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A GRANDEZA DA SOJA NO BRASIL

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O ciclo 2019/2020 ficará marcado pela liderança do Brasil na produção mundial de soja, desempenho que é resultado do aumento na safra nacional combinado com problemas climáticos nos Estados Unidos. A perspectiva é de que o incremento da cultura se mantenha nos próximos anos, com números grandiosos para toda a economia do País. No campo, os desafios para a manutenção do crescimento são importantes, e envolvem, sobretudo, a busca constante pelo avanço da rentabilidade com sustentabilidade

Denise Saueressig
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De um total de mais de US$ 239 bilhões exportados pelo Brasil em 2018, US$ 40,9 bilhões – ou 17,1% – tiveram origem nas lavouras de soja. Grãos, óleo e farelo representam o principal produto vendido pelo País no exterior. Em 2019, entre janeiro e outubro, o complexo soja foi responsável por 15,4% do total das vendas externas, segundo o Ministério da Economia.

A soja também irá representar quase a metade da produção que o Brasil deverá colher em 2019/2020. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a safra brasileira em um recorde de 246,4 milhões de toneladas. A produção da oleaginosa, segundo o levantamento de novembro, é projetada em 120,9 milhões de toneladas, um acréscimo de 5,1% sobre o ciclo passado. Outras estimativas indicam números ainda maiores para o grão. O consultor Carlos Cogo, diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, acredita em uma produção de 125,2 milhões de toneladas no próximo ciclo. A consultoria Safras & Mercado aponta para um volume bem parecido: 125,7 milhões de toneladas em uma área a ser colhida de 36,7 milhões de hectares.

Caso os números se confirmem, o Brasil ocupará, pela primeira vez, o primeiro lugar no ranking dos países produtores, já que os Estados Unidos enfrentaram adversidades climáticas e consequente redução de safra. Os norte-americanos devem colher em torno de 96 milhões de toneladas em 2019/20. “O crescimento do Brasil é extraordinário. Saímos de 69 milhões de toneladas em 2010 para uma projeção de 125 milhões de toneladas em 2020. Reunimos condições únicas, com a vantagem de sermos um país muito grande. Quando há problemas de clima em algum estado, a produtividade em outras regiões ajuda a compensar as perdas”, analisa Cogo.

O avanço da soja no Brasil é justificado pela alta lucratividade das lavouras nos últimos anos. Cogo acompanha os números desde 2010, e a tendência, segundo ele, é de que a temporada 2019/2020 represente o 11º ano de lucro nas áreas do grão. “Esta é uma safra de muita volatilidade cambial, o que complica um pouco a vida do produtor, porque, ao mesmo tempo em que gera picos de preços, também impacta nos custos. Mas, de uma forma geral, os resultados serão muito positivos”, constata. Até a segunda semana de novembro, entre 40% e 45% da safra futura estavam negociadas com média de preços de US$ 20,45 a saca no Sul (7% acima do valor do ano passado) e de US$ 18,45

de preços, também impacta nos custos. Mas, de uma forma geral, os resultados serão muito positivos”, constata.

Até a segunda semana de novembro, entre 40% e 45% da safra futura estavam negociadas com média de preços de US$ 20,45 a saca no Sul (7% acima do valor do ano passado) e de US$ 18,45 a saca no Cerrado (3% superior ao preço de 2018). Com o dólar a R$ 4,00, ou seja, antes da maior alta verificada no final do mês passado, a margem bruta do produtor foi calculada em torno de 50% no Sul e 26% no Cerrado. “No cenário que temos hoje, considerando todo o conjunto da cadeia produtiva, podemos afirmar que a soja brasileira é a mais competitiva do mundo”, frisa o consultor.

Na semana de 22 de novembro, segundo a Safras & Mercado, apesar do recuo em Chicago, o dólar próximo a R$ 4,20 movimentou os negócios com a soja. Em Passo Fundo/ RS, a saca chegou a R$ 87,50 e, em Rondonópolis/MT, a R$ 83,00. No Porto de Paranaguá/PR, a cotação era de R$ 91,00.

O futuro

Projeções do Ministério da Agricultura para a produção brasileira revelam que a safra de soja poderá alcançar 151,9 milhões de toneladas em 2028/29, volume 32,9% acima de 2018/19. A estimativa é conservadora se for considerado que é um percentual abaixo do crescimento ocorrido nos últimos dez anos, que foi de 67%. Em suas análises, a Federação das Indústrias do Estados de São Paulo (Fiesp) estima a produção de soja em 162,3 milhões de toneladas em 2027/2028. Para o consultor Carlos Cogo, o Brasil poderá chegar ao ciclo 2028/2029 com uma safra em torno de 180 milhões de toneladas, 43,2% a mais do que a estimada para 2019/2020. Para a área cultivada, a expectativa é de incremento de 29%, para pouco mais de 47 milhões de hectares. Assim, a produtividade passaria dos atuais 3,2 mil quilos/ha, para cerca de 3,8 mil quilos/ha.

compensar as perdas”, analisa Cogo. O avanço da soja no Brasil é justificado pela alta lucratividade das lavouras nos últimos anos. Cogo acompanha os números desde 2010, e a tendência, segundo ele, é de que a temporada 2019/2020 represente o 11º ano de lucro nas áreas do grão. “Esta é uma safra de muita volatilidade cambial, o que complica um pouco a vida do produtor, porque, ao mesmo tempo em que gera picos de preços, também impacta nos custos. Mas, de uma forma geral, os resultados serão muito positivos”, constata. Até a segunda semana de novembro, entre 40% e 45% da safra futura estavam negociadas com média de preços de US$ 20,45 a saca no Sul (7% acima do valor do ano passado) e de US$ 18,45 a saca no Cerrado (3% superior ao preço de 2018). Com o dólar a R$ 4,00, ou seja, antes da maior alta verificada no final do mês passado, a margem bruta do produtor foi calculada em torno de 50% no Sul e 26% no Cerrado. “No cenário que temos hoje, considerando todo o conjunto da cadeia produtiva, podemos afirmar que a soja brasileira é a mais competitiva do mundo”, frisa o consultor. Na semana de 22 de novembro, segundo a Safras & Mercado, apesar do recuo em Chicago, o dólar próximo a R$ 4,20 movimentou os negócios com a soja. Em Passo Fundo/ RS, a saca chegou a R$ 87,50 e, em Rondonópolis/MT, a R$ 83,00. No Porto de Paranaguá/PR, a cotação era de R$ 91,00. O futuro Projeções do Ministério da Agricultura para a produção brasileira revelam que a safra de soja poderá alcançar 151,9 milhões de toneladas em 2028/29, volume 32,9% acima de 2018/19. A estimativa é conservadora se for considerado que é um percentual abaixo do crescimento ocorrido nos últimos dez anos, que foi de 67%. Em suas análises, a Federação das Indústrias do Estados de São Paulo (Fiesp) estima a produção de soja em 162,3 milhões de toneladas em 2027/2028. Para o consultor Carlos Cogo, o Brasil poderá chegar ao ciclo 2028/2029 com uma safra em torno de 180 milhões de toneladas, 43,2% a mais do que a estimada para 2019/2020. Para a área cultivada, a expectativa é de incremento de 29%, para pouco mais de 47 milhões de hectares. Assim, a produtividade passaria dos atuais 3,2 mil quilos/ha, para cerca de 3,8 mil quilos/ha.

No levantamento do Ministério da Agricultura, a área plantada com a oleaginosa deverá alcançar 45,3 milhões de hectares, representando a lavoura com a maior expansão na próxima década. O avanço será principalmente sobre áreas de pastagens, mas também na expansão de fronteira em regiões onde ainda há terras disponíveis e pela substituição de culturas.

O grande cliente

Em 2019/2020, o Brasil deverá exportar 77 milhões de toneladas de soja, o equivalente a 52% do comércio global. Os Estados Unidos vêm em seguida, com 32%. “O mundo passa a prestar mais atenção ao que acontece por aqui, e, inclusive, podemos ter mais influência sobre a formação dos preços no mercado”, declara Cogo. A perspectiva é de que a participação brasileira se fortaleça nos próximos anos. Para o Ministério da Agricultura, as vendas externas podem ficar entre 96,4 milhões e 128,2 milhões de toneladas em 2028/29.

Principal parceiro comercial do País, a China adquiriu 81% do que o Brasil vendeu de soja em 2018. Em seguida, a União Europeia representou apenas 7% das vendas. No ciclo 2017/2018, o gigante asiático importou 94 milhões de toneladas de soja. A procura pela soja brasileira foi aquecida pelos reflexos da crise comercial entre Estados Unidos e China. Neste ano, as compras chinesas enfraqueceram devido à peste suína africana, que dizimou rebanhos e retraiu a demanda por ração. Para 2018/2019, a previsão é de que a China importe 83 milhões de toneladas. Na temporada 2019/2020, o volume poderá ficar próximo das 85 milhões de toneladas. “A China deve levar uns quatro ou cinco anos para retomar o patamar de 2018, mas sua produção se mantém em torno de 17 milhões de toneladas, enquanto o consumo passa de 100 milhões de toneladas”, observa o consultor.

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Produtor Andre Dobashi, de Antônio João/MS: busca por melhorias inclui fatores como compactação zero e fixação biológica de nitrogênio

Parte da movimentação do mercado irá depender das consequências de um possível acordo entre EUA e China. Para Cogo, o Brasil deve manter uma distância segura dessa disputa, mas, ao mesmo tempo, preservar uma relação de cordialidade com ambos os países. “A China é nosso maior cliente e praticamente assumiu que não será autossuficiente em muitos produtos, e, consequentemente, precisa comprar de diferentes países do mundo. O Brasil vem conseguindo aproveitar a situação para vender algodão e, principalmente, carnes, o que também é uma forma de agregar valor às vendas de soja”, sustenta.

Bilhões gerados no campo

Segundo o último Censo Agropecuário do IBGE, a soja aportou R$ 104 bilhões ao Brasil em 2017, mais de um terço do valor total da produção vegetal, que foi de R$ 308 bilhões no mesmo ano. Em comparação com o Censo de 2006, a área colhida aumentou 72%, o número de estabelecimentos agropecuários que trabalham com a cultura cresceu 9%, e o volume de produção subiu 123%.

Os números grandiosos nascem no campo, no trabalho diário de produtores de diferentes perfis que têm o grão como carro-chefe das suas receitas a cada safra. O produtor Andre Dobashi cultiva 1,5 mil hectares na propriedade arrendada desde 2016 em Antônio João, município do Mato Grosso do Sul próximo à fronteira com o Paraguai. Além da soja no verão, a segunda safra é ocupada com milho consorciado com braquiária, braquiária, aveia, sorgo e adubação verde. Em parceria com outros produtores, as áreas com pastagens são ocupadas pelo gado durante uma época do ano.

No primeiro ciclo de cultivo, em 2016/2017, a média de produtividade ficou em 48 sacas por hectare e, já na temporada seguinte, subiu para 72 sacas/ha. A safra 2018/2019 foi marcada pela frustração com a seca, que fez a média cair para entre 50 e 55 sacas/ha. Mesmo assim, alguns talhões mantiveram rendimentos próximo a 70 sacas/ha. Dobashi procura cultivar até 25% da área com variedades convencionais como estratégia de manejo contra a resistência de pragas e plantas invasoras. Na safra 2019/2020, no entanto, 100% da área foi cultivada com sementes transgênicas. “Temos disponíveis no mercado poucas variedades convencionais, que precisam ser plantadas entre a segunda quinzena de setembro e o início de outubro. Mas, neste ano, houve atraso no plantio devido à falta de chuva”, explica.

Na conta final dos custos, o plantio da soja convencional é superior entre 6% e 8%. O valor da semente é mais baixo, mas os gastos com defensivos, principalmente herbicidas, são superiores. O investimento compensa na hora da venda. Na colheita 2019, o mercado chegou a pagar entre 20% e 25% a mais pela saca da soja convencional, que é destinada, principalmente, à exportação.

Foco na lucratividade

Para Dobashi, que também é presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/ MS), a evolução da produtividade está na busca constante por melhorias. Porém, mais importante que o rendimento por hectare é a lucratividade. “Projetamos a redução de custos, a melhoria da plantabilidade e das condições do solo, a comercialização bem-feita”, enumera. “O lucro líquido da empresa não pode cair em função do aumento de produtividade. E esse lucro deve sempre ficar acima dos investimentos de médio risco do mercado”, acrescenta.

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Produtor Eneci Rizzo, de Palotina/PR: capricho nas áreas para agregar valor com aumento de produtividade

Segundo ele, alguns fatores são perseguidos com mais veemência na rotina da propriedade. “Aprendi a lição quando tive a oportunidade de participar de um grupo de benchmarking em gestão. Inicialmente, montado com três amigos de Maracaju/MS para discutirmos ações que cada um fazia em sua propriedade, o grupo ganhou força quando adotamos a mesma ferramenta de gestão desenvolvida pelo Grupo Agros”, afirma. A estratégia, cita Dobashi, foi resumida nas sete primeiras letras do alfabeto:

A: Alumínio zero (não existe segurança de produção se o alumínio não for zerado em, pelo menos, 40 cm de profundidade no solo);

B: Boro alto (o teor de boro deve estar sempre em níveis altos ao longo de todo o perfil de solo, para que a planta tenha condições de expressar seu máximo potencial produtivo);

C: Compactação zero (as raízes precisam se desenvolver livremente para poder absorver os nutrientes do solo);

D: Doenças controladas (o controle de doenças é imprescindível para a máxima expressão genética das plantas);

E: Equipe treinada e motivada (pessoas comprometidas e com sentimento de dono. Todos devem estar trabalhando com o objetivo de aumentar o lucro da empresa);

F: Fixação biológica de nitrogênio (a soja tem a fantástica habilidade de transformar o nitrogênio atmosférico em amônia, que é um fertilizante importantíssimo para as plantas. Esse processo deve ser otimizado ao máximo com a coinoculação e a inoculação direta no sulco);

G: Genética adequada (a escolha das variedades é muito importante para conseguir o melhor resultado. Aliada à genética, a plantabilidade – ou qualidade da semeadura – também é responsável por uma grande parcela do êxito).

Aprendizado constante

A soja faz parte da história da família Rizzo desde a década de 1970. Nas terras em Palotina, no Oeste do Paraná, o trabalho iniciado pelo patriarca, Luiz, hoje, também conta com a participação dos filhos Eneci e Leocir. A oleaginosa é cultivada em 176 hectares no verão, seguida pelo milho segunda safra.

No ciclo 2019/2020, os primeiros plantios, em cerca de 30% da área, foram prejudicados pela falta de chuva no mês de setembro e resultaram em problemas de germinação da soja. Em outubro, com a regularidade hídrica, os trabalhos foram concluídos de forma satisfatória.

A família vem conseguindo incrementar a produtividade nas terras em Palotina. A média, que variava entre 41 e 49 sacas por hectare nas últimas décadas, agora, se aproxima das 70 sacas por hectare. Na safra 2017/2018, a média colhida foi de 72 sacas/ha, com alguns talhões chegando a 81 sacas/ha.

N a t e m p o r a d a 2018/2019, uma seca de 42 dias afetou as plantas no período de enchimento de grãos, e a média caiu para 52,4 sacas/ha. “Mesmo assim, nosso resultado foi positivo em comparação com o que vimos na região. Alguns produtores colheram em torno de 20 sacas/ ha”, relata o produtor Eneci Rizzo. O bom desempenho também é percebido no milho. Na última safra, a possibilidade de o plantio ser realizado em janeiro colaborou com o desenvolvimento das plantas, e a produtividade foi recorde: 143 sacas por hectare.

A resposta das lavouras é creditada a uma série de fatores, como a correção do perfil de solo, a inoculação no sulco de semeadura, a aplicação adequada de micronutrientes, o uso de produtos hormonais na floração e o controle eficiente dos percevejos. “Outro elemento muito importante são as novas cultivares disponíveis no mercado. Trabalhamos com sementes fornecidas pela C.Vale (cooperativa) que são excepcionais, com alto poder germinativo e alto vigor”, destaca o produtor. Há dez anos, a família também utiliza ferramentas da agricultura de precisão que auxiliam na aplicação, em taxa variável, de corretivos e adubos, processo que, segundo Rizzo, resultou em mais uniformidade nas áreas e em redução de custos.

Nos últimos anos, um dos principais focos está no esforço pela redução da compactação. Testes estão sendo realizados com a Brachiaria ruziziensis em consórcio com o milho para aprimorar a cobertura e a proteção do solo, com aprofundamento de raízes e melhor aproveitamento da água. “Adquirimos uma parcela de terras de um vizinho que trabalhava com pastagem para os animais e percebemos a grande diferença nas condições do solo. Agora, nossa meta é implantar a braquiária em 100% da área”, conta o produtor.

Contando com a colaboração do clima, Rizzo espera, nos próximos anos, chegar a médias em torno de 82 sacas/ha na lavoura de soja. “Cada safra é única e diferente, um aprendizado constante. Pensamos, no futuro, em ampliar nosso patrimônio, mas o custo da terra é muito alto na nossa região. Por isso, hoje, o mais importante é caprichar nas nossas áreas para agregar valor ao que temos”, define.

Potencial para crescer

A conquista do Brasil no ranking mundial não esconde o caminho a ser percorrido pelo produtor na busca por melhores resultados na lavoura. A Rede de Pesquisa do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) coletou, durante cinco anos, dados nos nove principais estados produtores que revelam a possibilidade concreta de ganho de produtividade. Nessas áreas, a média ficou 30,1% acima do número da Conab, que, na safra 2018/19, foi de 3.206 quilos por hectare, ou 53,4 sacas/ha.

O estudo da rede, associado às conclusões obtidas em 11 edições do Desafio de Máxima Produtividade de Soja, promovido anualmente pela instituição, constatou que determinadas práticas são diferenciais para a melhoria dos índi ces. A correção do solo com calcário, a forma de distribuição dos fertilizantes e o arranjo espacial das plantas estão entre os fatores identificados. Na etapa do plantio, sementes de qualidade, com vigor maior que 85%, velocidade de plantio entre 5 e 6 km/h, e distribuição pneumática das sementes podem colaborar para elevar o rendimento médio da soja entre 6% e 8%.

Preencher a lacuna de tecnologia que existe entre a média brasileira e o potencial identificado em áreas acima ou muito acima da média é uma das grandes metas da agricultura brasileira, avalia o presidente do Cesb, Leonardo Sologuren. “Na safra 2016/2017, o campeão do nosso desafio conseguiu uma média de 149 sacas por hectare. Claro que as áreas inscritas são pequenas, mas há produtores que, em grandes áreas, conseguem produzir médias acima de 80 sacas/ha”, assinala.

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Produtividade média do Pais é de 53,4 sacas por hectare. Recordista do Desafio do Cesb colheu 149 sacas/ha

Não há uma receita pronta para a expansão da produtividade, mas sim a identificação de padrões de manejo acessíveis a qualquer produtor desde que haja difusão tecnológica, sustenta o dirigente. “Realizamos em torno de 180 eventos por ano em parceria com associações e cooperativas, e procuramos destacar a mensagem transmitida de produtor para produtor, porque acreditamos na força do exemplo. Estamos trabalhando como a Fórmula 1 da soja, gerando e difundindo conhecimento para que as tecnologias possam ser adotadas nas áreas comerciais”, complementa.

Na safra 2018/2019, mais de 4 mil produtores participaram do Desafio de Máxima Produtividade. Para o ciclo 2019/2020, as inscrições seguem até 31 de janeiro. O principal objetivo para os próximos anos, segundo Sologuren, é continuar colaborando para o incremento de produtividade de forma sustentável e rentável nas lavouras brasileiras. “Acredito que estamos cumprindo um papel socioeconômico não apenas entre os produtores, mas também ajudando o Brasil a se manter competitivo e com capacidade para abastecer os mercados interno e externo”, resume.

Produtividade com sustentabilidade

O Brasil tem capacidade para manter o aumento da produção de soja sem pressão sobre as áreas de florestas. A expansão pode ocorrer especialmente por meio do cultivo sobre áreas de pastagens (degradadas ou não) e com o incremento de produtividade nas lavouras. A análise é de cientistas da Embrapa que reuniram informações que respondem um artigo internacional no qual os autores sugerem que o aumento da demanda internacional pela soja brasileira provocaria o avanço do plantio sobre a Amazônia.

Por uma série de motivos, não é interessante para o Brasil o cultivo no Bioma Amazônia, destaca um dos autores do estudo, o pesquisador Décio Gazzoni, da Embrapa Soja. Além das questões ambientais e restrições legais, há fatores técnicos e econômicos. “O custo é alto, a logística é deficitária, e, com a Moratória da Soja, as principais tradings não adquirem soja oriunda de áreas de desmatamento no bioma a partir de 2008”, diz.

O especialista referese ao pacto comercial liderado pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e pela Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (Anec). Segundo a Abiove, com a moratória, entre 2008 e 2018, a expansão da soja no bioma ocorreu apenas em áreas que já se encontravam abertas, passando de 1,7 milhão para 4,6 milhões de hectares nesses dez anos.

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Pesquisador Décio Gazzoni, da Embrapa Soja: um dos desafios é ampliar a assistência técnica aos produtores

O fim da moratória é defendido por representantes de produtores, que alegam que a medida impede o desenvolvimento econômico e a geração de empregos em municípios da região. O vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) e presidente da Aprosoja/MT, Antônio Galvan, argumenta que o País, além de ter a agricultura mais sustentável do mundo, conta com uma rígida legislação ambiental. “Reivindicamos que se cumpra o Código Florestal, que estipula o direito de uso da terra para a agricultura em 20% da área de florestas no bioma”, justifica.

Domínio tecnológico

O estudo dos pesquisadores da Embrapa apresenta, entre outras informações, o dado de que apenas 7,8% do território nacional é explorado com a atividade agrícola, segundo levantamento da Embrapa. O número é muito próximo do apontado pela Nasa, de 7,6%. “Regiões de origem de autores desse artigo, como Alemanha e Reino Unidos, utilizam entre cinco e sete vezes mais áreas de seus territórios para exploração agrícola”, assinala Gazzoni.

O trabalho ainda destaca que o Brasil detém o domínio tecnológico para seguir produzindo de forma sustentável. “Melhoramos muito nos últimos anos, com práticas como fixação biológica de nitrogênio, conservação do solo, plantio direto, manejo integrado de pragas e integração lavoura -pecuária. Nos dedicamos ao trabalho sobre áreas degradadas, que recebem cada vez mais importância. No início, os produtores achavam a conversão difícil, mas hoje a situação é diferente, especialmente no Cerrado”, analisa Gazzoni.

O equilíbrio dos sistemas sustentáveis com o aumento da produtividade representa o cenário ideal, mas também depende de fatores como as políticas públicas e a capacitação dos produtores. “Os altos rendimentos obtidos no desafio do Cesb, por exemplo, nos mostram que podemos ir além, mas é preciso gerar as condições para o acesso às tecnologias. O censo do IBGE indica que quase ¾ dos produtores sentem falta de assistência técnica, ou seja, ou não recebem, ou recebem muito pouco. Precisamos de iniciativas que levem os pacotes tecnológicos para a grande massa de produtores, via cooperativas, sindicatos, Emater, consultores privados e órgãos do governo”, considera.

Para o especialista da Embrapa, não existe uma revolução imediata. A produtividade depende de um somatório de fatores, mas o solo é o elemento principal do processo. “Aí entra o plantio direto, a integração lavoura-pecuária, um perfil de solo adequado com, pelo menos, dois metros sem compactação alguma para que as raízes se aprofundem e as plantas possam responder melhor em situações de estresse. Isso não se consegue de um ano para o outro, mas sim em um trabalho de médio prazo e de manutenção ao longo dos anos”, descreve.

Questões além das propriedades

Para continuar ampliando a produção, os produtores também precisam superar gargalos que ultrapassam os limites das propriedades, contata o vice-presidente da Aprosoja Brasil, Antônio Galvan. “Os problemas relacionados à infraestrutura impedem um maior crescimento. O transporte rodoviário é o mais caro e ainda é o mais utilizado no País. As péssimas condições das estradas dificultam o escoamento em épocas de chuva, por exemplo. Hoje, o Mato Grosso deixa de plantar entre 1,5 milhão e 2 milhões de hectares a mais devido a esse entrave”, salienta. O dirigente também cita como desafio o déficit de armazenagem. “Precisamos de mais estímulo para o investimento em estruturas, com juros mais atraentes que facilitem os projetos na área”, pontua.

Outra preocupação da cadeia é a manutenção da Lei Kandir, que garante a isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na exportação de produtos não industrializados e semielaborados. Galvan alerta para os impactos sobre a economia caso a lei seja extinta pelo Congresso. Estudo encomendado pela Aprosoja Brasil revela que a produção nacional de soja poderia ser 34% menor se não houvesse a desoneração das vendas externas.