Dia das Crianças

O agro para os pequenos

No mês em que é comemorado o Dia das Crianças, A Granja dedica um espaço especial aos pequenos e às iniciativas que têm como objetivo formar uma nova geração consciente sobre a importância do agro na vida de todos nós

Denise Saueressig
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A educação com diversão está ajudando a preparar uma geração mais consciente sobre a importância da produção agropecuária na vida de todo mundo. Futuros profissionais do setor podem estar em formação desde agora, mas, acima de tudo, cidadãos e consumidores estão despertando para uma realidade de maior respeito e valorização pelo campo. Nesta reportagem, A Granja apresenta algumas iniciativas realizadas em diferentes regiões do Brasil para estimular a curiosidade e promover o conhecimento dos pequenos sobre o agro.

O campo vai à escola

Foi ouvindo questionamentos dos amigos dos filhos que Mayra Figueiredo despertou para a ideia que hoje está concretizada no Programa Refazenda – O campo na escola. “Eu sou veterinária e meu esposo é pecuarista. Nossos filhos convidam os amigos para irem até nossa fazenda e é muito comum ouvir perguntas do tipo: ‘Tia, é daí que vem o ovo?’ Ou então: ‘o leite sai do peito da vaca? Eu não sabia!’”, descreve Mayra.

Trabalhando com a criação de gado e de cavalos na propriedade da família na região da Fercal, a 40 quilômetros de Brasília, Mayra e o marido, Paulo Henrique, também conduzem juntos o programa que leva até as crianças um pouco sobre a realidade do campo. As atividades práticas iniciaram em março de 2018, na Capital Federal, na escola onde estudam os filhos do casal, Daniel, de 8 anos, e Marina, de 6. “Estamos em uma região geoeconômica muito pequena, que é o Distrito Federal, mas tudo aqui em volta é Goiás. É curioso que a questão agrária está muito próxima de Brasília, mas pouco recebe atenção”, constata a veterinária.

O Refazenda é dividido em seis projetos: bovinocultura, equinocultura, ovinocultura, suinocultura, avicultura e agricultura, com ênfase, num primeiro momento, para o milho. Uma vez por mês, um animal de cada projeto é levado ao ambiente escolar. Tudo é feito com obediência à legislação e às normas de bem-estar animal. Um cenário é criado em torno, e a proposta é a interação das crianças com o meio. “Montamos a ornamentação com os objetos e instrumentos que têm referência com aquele animal, abordando a cadeia produtiva. No caso dos bovinos, mostramos o couro, o leite. O cenário é lúdico, mas a experiência é real”, explica.

Depois de um dia dedicado a essa experiência, Mayra permanece um mês junto à escola para a aplicação, junto aos professores, de exercícios creditados pela pedagoga que faz parte do programa. A ideia, nessa etapa, é que as crianças consigam fixar tudo o que viram. A proposta envolve alunos dos ensinos infantil e fundamental, e o aproveitamento maior, segundo Mayra, se dá a partir dos 4 anos. “A criança é muito aberta, a reação deles é surpreendente”, declara. Entre os adolescentes, a atividade é aprofundada. “Mostramos a eles que nossa agricultura e pecuária estão intimamente ligadas à tecnologia e que o produtor não é o responsável por destruir o meio ambiente, como é falado por muitos. Para os maiores, apresentamos dados da Embrapa e de outras instituições. Explico que o homem do campo precisa ser tecnificado e bem informado. Muitos acabam nos dizendo que no futuro querem ser veterinários, agrônomos ou fazendeiros”, conta Mayra.

Em torno de 900 crianças participaram das atividades do Refazenda até agora. O objetivo é fechar parcerias com outras escolas e, com o tempo, conseguir cumprir com o compromisso social do projeto, que é estar presente em escolas públicas de forma gratuita. Mayra também tem o sonho de que o programa possa ser levado, como uma franquia, para outras regiões do Brasil. “Nosso País precisa ouvir de nós, ou seja, do lado de quem produz, o quanto as pessoas da cidade dependem do nosso trabalho. Quanto mais pessoas receberem essa mensagem, melhor”, frisa.

Contato com a realidade

Por meio do Programa Filhos no Campo, crianças entre os 7 e os 12 anos têm a oportunidade de conhecer a realidade de propriedades rurais no Mato Grosso. A iniciativa teve início em 2014 e é coordenada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MT). A grande motivação do projeto é levar as informações corretas sobre o agro para as crianças para que elas entendam de onde vêm os alimentos que chegam às suas mesas, assinala o superintendente do Senar/MT, Otávio Celidonio. “Ainda que o Mato Grosso seja o grande estado do agronegócio, existe uma distância das crianças com a realidade do meio rural, principalmente entre aquelas que moram nas cidades maiores”, aponta.

A abrangência do Sistema Famato (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso) permite que o programa alcancea um número importante de participantes. Em 93 dos 141 municípios do estado, o sistema atua em parceria com os sindicatos rurais, que são os responsáveis por apresentarem a iniciativa nas escolas públicas e privadas. Em 2018, foram realizados 98 eventos com o envolvimento de 3.123 estudantes. Outras 596 crianças participam de 17 oficinas promovidas em feiras agropecuárias.

Durante as visitas nas propriedades, as crianças recebem conhecimentos sobre diferentes práticas do ambiente de cada local, seja na horta, no pomar ou na ordenha. A instrutora Waldete Santana trabalha com o programa há três anos e se diz apaixonada pelo projeto. “É encantador ver a alegria, a disposição e a curiosidade pelo novo. Eles perguntam sobre tudo. Querem saber como a árvore vira papel, o que o gado come, como o leite chega na caixinha”, revela.

Também é o momento de saber como é a rotina de um produtor rural. “Eles percebem como é o dia a dia, o trabalho com o sol intenso na cabeça, se conscientizam sobre uma série de coisas, veem a impor tância de cuidar dos animais e da água, de não desperdiçar os alimentos. Também acredito que é uma ação que pode estimular novos profissionais para o setor”, considera Waldete. Para os próximos meses, o Senar/MT prevê novas ações envolvendo crianças, adolescente e jovens. Uma delas envolve o projeto Agro Atitude Conecta, em que jovens universitários participarão de ações de voluntariado junto a crianças com a abordagem de diversas temáticas relacionadas ao agro.

A Granja Kids é sucesso entre a criançada

Tantas vezes precursora na abordagem dos assuntos mais importantes do agro, a Editora Centaurus, responsável pela publicação da revista A Granja, inovou mais uma vez ao criar A Granja Kids – Turma do Dadico, a revistinha em quadrinhos voltada aos pequenos leitores. A Kids está no sétimo ano de circulação e segue firme no propósito de divertir a criançada. As historinhas, que são ambientadas numa fazenda, têm como protagonistas o Dadico e seu irmão Huguinho, que junto a seus amiguinhos e adultos estão sempre envolvidos em aventuras e situações engraçadas. Mas a revistinha vai além: também há histórias educativas que trazem dicas sobre proteção à natureza, tecnologias do campo e produção sustentável. Além disso, os passatempos didáticos ajudam a entreter e a instruir os pequenos. Em Cruz Alta/RS, onde adora acompanhar o pai na lavoura, o pequeno Tito Tirloni, de 7 anos, aprendeu a ler entre os 5 e os 6 anos. Desde então, não perde as historinhas d’A Granja Kids. O que ele mais gosta na revistinha? “Do Dadico e das máquinas”, segundo ele mesmo.

Despertar para a consciência da integração

Trabalhar a conexão do rural com o urbano é o foco do Programa Agrinho, que foi criado em 1995, no Paraná, e hoje está presente em dez estados. A idealizadora e coordenadora do projeto, Patrícia Torres, ressalta que é preciso alertar sobre a realidade do agro e desconstruir a visão estereotipada que muitos mantêm do setor. “O programa veio para mostrar que o campo e a cidade são importantes e se complementam. A sustentabilidade depende dos dois, seja ela econômica, ambiental ou social. É uma integração e um trabalho em conjunto. O campo produz o alimento, mas a cidade consome, assim como a cidade produz o maquinário que o campo precisa para produzir. E assim por diante”, destaca.

O Agrinho é promovido pelo Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/PR), em parceria com o Governo do Estado, municípios e instituições e empresas públicas e privadas. Anualmente, envolve a participação de cerca de 800 mil crianças e de mais de 50 mil professores das redes pública e privada.

São distribuídos materiais didáticos do 1º ao 9º ano, com atividades e temáticas que variam conforme a faixa etária. Todos os anos, um concurso premia os melhores trabalhos em diferentes categorias. “Recebemos em torno de sete mil trabalhos por ano. E esta já é a segunda fase da avaliação, porque a primeira etapa é feita na escola, pela seleção dos próprios professores”, detalha Patrícia. Segundo a coordenadora do Agrinho, é perceptível, com o passar do tempo, a melhoria da qualidade do material desenvolvido pelas crianças. “Também notamos, por exemplo, que há alguns anos pouco aparecia conteúdo envolvendo a temática ambiental. Hoje a questão da sustentabilidade é bastante abordada, assim como a ligação existente entre o campo e a cidade”, cita.

Estímulo sem obrigação

Os irmãos Tito, de 7 anos, e Bento, de 5, conheceram a lavoura quando ainda eram bebês de colo. O pai, Francisco Tirloni, conta que, se dependesse deles, iriam junto sempre. “Mas só posso levar quando não estou muito ocupado ou concentrado em uma tarefa, e também quando não lidamos com defensivos. No período da safra, a Priscila (esposa) leva nos finais de semana e fica cuidando deles. Daí, eles participam das atividades por lá e ficam brincando o dia todo”, relata. A alegria dos pequenos quando estão no campo é motivada principalmente pela liberdade, por poderem fazer coisas que normalmente não fazem em casa ou na cidade, revela o pai. “Eles também são fascinados pelos tratores e pelas colheitadeiras. Adoram andar nas máquinas. E perguntam sobre tudo”, acrescenta.

Francisco e o irmão, Fabio, são produtores de grãos em Cruz Alta, na região Noroeste do Rio Grande do Sul. Ele lembra com carinho de como também cresceu envolvido com o campo. “Quando eu era criança, às vezes ia junto com o pai. E, durante a safra, a mãe e eu ficávamos por semanas a fio na lavoura com meu pai, meus tios e avós. Nós achávamos o máximo aquilo e sempre fazíamos planos para as nossas lavouras no futuro”, recorda. Apesar de considerar natural ter seguido os passos do pai, Francisco garante que não se preocupa muito se os seus filhos não decidirem pela mesma profissão. “Eles devem seguir a vida deles livres para escolher. Além do mais, é um avanço civilizatório o filho não ser obrigado a seguir a profissão do pai. Mas acharia muito bom se eles quisessem dar essa continuidade”. Para o produtor, o maior incentivo para o jovem permanecer no campo é o envolvimento desde cedo nas atividades. “Mostrar que aquilo pode ser uma coisa agradável de fazer, e lucrativa, também”, resume.