Na Hora H

BRASILEIRO PRECISA DE MUITO, MAS DEPENDE DE EDUCAÇÃO

Alysson Paolinelli

Sempre tenho falado aqui de todos os aspectos que necessitamos evoluir para desenvolver a nossa produção de alimentos e de energia renovável. Mas, desta vez, quero me fixar naquilo que mais entendo como urgente e necessário para um país em desenvolvimento como é o nosso Brasil: o setor de educação. Em relação a tudo aquilo que sempre me refiro como necessidades urgentes de reformulação do sistema produtivo agrícola brasileiro, sinto que as mensagens são compreendidas apenas por uma parte da população produtora. Segundo dados estatísticos, há uma população de aproximadamente 832 mil empresários rurais que, nos últimos 50 anos, conseguiram absorver e transformar de forma altamente competitiva os instrumentos que lhes foram colocados à disposição, ora pela ação do Governo, ora pelo trabalho da própria sociedade. E, principalmente, souberam aproveitar as oportunidades que o mercado lhes ofereceu e construíram ali, nesse pequeno espaço de tempo, a mais competitiva e sustentável agricultura tropical que o mundo conhece.

Entendo, no entanto, que, pelas mesmas estatísticas, cerca de 4,5 milhões de produtores ou trabalhadores rurais não obtiveram o mesmo resultado. Depois de 50 anos, os instrumentos de política pública sempre lhes deram a necessária prioridade. Mesmo assim, não conseguiram a evolução desejada e continuam a realizar uma agricultura extrativa, de subsistência, tirando da terra o que ela lhes pode oferecer sem restituir o retirado. Isso é chamado de agricultura extrativa, que, muitas vezes, não lhes dá nem a própria subsistência. Não estou me referindo apenas a pequenos produtores. A mesma estatística mostra que a agricultura extrativista é realizada por pequenos, médios e grandes produtores e proprietários de terra.

Se as inovações provocadas pela ciência e pela tecnologia desenvolvida no País e os instrumentos de política agrícola ao longo de todo esse tempo sempre davam preferência ao agricultor de subsistência, precisamos depreender que a causa principal da disparidade está exatamente no nível ou grau educacional de quem produz. Temos de reconhecer que, mesmo com o esforço de todos os governos em privilegiar essa população maior da agricultura extrativa, até hoje, de um modo geral, não rendeu os efeitos dela esperados. Seja como Governo, seja como professor ou como profissional que sou, sempre me preocupei muito com essa disparidade, pois isso, para mim, reflete exatamente a diferença entre país desenvolvido e país subdesenvolvido.

Na década de 1970, quando ainda éramos importadores de alimentos, o mercado interno crescente era o fator de impulso ao nosso sistema produtivo. A conjuntura econômica mundial agravada pela crise do petróleo colocava países dependentes de alimentos e de conhecimento em frágil possibilidade para se desenvolver. No caso brasileiro, uma decisão de Estado de promover a evolução em seu sistema produtivo de alimentos e produtos de origem agrícolas foi fundamental. Tanto foi assim que, rapidamente, saímos da dependência e, em poucos anos, nos transformamos em produtores competitivos e em players na competição mundial. O segredo, todos conhecem, foi montar um sistema eficiente de geração (Embrapa) e de transferência (Embrater) que atendeu, àquela época, os brasileiros capazes de absorver o que lhes foi oferecido.

Por maior que tivesse sido o esforço, grande parte dos agricultores que hoje identificamos claramente como de baixo nível educacional não pode acompanhar o progresso que lhes foi oferecido. Se quisermos que isso aconteça com a mesma velocidade que a elite produtora brasileira ocupou o seu lugar no mercado mundial, o instrumento de política pública para resolver esse problema chama-se educação. Isso não foi privilégio, muito menos erro do esforço brasileiro. Esse fato se repete de vez em todos os países subdesenvolvidos, e, como eles, nós ainda carregamos essa incômoda pecha de país subdesenvolvido.

Não há outro caminho: se quisermos ser enquadrados como país desenvolvido, temos de recomeçar na base e fazer uma verdadeira revolução educacional para que todo brasileiro – não só o produtor rural – possa, efetivamente, participar do processo produtivo sustentável e que dê igualdade de oportunidades a todos. Não podemos perder essa oportunidade. O mercado nos indica que, nos próximos 30 anos, a demanda por alimentos vai ser crescente, e, com segurança, podemos dizer que será dependente da produção brasileira. Isso nos indica também que, além do mercado altamente favorável ao nosso País, já se pode afirmar uma nítida tendência de mudança de hábito alimentar. Em qualquer país, além das economias fortes, países populosos como China, Índia e os da África, em geral, começam a buscar, a cada dia, os alimentos chamados saudáveis ou popularmente conhecidos como alimentos verdes.

É evidente que as vantagens comparativas dadas pela natureza às regiões temperadas pelos 4 mil anos agora se revertem para as regiões tropicais, onde é perfeitamente possível oferecer, por 12 meses consecutivos do ano, a chamada alimentação verde. Esse mercado também favorece – e muito – a produção de alimentos verdes, que, por natureza, são muito mais exigentes em mão de obra, pela necessidade de padrões, de sua classificação que exigem processamentos (industrialização), embalagens, transportes, condimentos, pré-cozimentos e tantos outros trabalhos que mais beneficiam o pequeno produtor. Algo me inspira para dizer que agora chegou a vez de podermos ocupar de forma muito mais sustentável grande parte dessa população que ainda não teve a sua vez. Mas, para isso, a chave é uma só: educação.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura