmente quando o seu manejo é inadequado. Técnicas como o sistema de plantio direto, que preservem a estrutura do solo, aumentam o teor de matéria orgânica, reciclam os nutrientes benéficos para as propriedades do solo.

O objetivo de uma pesquisa foi avaliar o impacto do cultivo da cultura da soja nas propriedades do solo em diferentes regiões de expansão da cultura no Rio Grande do Sul e em áreas cultivadas sob plantio direto. O estudo foi realizado com apoio da Fundação Agrisus em áreas de três regiões do Conselho Regional de Desenvolvimento (Corede) do Rio Grande do Sul: Rio da Várzea, Central e Vale do Jaguari. O Corede Rio da Várzea fica em uma região tradicional do cultivo da soja desde a década de 1960, e o solo característico da região é o Latossolo Vermelho distroférrico de textura argilosa. No Corede Central, região com expansão da soja na década de 1990, o solo utilizado para o cultivo é classificado como Latossolo Vermelho distrófico de textura franco-argiloso. E no Corede Vale do Jaguari, onde a soja começou a ser cultivada na área estudada em 2011 – portanto, uma nova fronteira agrícola do Rio Grande do Sul –, o solo utilizado para a cultura é classificado como Argissolo Vermelho distrófico de textura franco-arenoso.

Nas três regiões, foram analisados diferentes usos da terra, resumidamente a quatro usos (mata nativa; pastagem natural; pastagem cultivada; e soja em sistema plantio direto). Foram coletadas amostras de solo em nove pontos amostrais, nas camadas 0-10 cm; 10-20 cm; e 20-30 cm para análise física e química, e na cama da 0-10 cm para análise biológica. Após as coletas, as amostras foram transferidas para os laboratórios da Universidade Federal de Santa Maria/ RS (UFSM), campus Frederico Westphalen/RS, para proceder as análises. A propriedade física estudada foi a densidade do solo (Ds), as químicas foram pH, H++Al3+, CTC, saturação por bases, saturação por alumínio (Al), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca) e Magnésio (Mg), e a propriedade biológica foi carbono da biomassa microbiana (CBM). Estatisticamente, os dados foram submetidos à Anova (análise de variância), e, quando significativos, foi realizado o teste de T (p<0,05) no software Sisvar, versão 5.6.

Propriedade física do solo

A densidade do solo foi afetada pela mudança do uso da terra, com o aumento da densidade para os usos de pastagem natural, pastagem cultivada e soja em relação à mata nativa nos Coredes Rio da Várzea e Central (Tabela 1). No Corede Vale do Jaguari, os maiores valores de densidade do solo foram para os usos da terra com soja e pastagem cultivada. O adensamento que ocorre nesses usos do solo é proveniente da pressão exercida sob a superfície do solo, seja pelo tráfego de maquinários e/ou pastoreio animal, em que os primeiros 20 centímetros de profundidade do solo são prejudicados. De acordo com a textura do solo, pode-se verificar se o adensamento está restringindo o crescimento radicular para o Corede Rio da Várzea de textura argilosa.

Densidade do solo acima de 1,33 micrograma/metro cúbico já começa a restringir o crescimento radicular; para Central (textura franco-argiloso), é 1,45 micrograma/metro cúbico; e, para o Vale do Jaguari (textura franco-arenoso), é 1,70 micrograma/ metro cúbico. Além do impedimento do crescimento radicular que irá diminuir o volume de solo explorado pelas raízes acarreta também em menor armazenamento de água no solo, redução da disponibilidade de nutrientes para planta, redução da infiltração da água no solo e aumento do escoamento superficial, tornando solos mais suscetíveis à erosão.

A densidade do solo da área com cultivo da soja na região recente do cultivo da soja no Rio Grande do Sul (Corede Vale do Jaguari) demonstra que o manejo adotado de dessecação do campo nativo e o não revolvimento do solo em sistema de plantio direto não acarretaram em aumento drástico da densidade do solo, que se manteve igual estaticamente à área de pecuária com melhoramento químico do campo nativo (pastagem cultivada).

Propriedade biológica do solo

Para os Coredes Rio da Várzea e Vale do Jaguari, a quantidade de carbono da biomassa microbiana não diferenciou entre os usos do solo (Figura 1). O sistema de plantio direto nesses locais favoreceu a biomassa microbiana pela cobertura do solo constante, fornecendo, assim, aos micro-organismos, materiais orgânicos em diferentes estágios de decomposição. E também a cobertura do solo diminuiu a amplitude de temperatura e a umidade do solo, o que favorece a biomassa microbiana do solo. No Corede Central, o maior valor do carbono da biomassa microbiana foi para a pastagem natural e o menor, para a soja (Figura 1).

Na área com cultivo da soja, o carbono disponível na cobertura do solo não atende à demanda da população microbiana, e o manejo realizado na área faz com que ocorra perda de carbono para atmosfera. Já na área da pastagem natural, as diferentes espécies e graus de composição do campo nativo são benéficos à biomassa microbiana, ocorrendo uma maior imobilização dos nutrientes, que são liberados aos poucos para nutrição das plantas, sustentando os micro-organismos do solo.

Propriedade química do solo

No Corede Rio da Várzea, a mata nativa obteve menor pH que os usos da terra pastagem natural, cultivada e o cultivo da soja. Logo, a acidez potencial e a saturação por Al foram maiores para mata nativa. Na camada 0-10 cm, a soja e a pastagem cultivada foram iguais estatisticamente nas propriedades químicas analisadas, muito pela prática de plantio direto realizado nas áreas a qual favorece a camada superficial do solo. O solo da região (Latossolo Vermelho distroférrico) tem baixa capacidade de troca de cátions. Pode-se notar que a mata nativa, pastagem cultivada e a soja obtiveram maior valor na camada superficial do solo (0-10 cm). A permanência de cobertura do solo contribuiu para elevar a CTC nesses usos da terra. O maior teor de fósforo e potássio foi para a pastagem cultivada e na soja.

A ciclagem de nutrientes, proporcionada pelo sistema de plantio direto e pela fertilização, é a forma de aumentar a quantidade de nutrientes no solo, processo que favoreceu o aumento nos teores de fósforo e potássio na pastagem cultivada. No Corede Central, a pastagem cultivada apresentou os maiores valores de pH e saturação por bases, e o menor valor de saturação por Al, sendo um ambiente mais propício para o crescimento das plantas por elevar a quantidade de nutrientes – nesse caso, fósforo, cálcio e magnésio –, aumentando a CTC do solo, o qual não se diferenciou da soja na camada 0-10 cm. O maior teor de fósforo na camada 0-10 cm e 10-20 cm foi para a soja.

No Corede Vale do Jaguari, o manejo do solo realizado nos usos da terra com soja e pastagem cultivada proporcionou aumento nos valores de pH, saturação por bases e diminuição da saturação por Al em relação à pastagem natural. Na CTC, não houve diferença entre os usos da terra, principalmente pelo elevado valor de potássio verificado nesses locais. Os usos da terra alteram a dinâmica dos nutrientes pela necessidade de cada cultura. O cultivo da soja elevou o teor de fósforo no solo, e a maior quantidade de fósforo se deve pela adubação na hora da implantação da cultura e ao sistema de plantio direto, o qual eleva o teor desse nutriente por permanecerem resíduos das culturas no solo, favorecendo o ciclo do fósforo.

Conclusão

A adubação utilizada na cultura da soja e a ciclagem de nutrientes na pastagem cultivada melhoram as propriedades químicas, porém afetam negativamente as propriedades físicas do solo. Práticas de manejo que conservem e melhorem as propriedades físicas do solo devem ser implantadas nas áreas de expansão da cultura da soja para evitar problemas de degradação física do solo.