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Os adubOs verdes antinematoide Pratylenchus brachyurus

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As crotalárias C. spectabilis e C. ochroleuca mostraram-se excelentes opções para o controle de P. brachyurus, pois reduziram a densidade populacional do nematoide, enquanto mucuna-preta, feijão-de-porco e lab-lab aumentaram em mais de 41 vezes a densidade do nematoide

Mário Massayuki Inomoto e Mariana Mailkut dos Santos, professor e aluna da Esalq/USP

Desde 2003, quando foram relatadas as primeiras perdas causadas pelo nematoide Pratylenchus brachyurus em soja no Brasil, a pesquisa tem procurado métodos eficazes e operacionalmente viáveis para seu controle. As primeiras tentativas visaram à identificação de cultivares de soja e híbridos de milho resistentes, com resultados decepcionantes ou contraditórios. A primeira tentativa bem-sucedida de controle foi por meio da substituição do milho safrinha pelo milheto. Porém o método mais eficaz tem sido o uso de duas crotalárias, Crotalaria spectabilis e C. ochroleuca, em sucessão com a soja e em substituição ao milho.

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Figura 1 Soja em solo infestado por P. brachyurus após Crotalaria ochroleuca, C. juncea, C. spectabilis e guandu

As respostas desses adubos verdes têm sido mais estáveis que a dos milhetos, provavelmente pela maior uniformidade genética, pois, nas crotalárias, predomina a autofecundação. Alguns adubos verdes, como C. juncea e as mucunas, têm sido evitadas, por serem suscetíveis ao nematoide. Há outra crotalária muito resistente, C. breviflora, mas que não tem sido utilizada por ser muito suscetível a algumas doenças. E este artigo pretende discutir se realmente C. spectabilis e C. ochroleuca são as melhores opções para o controle de P. brachyurus em soja, com base na literatura disponível e em dois ensaios originais.

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Figura 2 Soja em solo infestado por P. brachyurus após Crotalaria ochroleuca, feijão-deporco, C. spectabilis e lab-lab

do comparando-se as crotalárias mais utilizadas com outros adubos verdes em relação a P. brachyurus, avaliando-se a reprodução do nematoide. Os resultados confirmaram que C. spectabilis e C. ochroleuca são excelentes opções para o controle de P. brachyurus, pois reduziram a densidade populacional do nematoide, em avaliação efetuada 96 dias depois da inoculação de P. brachyurus (veja a Tabela 1 a seguir). Por outro lado, alguns adubos verdes foram extremamente suscetíveis. Os destaques negativos foram mucuna -preta, feijão-de-porco e lab-lab, que aumentaram em mais de 41 vezes a densidade populacional do nematoide, superando o próprio sorgo, utilizado para comparação por ser planta sabidamente muito suscetível a P. brachyurus.

A Crotalária spectabilis (foto) e a C. ochroleuca são excelentes opções para o controle de P. brachyurus, pois reduziram a densidade populacional do nematoide

O segundo ensaio simulou uma sucessão entre os adubos verdes e soja, em solo infestado com P. brachyurus, avaliando-se a produção de grãos de soja. Além de C. spectabilis e C. ochroleuca, outra crotalária (C. juncea) se destacou pelas maiores produções de grãos de soja, apesar de se confirmar como suscetível a P. brachyurus (Tabela 1 e Figura 1).

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Figura 3 Soja em solo infestado por P. brachyurus após Crotalaria ochroleuca, mucuna-anã, C. spectabilis e mucuna-preta

Os destaques negativos foram, novamente, mucuna-preta, feijão-de-porco e lab-lab (Tabela 1 e Figuras 2, 3 e 5). Embora o aumento populacional de P. brachyurus nesses adubos verdes tenha sido maior que no próprio sorgo, a produção de grãos de soja foi melhor, o que pode ser explicado por duas possíveis razões: 1) a decomposição das raízes desses adubos verdes liberou compostos tóxicos a P. brachyurus; 2) ou liberou nitrogênio que beneficiou o crescimento da soja, o que é uma consequência do efeito benéfico da fixação biológica de nitrogênio.


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Figura 4 Soja em solo infestado por P. brachyurus após Crotalaria ochroleuca, tremoçobranco, C. spectabilis e sorgo

Os resultados com C. spectabilis e C. ochroleuca não constituem surpresa, somente confirmam resultados anteriores, tanto de vasos como de campo, e ressaltam o valor dessas crotalárias no controle de P. brachyurus. Têm sido relatados ganhos de produtividade da ordem de oito a 12 sacas de soja/hectare com a substituição do milho safrinha por uma daquelas crotalárias, mas poderão ser até maiores, na dependência da distribuição e da densidade do nematoide. As Figuras 4 e 5 são ilustrativas do efeito positivo, para a soja em solos infestados por P. brachyurus, dessas crotalárias em comparação com o sorgo, que pode ser considerado equivalente ao milho em termos de suscetibilidade ao nematoide. Talvez a Figura 5 seja a mais impressionante, por demonstrar o poder destrutivo desse nematoidedas--lesões quando se escolha uma planta inadequada para sucessão.

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Figura 5 Raízes de soja em solo infestado por P. brachyurus após sorgo, lab-lab e Crotalaria ochroleuca

Os resultados com mucuna-preta, feijão-de-porco e lab-lab neste ensaio somente comprovam os do primeiro ensaio, mas é extremamente didático observar as Figuras 1, 2 e, principalmente, 5. Sem dúvida, é importante escolher adequadamente, com base nas características abióticas e/ou bióticas do ambiente, o adubo verde ou qualquer planta que entra em um esquema de sucessão. Apesar de serem excelentes adubos verdes, esses, em particular, devem ser evitados em solos infestados por P. brachyurus.

Por outro lado, os resultados em relação a C. juncea, guandu e tremoço-branco merecem comentários adicionais. Até 2003, as crotalárias eram pouco utilizadas como adubos verdes, com exceção de C. juncea, que era e continua sendo muito aproveitada no período de renovação da cultura da cana. Por ser de crescimento muito rápido, C. juncea produz grande volume de biomassa, maior que as demais crotalárias. Além disso, o material genético de C. juncea mais utilizado no Brasil é uma cultivar lançada pelo Instituto Agronômico, de Campinas/SP, a IAC-KR-1, que possui resistência à murcha de Ceratocystis fimbriata, diferentemente das demais crotalárias. Portanto, C. juncea possui algumas vantagens que justificam sua preferência na cultura da cana. Porém, na cana, o principal objetivo para seu uso é como adubo verde e proteção do solo, sendo sua ação contra os fitonematoides um benefício de importância secundária.

O interesse no emprego das crotalárias em sucessão com soja somente surgiu com os primeiros relatos de perdas causadas por P. brachyurus nessa oleaginosa. Por ser comprovadamente suscetível ao nematoide em questão, C. juncea nunca foi muito utilizada no manejo de P. brachyurus. Porém, os resultados desses ensaios demonstram que o valor de C. juncea no manejo de P. brachyurus merece ser reavaliado. Embora em desvantagem em relação a outras espécies de crotalárias, C. juncea mostrou resultados claramente melhores que outros adubos verdes (Tabela 1).

O guandu é outro adubo verde que foi inferior a C. spectabilis e C. ochroleuca no controle de P. brachyurus, mas que pode ser valioso como opção a essas crotalárias. Além disso, distingue-se da maioria dos adubos verdes por ter várias vocações econômicas, podendo, por exemplo, ser aproveitada como alimento para o homem e para animais domésticos. Além disso, a ampla base genética do guandu é um campo a ser explorado. Experimentalmente, já foi provado que a grande maioria das cultivares e linhagens de guandu são suscetíveis ao nematoidedas-galhas Meloidogyne javanica, mas há algumas linhagens resistentes. Essa diversidade ainda não foi muito explorada em relação a P. brachyurus, mas há resultados anteriores indicando que há cultivares resistentes. Ou seja, é possível que existam cultivares ou linhagens resistentes ao nematoide, podendo, caso essa hipótese se confirme, funcionar como alternativas a C. spectabilis e C. ochroleuca.

Tremoço-branco no frio

Em relação ao tremoço-branco, seu valor seria para sucessão com soja em localidades de inverno frio, pois é um adubo verde adaptado a essa condição. Atualmente, P. brachyurus é um importante patógeno da soja cultivada no clima tropical, mas já desponta causando perdas também em estados mais meridionais, onde o tremoço-branco poderia ser uma opção às crotalárias resistentes.

Resumindo, C. spectabilis e C. ochroleuca são indiscutivelmente os melhores adubos verdes para o controle de P. brachyurus em soja. Ainda hoje, depois de vários anos de pesquisas e testes com outras plantas para sucessão, não se encontrou nenhuma tão eficaz no manejo de P. brachyurus. No entanto, é importante continuar na busca por outras opções. Alguns adubos verdes, como as mucunas, o feijão-de-porco e o lab-lab são extremamente suscetíveis e devem ser evitados em ambientes com P. brachyurus. Nesse caso, seu efeito benéfico na economia de nitrogênio provavelmente será muito menor que o efeito negativo na promoção do aumento da densidade desse nematoide. Por outro lado, C. juncea, guandu e tremoço-branco são opções potencialmente valiosas e que merecem estudos mais aprofundados, para avaliação dos riscos de seu uso, pois não são resistentes a P. brachyurus. Estão, porventura, em situação semelhante à Brachiaria ruziziensis, que, apesar de suscetível ao nematoide, tem sido utilizada em solos infestados por P. brachyurus.