Mecanização Esteiras

ESTEIRAS de borracha no lugar de pneus

Com máquinas cada vez maiores e, por consequência, mais pesadas, as esteiras podem ser utilizadas para evitar a compactação e, ainda, melhorar a eficiência de tratores e colheitadeiras. Mas quais são as vantagens e as limitações?

Alexandre Russini, Rogério Rodrigues de Vargas e Daniel Ciro de Souza, da Universidade Federal do Pampa, e Marcelo Silveira de Farias, da Universidade Federal de Santa Maria/RS

Os rodados são responsáveis por transformar o movimento rotativo do motor em movimento linear útil, na forma de tração ou simplesmente de deslocamento. Ao trafegarem em solo agrícola, o desempenho operacional das máquinas agrícolas, a quantidade de trabalho realizado na unidade de tempo, é reduzido por inúmeros fatores, que vão desde os diretamente relacionados à máquina até os parâmetros físicos de solo. Durante as operações agrícolas, surgem inúmeras dificuldades, pois se trabalha em diferentes tipos de solo, condições de umidade e cobertura vegetal, que afetam diretamente a capacidade de tração. Nesse sentido, o aumento da superfície de contato dos rodados com o solo está relacionado com a redução do patinamento e o aumento da potência de tração, com reflexos no consumo específico de combustível.

Devido ao novo modelo agrícola adotado no Brasil, de produção de grãos, fibras e cereais em larga escala, houve necessidade de aumentar o desempenho operacional mecanizado. Para atender a essa demanda, as máquinas passaram a contar com motores mais potentes. No caso dos tratores, o aumento de potência dos motores acarreta, obrigatoriamente, o incremento do peso de embarque. E no caso das colhedoras, observa-se aumento significativo na capacidade de processamento e armazenamento do tanque graneleiro, que chegam até a 14.500 litros, o que representa, em média, o armazenamento temporário de quatro a dez toneladas de grãos. Além disso, existe o peso da própria máquina, que ultrapassa, em determinados modelos, 25 toneladas quando carregada. O aumento do peso das máquinas, em geral, causa maior pressão dos rodados sobre o solo, ocasionando problemas de compactação do solo, principalmente em lavouras conduzidas sob o sistema de plantio direto. A compactação é um problema para os agricultores, pois reduz a produtividade das culturas e demanda diversas estratégias para que seja minimizada.

Novas concepções tecnológicas são apresentadas pelos fabricantes de máquinas para mini mizar o problema da compactação e, ao mesmo tempo, otimizar e aumentar a eficiência durante a realização das operações mecanizadas. Entre essas tecnologias, pode-se mencionar o uso de esteiras, tanto em tratores quanto em colhedoras. A existência de esteiras metálicas não é uma novidade. Em lavouras de arroz irrigado no Sul do Brasil e em países como Argentina e Uruguai, seu uso remonta longa data, permanecendo até os dias atuais. Devido ao solo alagadiço, com baixa capacidade de sustentação ao tráfego de máquinas, são utilizadas majoritariamente em colhedoras, como única alternativa para trafegarem nessa condição de solo.

Os problemas decorrentes do uso de esteiras metálicas são os seguintes: baixa velocidade de deslocamento, dificuldade de manobra, aumento do tempo necessário para recolocar a colhedora na faixa de operação – o que reduz a eficiência de campo e aumenta o custo operacional –, dificuldade e elevado custo de manutenção, devido ao desgaste precoce dos componentes. Destaca-se, ainda, o uso restrito em lavouras de arroz, pois a lâmina d’água de irrigação reduz o atrito entre as partes metálicas, diminuindo o desgaste. Atualmente, tem-se apostado na utilização de esteiras de borracha. No Paraguai, essa tendência já é realidade entre os produtores de arroz irrigado, devido à expansão da cultura naquele país. Essa nova concepção apresenta inúmeras vantagens, que podem vir a superar os pontos negativos das máquinas equipadas com esteiras metálicas. No Brasil, a introdução é recente e está restrita quase que exclusivamente à Região Centro-Oeste.

As esteiras de borracha utilizadas tanto em tratores quanto em colhedoras apresentam projeto de cubo aberto, que possibilita o uso em máquinas com redução final. Permitem fácil acoplamento e manutenção, sem a necessidade de alterações ou adaptações. Como maior vantagem, tem-se o aumento da eficiência operacional devido ao menor tempo de manobra, por exemplo, melhorando a relação custo-benefício. Com o uso de esteiras de borracha, tem-se maior área de contato com o solo, se comparada com os rodados convencionais. Para um trator, maior área de contato significa maior potência de tração. Para uma colhedora, além da tração, tem-se maior capacidade de sustentação, que reduz o risco de atolamento. Ainda, a área maior reduz consideravelmente a compactação, devido à menor pressão exercida sobre o solo. Segundo informações de fabricantes, o uso de esteiras de borracha promove redução de até 5% no consumo de combustível, dependendo do tipo e das condições de operação da máquina.

E o custo? — O custo de aquisição é o principal fator que limita o aumento do número de máquinas equipadas com esteiras de borracha, podendo ser três vezes superior ao de rodados duplos. Quanto à vida útil, pode variar de 6 mil a 7 mil horas de trabalho, dependendo da severidade do uso e do trânsito em estradas pavimentadas. Já quanto à manutenção, esse sistema necessita de cuidados específicos, como lavagem periódica, troca dos óleos anualmente e rodízio das bandas de rodagem a cada dois ou três anos. Na maioria dos casos, as esteiras de borracha possuem rolamentos blindados, evitando a entrada de contaminantes como água e solo, o que reduz a manutenção por não necessitar engraxamento. O custo de aquisição de esteiras de borracha é considerado, por alguns agricultores, um fator limitante, porém os benefícios devem ser analisados.

A utilização de esteiras de borracha permite acompanhar as irregularidades do terreno, distribuir o peso da máquina uniformemente, além de proporcionar maior área de contato e aderência, diminuindo a compactação do solo. Esses benefícios são importantes quando se deseja maior capacidade de tração. A esteira reduz o patinamento e a resistência ao rolamento, devido à menor deformação do solo, proporcionando aumento da potência desenvolvida na barra de tração e diminuição do consumo específico de combustível. Os autores agradecem à empresa Camso Brasil por disponibilizar as informações técnicas utilizadas neste artigo.