O Segredo de Quem Faz

Do sonho em HOKKAIDO à realização no Brasil

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O sonho começou em uma ilha japonesa chamada Hokkaido e foi – de forma definitiva e exemplar – realizado em lavouras goianas, baianas e piauienses. Essa é a síntese de uma família que já está na terceira geração e que, hoje, cultiva quase 18 mil hectares de algodão, soja, cana e milho. O desejo de se tornar agricultor foi de Haruyoshi Shimohira (à esquerda) – hoje, com 88 anos, e na ativa –, continuado pelos filhos e, atualmente, com a participação dos netos. “É uma preocupação grande esta da sucessão, mas vejo que qualquer empresa só vai para a frente se as pessoas forem capacitadas e tiverem o dom para o cargo ao qual são determinadas”, descreve, nesta entrevista, Paulo Kenji Shimohira (à direita) 56 anos, filho de Haruyoshi que está à frente dos negócios. Além de produtor, Paulo é integrante desde a fundação da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e da entidade goiana, a Agopa.

Leandro Mariani Mittmann
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A Granja — Como a sua família começou o trabalho com a agricultura? Qual a origem do seu pai e como ele se iniciou no agro?

Paulo Kenji Shimohira — Meus pais são japoneses, nasceram no Japão, e o meu pai, Haruyoshi, na infância, fez um estágio agrícola em uma ilha, ao Norte do país, chamada Hokkaido, onde conheceu o primeiro trator, aprendeu a dirigi-lo e teve o sonho de que, em qualquer oportunidade que tivesse no mundo, na Austrália ou em qualquer outro lugar, ele gostaria muito de enfrentar uma vida de agricultura. Perto dos 25 anos, ele recebeu um convite de um parente do Brasil, que já estava trabalhando aqui. E vieram seis famílias, em 1957, para trabalhar com o grupo Maeda, que já “mexia” com agricultura, em Ituverava/SP. Por coincidência, era uma aventura que ele gostaria, um sonho de “mexer” com agricultura. Daí ele teve que casar meio às pressas com a minha mãe e começou essa vida em 1957, perto de Ituverava. Ele trabalhou 14 anos como funcionário, passou a ser gerente de uma das fazendas que o Maeda tinha, “pegou” experiência e, em 1971, conseguiu comprar um pedaço de terra em Itumbiara/GO, onde moramos até hoje. Então, desde 1971, começamos a trabalhar sozinhos. Meus pais tiveram cinco filhos, mas perderam um em 1980: a mais velha é a Lúcia, depois tem o Mário, a Ataíde – que faleceu –, depois a Elza, e eu sou o caçula. Meu pai tem 88 anos e até hoje ainda dirige, vai dar volta nas lavouras até mais do que eu. Ele bebe cachaça, cerveja, uísque, saquê todos os dias. Minha mãe, Kazuko, tem 84 anos, cozinha todos os dias para ele, tem um pouco de debilidade para andar, precisa do andador, mas trabalha, faz natação, pintura. São essas atividades que mantêm eles “acesos” do jeito que estão. Somos abençoados por Deus por termos eles na ativa.

A Granja — E qual é o seu envolvimento com a agricultura? Quais são os cultivos?

Shimohira — Estudei Agronomia na Universidade Federal de Viçosa/MG, fiz quatro estágios em algodão na época da graduação, me formei em 1985, com dois, três anos trabalhando ali junto, grudado com o meu pai. Em 1987 ou 1988, meu pai praticamente já entregou a gestão para mim, a parte de compras de insumos, sementes. Praticamente me entregou para administrar. Nessa época, plantávamos praticamente 400 hectares de lavoura entre algodão, milho e soja, com uma área maior de algodão. Hoje, estamos plantando em Goiás, na Bahia também e em um pequeno pedaço no Piauí. Nossa área total, hoje, é de 17.736 hectares, sendo algodão em 5.304, soja em 8.550, cana em 2.559 e milho em 1.323 hectares. Nessa área total que plantamos, temos um engenheiro-agrônomo-chefe na Bahia e um aqui em Goiás, onde também está ajudando no processo o Marcos, filho do meu irmão, também formado em Agronomia, auxiliando mais na área de cana e também na condução das lavouras. Na Bahia, junto do agrônomo-chefe, tem outro filho do meu irmão, que é mais velho, o Marcelo. Gostaria muito que eles fossem gestores, mas, infelizmente, eles não têm o dom para ser chefe. Então estão sendo subordinados, mas, pelo menos, ficam perto do trabalho. E agora, mais recentemente, entrou o meu filho, o Leonardo, que não é agrônomo, mas administrador, que está cuidando da parte financeira-administrativa há um ano e meio e está “pegando” boa parte administrativa também. A sucessão é uma preocupação grande, mas vejo que qualquer empresa só vai para a frente se as pessoas forem capacitadas e tiverem o dom para o cargo ao qual são determinadas. É uma preocupação muito grande dos meus sobrinhos e do meu filho. Se não tiverem a capacidade de serem os “cabeças”, tenho que terceirizar, como fiz antes de eles aparecerem.

A Granja — Como é a relação com o seu filho nos negócios, a sucessão familiar? E quais as maiores dificuldades nesse processo? Nesse sentido, que dicas o senhor gostaria de dar a outros produtores em processo de sucessão?

Shimohira — Realmente é a parte que mais preocupa. Como queremos que a empresa familiar continue dando certo e cresça, temos que ter competência, tanto na parte da família como de terceiros. Vejo pelos meus sobrinhos e pelo meu filho, eles têm que ter um alinhamento competente. Se não tiverem competência para “tocar” pela visão que achamos que deveria ser, outra pessoa vai tomar o lugar deles. Assim como, até agora, nenhum dos três é chefe de nenhum setor. Mas esperamos que, no futuro, isso aconteça. Mas, caso não aconteça, a minha estratégia é colocar pessoas competentes em cada setor.

A Granja — E como estão a produtividade, a produção e a rentabilidade das culturas?

Shimohira — Em relação à rentabilidade, como “mexemos” com agricultura há vários anos, cada ano é um ano diferente. Como trabalhamos com algodão há muito tempo, soja, milho, sou agrônomo também e vejo muito a parte técnica, rotação de culturas etc. Tem altos e baixos sempre. Há fases boas e ruins em cada cultura dessas, mas temos que plantar sempre as mesmas áreas, as mesmas culturas, sempre rotação. E o negócio é assim: tem horas que você ganha mais no milho, ou no algodão, ou na soja, e tem horas que você perde nos três. Então é difícil falar. O segredo é comprar insumos o mais barato possível, saber comprar bem o adubo, a semente, os defensivos, tentar ter um histórico de compras o mais barato possível, e produzir o máximo que puder. Em termos de tecnologia, até acho que estamos bem. Principalmente em relação ao algodão, acho que, hoje, estamos bem melhor que os americanos. Perdemos em tecnologia apenas para a Austrália, só que aquele país, no momento, está tendo problema de água. Não está chovendo, e eles não conseguem reservar a água para plantar e estão reduzindo a área ao extremo. Vão plantar, no próximo ano, só 80 mil hectares de algodão, então não vão competir muito conosco. Nesse ponto, o Brasil leva vantagem. Mas, no algodão, vamos muito bem tecnologicamente, produzindo bastante e com alta qualidade. Também temos uma associação (a Agopa, dos produtores goianos de algodão) bem organizada, tanto a estadual como a brasileira (Abrapa). A nossa associação (nacional) conseguiu fazer uma propaganda do algodão no mundo, e, hoje, estamos com uma credibilidade muito grande com o algodão de boa qualidade. Em 2019, passamos a ser o segundo maior exportador do mundo, perdendo apenas para os americanos. Esse trabalho da associação foi muito interessante, trouxe muitos benefícios aos produtores de algodão e para o Brasil.

A Granja — E qual a sua avaliação do momento do algodão, e as suas perspectivas em nível internacional, exportações, conquista de mercados, aumento da rentabilidade?

Shimohira — Se olharmos dez anos atrás, tivemos uns sete anos bem ruins de preços de algodão. Plantávamos algodão praticamente por amor, por causa da estrutura de algodoeira que temos, o maquinário que só pode trabalhar com o algodão. Você já tem uma infraestrutura e mão de obra para algodão. Então, mesmo não ganhando dinheiro, continuávamos plantando. De uns três anos para cá, o preço do algodão ficou bem atrativo, e, por isso, houve um aumento bem significativo de área plantada, tanto que o Brasil passou a ser o segundo exportador. E, para o futuro, pela participação em vários eventos do algodão em nível mundial, pois todos os anos as diretorias da Abrapa e das associações estaduais participam de eventos que ocorrem no mundo para ficar sabendo como está a situação do algodão, vemos que, para 2020 e para a frente, o preço não é muito satisfatório como nos dois últimos anos. Então temos que nos precaver. Gastar o menos possível, produzir bastante, pois, se você tiver uma alta produtividade, não vai ter prejuízo, mesmo com o preço mais baixo. Então tem que reduzir as áreas que não geram altas produtividades. É melhor reduzir e plantar em áreas em que se obtenha picos de produtividade, onde tem terra melhor, onde se vai colher mais de 300 arrobas (por hectare), pois, aí, pode-se ter um pequeno lucro, mesmo com o preço que está se mostrando para 2020-2021.

Mas são vários os desafios. E acontece com a soja também. A soja estava ruim de preço até um mês atrás, mas alguns problemas climáticos que acontecem nos Estados Unidos nos favorecem. A briga entre os grandes, China e Estados Unidos, tem horas que ajuda, tem horas que atrapalha. Mas está nos ajudando, pois os preços da soja subiram um pouco. Até um mês atrás, não tínhamos perspectivas de ter algum lucro na soja. Hoje, o preço que se está trabalhando para 2020 já se consegue ter uma pequena lucratividade. São altos e baixos que acontecem no mercado que precisamos ficar atentos o tempo inteiro. Você, além de ser produtor, que é produzir bem e cuidar bem da sua lavoura, tem que ser um ótimo economista e acompanhar o mercado todo o tempo, o ano inteiro. Temos que vender a nossa mercadoria durante o ano todo e ficar sempre alerta para vender o produto da melhor maneira possível.

A Granja — E, de uma maneira geral, como o senhor avalia o momento do agronegócio brasileiro? O que mais lhe incomoda, que deveria mudar, melhorar, aprimorar?

Shimohira — Na questão de logística, perdemos muito. Tínhamos que ter mais ferrovias. Até estão sendo feitas, mas precisava ter mais. Também hidrovias, porque o Norte consegue exportar “por cima” do Brasil. Então precisamos melhorar muito a questão de infraestrutura de logística. Os impostos também, pois somos muito sobrecarregados. E a questão de ajuda por parte do Governo. Vemos que nos concorrentes, como nos Estados Unidos, na China, na Índia, os governos ajudam muito os produtores. Por exemplo: conseguimos vender o algodão fixado no mercado, hoje, a 62-63 centavos de dólar por libra-peso, a ser retirado na nossa algodoeira, ou na faixa dos 68-69 centavos de dólar por libra-peso posto no porto. O produtor chinês está conseguindo garantir US$ 1,20, quase o dobro. A China subsidia o produtor em US$ 10 bilhões por ano. Isso ficamos sabendo porque participamos de uma reunião em Genebra (Suíça) no dia 7 de outubro. O indiano também recebe US$ 8 bilhões de incentivo por ano, e, nos Estados Unidos, em torno de US$ 800 milhões por ano na cultura. É uma concorrência desleal. O brasileiro e os africanos, os países mais pobres, sofrem muito com isso, porque o preço está lá embaixo, e, para sobreviver, temos que produzir muito. Sorte nossa é que temos terras férteis e o é clima bom, a nossa grande vantagem. Agora, se tivéssemos uma pequena ajuda do Governo, principalmente nessas épocas de vacas magras, em que não conseguimos ganhar nada, seria muito interessante. É uma competitividade desleal que sofremos. Com relação a esse nosso avanço na produção, na qualidade, foi um trabalho que as associações estaduais e a Abrapa fizeram no mundo para que se chegasse nesse nível. Temos uma associação bastante organizada, vemos o que tem de melhor no mundo em algodão e tentamos ser competitivos, fazer o melhor possível para termos mercadoria boa e barata no mercado competitivo. O não subsídio nos fez trabalhar bastante, e conseguimos boas tecnologias, atingimos altas produtividades e boa qualidade de fibra. Por isso que o Brasil chegou no patamar de segundo exportador de algodão. E que 20 anos atrás, antes de existir a nossa associação, chegamos a ser o segundo maior importador no mundo. Então foi um pulo muito grande, graças à nossa organização e ao nosso trabalho. E eu tive a graça de participar da associação brasileira e da estadual todo o tempo. Participei da Abrapa desde a fundação e da Agopa também, desde o começo, e, até hoje, trabalhamos juntos.