O Segredo de quem faz

LIDERANÇA além do campo

Denise Saueressig
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A engenheira-agrônoma e produtora Celi Webber Mattei é a responsável técnica da Sementes Webber, empresa de mais de 60 anos e que tem sede em Coxilha, na região do Planalto Médio do Rio Grande do Sul. Seguindo os passos dos pais, que iniciaram o trabalho, ela administra, em conjunto com os dois irmãos, a produção de sementes de soja, milho, trigo e cevada em uma área cultivada de pouco mais de 2 mil hectares. Mas a atenção de Celi vai além das lavouras. Além de ser engajada em atividades voltadas para as mulheres do agro, ela também se preocupa com a melhoria da qualidade de vida dos colaboradores da empresa e da comunidade de Coxilha. Nesta entrevista, a produtora conta sobre o trabalho no campo e no projeto de responsabilidade social que ultrapassa os limites da propriedade.

A Granja — Qual é o histórico da sua família na agricultura?
Celi Webber Mattei
— Os negócios foram iniciados pelo meu pai, Setembrino, e pela minha mãe, Dirce, na década de 1950, em Coxilha, onde estamos até hoje. Eles começaram com suínos, gado e um pouco de trigo, e, alguns anos depois, passaram a cultivar a soja. Na década de 1970, meu pai foi aos Estados Unidos para entender mais sobre a soja. Ele voltou muito empolgado. Aliás, nosso sucesso se deve muito à paixão que ele sempre teve pela agricultura. É um empreendedor dedicado, atento à gestão, calcula os riscos, sabe investir nas horas certas. Em 1976, teve início a construção da primeira Unidade de Beneficiamento de Sementes (UBS) e, em 2012, foi instalada a segunda UBS, com 10 mil metros quadrados de estrutura e equipada para o tratamento de sementes industriais.

A Granja — E, atualmente, qual é a estrutura dos negócios?
Celi
— Hoje, trabalhamos com sementes de soja, milho, trigo e cevada. Também produzimos grãos de milho que são destinados à fabricação de ração para aves e cães. São 2.177 hectares cultivados em Coxilha. Entre 1977 e os anos 2000, produzíamos sementes com a marca Setembrino Webber, mas, depois, com a entrada da biotecnologia, passamos a produzir, com a marca Pioneer, o milho e a soja. Já a semente de cevada é direcionada para a Ambev, e o trigo é genética básica para a OR Sementes. Também prestamos serviço para a Ambev com o beneficiamento de sementes de cevada de outros produtores, na nossa estrutura. Na safra de verão, cultivamos, em sistema de rotação, soja em 70% da área e milho em 30%, onde trabalhamos com pivôs para irrigação nas áreas voltadas à produção de sementes. No inverno, em torno de 60% da lavoura é ocupada com o trigo e o restante, com a cevada. Atualmente, produzimos 4 mil toneladas de milho para a indústria, 7,5 mil toneladas de sementes de soja, 1,5 mil toneladas de semente básica de trigo e 2 mil toneladas de sementes de cevada. Ao longo do tempo, adotamos o plantio direto e a agricultura de precisão. Passamos a entender melhor a fertilidade do solo e as necessidades da correção mais adequada para buscarmos uma maior uniformidade. Tudo tem um alto custo. Precisamos produzir mais e melhor, mas não exageramos nos investimentos, porque também trabalhamos com os riscos. Nos últimos anos, conseguimos aumentar a produtividade em torno de 20 sacas por hectare. Na soja, saímos de uma média entre 2,5 mil e 3 mil quilos por hectare para 4 mil quilos por hectare na última safra. Nas áreas de milho de sequeiro, conseguimos entre 180 e 200 sacas por hectare.

A Granja — Como a família divide as atuações na empresa?
Celi
— Em 1983, logo depois que me formei em Agronomia, assumi como responsável técnica. Naquela época, fazíamos de tudo um pouco. Minha irmã, Eni, também é agrônoma. E meu irmão, Lisandro, cuida mais da parte da administração. A partir de 2010, iniciamos o planejamento da sucessão familiar e, para isso, contratamos uma consultoria jurídica. Em 2012, foi criada a Parceria Familiar Sementes Webber. Um dos meus filhos chegou a trabalhar conosco por um período, mas não continuou. Neste momento, não temos ninguém da terceira geração nos negócios. Estamos avaliando e estudando o processo, e pensando na possibilidade da profissionalização. Acredito que a sucessão dá certo quando é conduzida desde cedo. Hoje, temos o nosso conselho, e, se pensarmos na profissionalização, a terceira geração estará no conselho, ou seja, envolvida de outra forma no trabalho. No meu caso, cresci na propriedade, ficava muito tempo no campo, o nosso pai incentivava essa continuidade. Hoje, a realidade é diferente, as pessoas viajam mais. Atualmente, deixamos os filhos mais livres para suas escolhas.

A Granja — A senhora cursou Agronomia em uma época em que havia poucas mulheres envolvidas no agronegócio. Como relaciona aquele momento com os dias atuais?
Celi
— Eu me formei no final de 1982, na Universidade de Passo Fundo/RS (UPF). Éramos uma turma de 41 homens e nove mulheres. Há pouco tempo, fui fazer uma palestra na universidade e conversei com professoras que me disseram que 60% dos alunos são mulheres atualmente. No meu tempo, quando comecei a participar de eventos e de dias de campo, observando que as mulheres eram minoria, vi que era preciso respirar mais fundo em algumas situações. Tive colegas que foram trabalhar em áreas diferentes, como bancos e serviços públicos. Agora, quando tenho a oportunidade de viajar e conhecer empresas, percebo que as mulheres estão ocupando mais espaços no setor. As empresas também estão contratando mais mulheres, mas a mulher ocupar sozinha um negócio ainda é uma situação mais rara.

A Granja — Além de ocupar um cargo de comando na empresa da família, a senhora também atua como líder em questões de maior abrangência, como um projeto social. Como foi a sua trajetória nessa área?
Celi
— Comecei a participar do Sindicato Rural de Passo Fundo, onde ajudei a criar a Comissão das Produtoras Rurais, em 2003. Percebia que a mulher estava mesmo em um segundo plano, isso me levou a refletir e a querer passar para as outras mulheres a possibilidade de assumir os negócios, de não arrendar ou de não vender as terras da família. Senti a importância de levar conhecimento para outras mulheres para fortificar a participação feminina. Também procurei levar essa parte mais humana para dentro da propriedade para ressaltar a importância da capacitação dos profissionais que atuam conosco. Participei da primeira turma de 20 mulheres da Academia de Liderança realizada pela Corteva (em parceria com Abag e Fundação Dom Cabral). Nesse projeto, foram mais de 15 palestras sobre liderança feminina na nossa região. No ano passado, também tive a oportunidade de receber o primeiro prêmio Mulheres do Agro, promovido pela Bayer (em parceria com Abag). Acredito que uma das razões que me fizeram conquistar essa premiação foi a iniciativa que carrega o nome do meu irmão que faleceu, o Centro Cultural e de As sistência Social Ilso José Webber – Projeto Viver, que desenvolvemos junto à comunidade, oferecendo oficinas em diferentes atividades. Aliás, muitos que passaram por nossas oficinas são nossos funcionários atualmente. Iniciamos o projeto em 2004, na propriedade, e, aos poucos, levamos para a comunidade de Coxilha. Estimamos que em torno de 100 pessoas sejam atendidas mensalmente. Nestes 14 anos de existência, calculamos que impactamos ou passamos a mensagem do trabalho para mais de 20 mil pessoas diretamente. Começamos com atividades como atendimento dentário e psicológico, e, hoje, temos reforço escolar, aulas de música, teatro, informática, culinária. Também mantemos uma horta orgânica. Nos últimos cinco anos, investimos mais de R$ 1 milhão no Projeto Viver, que cresceu e estabeleceu parcerias com a prefeitura e instituições como o Senar e a Emater. É um trabalho de formiguinha, mas que tem um impacto muito grande. Procuramos ouvir as pessoas para entender o que precisam, o que querem. As pessoas nos levam seus currículos e tentamos ajudar com o possível, assim como incentivamos para que busquem mais conhecimento e capacitação.

A Granja — Quais são os principais projetos da empresa para os próximos anos?
Celi — Pensamos em, pelo menos, manter o que temos hoje, porque fizemos muitos investimentos de 2012 para cá. São 65 funcionários trabalhando conosco, número que triplicou desde 2012. Vamos procurar manter essa ideia de que as pessoas cresçam junto conosco. Queremos manter o projeto de responsabilidade social em crescimento também. Ao longo dos anos, enfrentamos uma série de dificuldades devido a diferentes situações, como variações do mercado, perda de familiares, problemas de saúde, mas continuamos crescendo com o nosso foco em produzir sementes de qualidade, em estabelecer parcerias e contratos estratégicos, em investir na fertilidade do solo para aumentarmos cada vez mais a produtividade e em buscar mais conhecimento em boas práticas agrícolas para melhorarmos o solo. Também buscamos a profissionalização das relações entre negócios x família x patrimônio. Para isso, trabalhamos na organização do negócio com a implementação de práticas de gestão. Estamos com 64 anos de vida e precisamos aperfeiçoar a governança. É muito importante organizar a empresa familiar para entendermos os papéis e as contribuições de cada um, e para que a empresa cresça e supere as adversidades. Da mesma forma, valorizamos os colaboradores com informação e conhecimento por meio de cursos de formação que possam proporcionar o crescimento profissional, social e intelectual