Segurança

Dez atitudes para proteger seu patrimônio

Segunda

E com custo zero. Artigo esclarece o que pode ser feito para evitar ou ao menos minimizar ataques à propriedade e ao que ela abriga, de máquinas a insumos, e, inclusive, seus bens mais valiosos: você, seus familiares e funcionários

Eugênio Moretzsohn, palestrante, consultor de Segurança e Contrainteligência, [email protected]

A fazenda é um espaço agrário de múltiplas finalidades, com suas edificações, maquinários, áreas de cultivo e pasto, animais vivos e outras estruturas voltadas à vocação agropastoril, de hospedagem ou de lazer daquela planta. Algumas possuem laboratórios de coleta e análise de amostras com equipamentos sofisticados, além de escritório, armazém, garagens e residências dos moradores. As fazendas, portanto, armazenam coisas cobiçadas por bandidos (nome aqui usado para ladrões): máquinas e veículos, motores elétricos, fiação de cobre e transformadores, ferramentas, sobressalentes, combustível, sementes, insumos. E os escritórios costumam dispor de aparelhos de ar-condicionado, computadores e impressoras. Muitos moradores possuem celulares e guardam armas e dinheiro em casa.

Não só as instalações, mas, especialmente, as pessoas – seus bens mais valiosos – são vulneráveis às ações de bandidos, sejam de vandalismo, roubo de maquinário, de carga, de defensivos e de animais vivos, culminando com o latrocínio de fazendeiros e funcionários por quadrilhas de bandidos cruéis, conhecedores da mata e de seus caminhos (por isso mesmo difíceis de prender), e que não hesitam um segundo em matar. Há maneiras de se melhorar a segurança de todos, com criatividade e sem custos, como nos dez passos listados a seguir:

1- Evitar a ostentação gratuita de sinais exteriores de riqueza e orientar, especialmente, os mais jovens a serem discretos. Os bandidos percebem a exibição de riqueza e passam a monitorar seus alvos à espera de oportunidades;

2 - Cuidado com postagens nas redes sociais. Os bandidos também as acompanham em busca de vítimas, inclusive de dentro dos presídios. Nada de mostrar detalhes que facilitem a localização da família, nem suas rotinas;

3 - Os caminhões da frota da fazenda que circulam em rodovias deverão fazê-lo em comboios e descaracterizados: baús sem pintura, e paralamas e para--choques sem inscrições contribuirão para a segurança do transporte de cargas. Quando algum item de valor for embarcado via rodoviária, a polícia deverá ser alertada;

4 -O comportamento das pessoas precisa acompanhar os tempos atuais: as drogas ilícitas e as organizações criminosas financiadas por elas trouxeram a violência para o campo; portanto, é urgente educá-las para que se mantenham afastadas dos perigos da aquisição, do consumo e da posse dessas substâncias;

5- Boa parte das informações utilizadas por bandidos no planejamento de ações criminosas é obtida nas redes sociais ou pela técnica de “engenharia social”, artimanha disfarçada de boas intenções e gentilezas, mas que, na verdade, visa à aproximação para tentar obter informações sobre a rotina da fazenda e do escritório, as medidas de segurança na operação logística e outras que lhes permitam planejar a ação. Bandidos profissionais contratam garotas (andorinhas) e rapazes (valetes) atraentes, que se insinuam para funcionários(as) nas baladas da cidade para levantar informações. O álcool é utilizado para reduzir as defesas do alvo, tornando-o mais vulnerável à extração de informações. Há funcionários(as) que, para impressionar, e já com a língua solta pela bebida, contam vantagens sobre o trabalho, as viagens com carga e – pior – falam sobre dinheiro. Na contraespionagem, área de atuação profissional deste autor nas Forças Armadas, essa técnica que combina engenharia social, sedução, bebida e retirada de informação sensível é conhecida por “elicitação” e vem sendo utilizada com sucesso desde Cleópatra, a Rainha do Egito, que a empregou contra dois generais romanos (Júlio César e Marco Antônio) 50 anos antes do nascimento de Cristo! Portanto, educar funcionários e filhos para serem cuidadosos com as abordagens de estranhos e com as ofertas de facilidades etílicas e sexuais é atitude de valor para a segurança;

6- Manter bom relacionamento com as forças policiais, apoiando-as com informações, pois os moradores da fazenda, das vizinhanças e os fornecedores são os melhores olhos e ouvidos da polícia, já que circulam por toda a região. Falando em circular pela região, não saia sozinho, pois isso facilita para os bandidos;

7- Organizar com os demais fazendeiros, comerciantes, fornecedores e policiais uma rede de vizinhança solidária, compartilhando entre seus membros os telefones de contato, por meio dos quais alertas de segurança serão emitidos para todos, sem pre que alguém perceber uma ameaça. Se não houver disponibilidade de sinal, incluir a rádio comunitária na rede;

8- A rede de vizinhos solidários poderia ser sediada do sindicato rural, onde funcionaria um Núcleo de Inteligência operado por um funcionário da casa com formação universitária. Colaborativo e integrador, o núcleo receberá dados de segurança, os analisará com o auxílio da polícia e da imprensa, e os distribuirá em formato de boletins dentro da rede de participantes, por telefonia ou pela internet. Cria-se um banco de dados sobre pessoas perigosas avistadas na região, o modus operandi das quadrilhas e de alertas de segurança recebidos e emitidos;

9- Educar funcionários e suas famílias, sensibilizando-os sobre a necessidade de perceberem as presenças, nas redondezas, de estranhos e de ex-funcionários demitidos conhecedores das rotinas das fazendas e das fragilidades destas. Prestar atenção nas pessoas de fora quando forem à cidade. É nos bares e pensões de lá que são gerados os crimes que terminam sendo cometidos no campo;

10- Aplicar técnicas de contrainteligência na fazenda, mantendo sigilo sobre as informações sensíveis, acessadas somente por pessoas credenciadas. Nunca colocar todos os ovos em uma única cesta, ou seja, nenhum funcionário deverá estar de posse de todas as informações (Técnica da Compartimentação).

Caro leitor, até aqui, nenhum custo financeiro foi gerado e, seguramente, 75% das ameaças à segurança da fazenda e das pessoas foram afastadas nesses dez passos. Concluindo a importante missão de escrever este artigo, sugiro aos fazendeiros que, antes de investirem em soluções milagrosas, convidem um consultor para realizar um diagnóstico e elaborar um plano de segurança, o qual, depois de discutido e aprovado, dará origem ao caderno de boas práticas a ser apresentado aos funcionários. O consultor orientará a criação do Núcleo de Inteligência na sede do sindicato rural, para que emita boletins com informes checados com a polícia e a imprensa locais. Assim, haverá ótima integração de todos os que circulam pela região e que estão verdadeiramente preocupados com a segurança coletiva, como bons cidadãos que são.