Agricultura 4.0

Agricultura Urbana

A tecnologia para a agricultura evolui para todos os sentidos que se possa imaginar, inclusive trazendo a possibilidade de se controlar diversos fatores do sistema solo-planta-atmosfera para que a produção de plantas possa ser realizada em diferentes situações controladas artificialmente. Agronomicamente, já sabemos e podemos receitar para as plantas a maioria das coisas que elas precisam para crescer e produzir.

A agricultura urbana é uma dessas tendências mundiais, visando à produção de alimentos em ambientes artificialmente controlados, em pequena escala, pelos próprios moradores urbanos ou por empresas especializadas, que passam a ter alimentos próximos de baixo custo, na hora e na quantidade que desejarem. Todavia, grandes cidades, como Nova York e Atlanta, possuem enormes warehouses (armazéns) subterrâneos com a produção de hortaliças em estruturas enormes. Esse tema já vem sendo estudado e caracterizado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), e, segundo a entidade, a agricultura urbana é definida como o cultivo de plantas ou a criação de animais no interior ou nos arredores das cidades. Estima-se que mais de 800 milhões de pessoas praticam a agricultura urbana ou periurbana, e como os produtos são produzidos em nível local, necessitam de menos transporte e refrigeração, reduzindo os custos aos consumidores.

Para países como o Brasil, de clima tropical, essa agricultura urbana pode ser realizada em diferentes locais da selva de pedra, como em pequenos jardins, vasos, de forma vertical e até mesmo nos telhados e fachadas vegetais projetados, visto que o fator atmosférico não é tão limitante em regiões tropicais. Contudo, para países que sofrem com as condições ambientais devido a fatores climáticos, notadamente um inverno rigoroso, ou até pela escassez de um dos fatores do sistema de produção – como a água –, a tecnologia de produção vegetal permite que esses sistemas inteligentes forneçam todas as condições necessárias para a planta (água, luz, atmosfera e nutrientes), para que a produção aconteça. Com efeito, isso já é uma realidade em uma startup americana, a ShipShape Urban Farms, que acaba de lançar um contêiner de produção inteligente de alimentos, no mesmo conceito das casas ou cidades inteligentes baseadas nas tecnologias de IoT (Internet das Coisas). Nesse caso, a inovação tecnológica possibilita que qualquer pessoa possa se tornar um produtor urbano, num sistema plug-and-play.

A empresa tem como cofundadores Dale Speetjens (arquiteto); sua esposa, Angela Speetjens (especialista em horticultura); e Jeff Marcus (executivo aposentado de uma empresa muito bem-sucedida no Vale do Silício que desenvolve equipamentos na área de medicina), e, como responsável pela produção e P&D, o engenheiro-agrônomo brasileiro e ex-professor da Fatec Shunji Nishimra Carlos Henrique Augusto – que, recentemente, voltou a residir nos Estados Unidos para trabalhar nos negócios da família. Segundo ele, desenvolver o contêiner foi um grande desafio, e, quando programado, é capaz de produzir 1,2 mil pés de alface por semana, em sistema hidropônico, com o uso de apenas 10% de água quando comparado a uma horta convencional. Ainda promove o controle artificial da atmosfera, permitindo que se produza o alimento quando externamente se tem alguns graus centígrados negativos, ou seja, viabiliza a produção de alimentos em quantidade mesmo em regiões ou épocas inóspitas para a produção.

Ao final da conversa com o Carlos Henrique Augusto, perguntei sobre a possibilidade de a tecnologia viabilizar a produção de alimentos em locais inimagináveis ou de alta necessidade. Bom, ele disse que é uma possibilidade e que já houve uma conversa com os militares americanos, no sentido de levar alimento para as suas tropas em regiões remotas ou na assistência em áreas de desastres. Quem se interessar pela tecnologia pode consultar sobre o produto no site www. shipshapeurbanfarms.com ou, sobre o tema, em www.agriculturaurbana. org.br.

Engenheiro-agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura