Plantio Direto

Por uma agricultura mais regenerativa

Engenheiro-agrônomo e produtor rural Rodrigo Alessio, vice-presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp) por Santa Catarina

A agricultura nacional tem dado importantes contribuições ao País, seja na esfera econômica, seja nas questões concernentes à segurança ali mentar. Nos últimos 40 anos, a produção de grãos aumentou 500%, ao passo que a área agricultável cresceu algo em torno de 80%. Os ganhos de produtividade são inegáveis. Vista como o setor mais dinâmico de nossa economia, principal responsável por sucessivos superávits na balança comercial, serve de base para uma sólida cadeia agroindustrial. Mas nenhum setor, por mais dinâmico que seja, está imune a problemas. Os entraves fora da porteira estão claramente divisados: falta de infraestrutura portuária, logística cara e ineficiente, ambiente tributário hostil, falta de seguro, insegurança jurídica e por aí vai. São questões de ordem estrutural, envolvem políticas públicas, bem como a participação de vários atores sociais para atacá-los. Já os problemas que adentram a porteira, objetos de análise neste texto, as resoluções se encontram dentro da alçada do produtor, exigindo uma abordagem subjetiva, própria de cada um.

Quando entramos nas fazendas, nos deparamos com um cenário não tão animador quanto ao apregoado pelas diversas mídias e equipes de marketing de empresas ligadas ao setor. Com custos de produção cada vez mais elevados e produtividades estacionadas, a rentabilidade do produtor vai minguando. Por paradoxal que pareça, esse mesmo modelo que nos legou ganhos anteriormente mencionados também nos colocou em uma situação de vulnerabilidade. Reféns de práticas, diríamos, pouco sustentáveis.

Várias causas podem ser elencadas com vistas a encontrar a origem dessas dificuldades. Porém, quando pousamos os olhos sob o que vem sendo feito no campo em termos de manejo, nos deparamos com uma clara simplificação de práticas, que procura atacar os problemas e não atenta para as causas. Os pilares do sistema plantio direto caíram no ostracismo. A soja tornou-se monocultura predominante, com rotação de culturas praticamente inexiste. O que se vê, em grande parte, é uma simples semeadura direta. Solos adensados e compactados, quando não erodidos, e baixa capacidade de infiltração de água, onde qualquer veranico impacta seriamente a produtividade, o que configura um sistema vulnerável e pouco resiliente.

Outro aspecto, e não menos importante, é o fato de nossos olhos só enxergarem a fertilidade química, sem atentar para a fertilidade física e, principalmente, a fertilidade biológica dos solos. Fomos treinados para observar somente atributos químicos do solo, uma análise química estática, em um horizonte de 0-20 centímetros. Ignoramos toda uma gama de relações e interações solo-planta-micro-organismos que promovem a verdadeira nutrição das plantas em profundidades muito mais alargadas. Presos à química do solo, salinizamos os sulcos de plantio com maciças doses de fertilizantes solúveis. Estes, quando em contato com o solo, complexam rapidamente, tornando-se indisponíveis, quando não lixiviados ou volatilizados.

Nós esquecemos ou fingimos não lembrar que a natureza é muito mais sofisticada que nossa capacidade de compreendê-la. Como em um sistema de vasos comunicantes, qualquer intervenção de manejo que façamos, inadvertidamente, desencadeia uma reação em resposta. Preocupados em matar determinada praga ou controlar determinado patógeno, matamos todos os seus inimigos naturais. Em resposta, superabundam indivíduos que eram alvo, acelerando o desequilíbrio. Criamos um espiral que implica mais dependência, no qual a planta fica submetida a uma espécie de “quimioterapia”, tal qual uma pessoa doente. Diante desse quadro, urge a necessidade de repensarmos o sistema. Mitigar os desequilíbrios e regenerar o ambiente de produção buscando produzir de maneira menos impactante, menos dependente e mais harmônica. Mas como mudar, mais precisamente?

A primeira mudança é a mental. Sem a pretensão de sermos percebidos como futurólogos, entendemos que a agricultura do futuro passará necessariamente por pessoas com visão de sistema, visão holística, que tenham sensibilidade de abstrair toda riqueza de relações e interações que ocorrem no ambiente de produção, fazendo a natureza trabalhar nos favorecendo. Produtores que compreendam a importância de termos um solo saudável, ativo biologicamente, produzindo alimentos com maior densidade e diversidade nutricional. Esta agricultura do futuro implica em regenerar o ambiente, devolvendo a ele características que foram perdidas ao longo do tempo, sejam elas nas chaves biológicas, físicas ou mesmo químicas.

E, dentro desse entendimento, listamos algumas práticas que acreditamos serem consoantes com essa nova visão de agricultura regenerativa:

1) Promover aportes cada vez maiores de carbono no solo. Não podemos perder a oportunidade de internalizar o carbono no solo via produção de raízes e seus exsudatos. Solos altamente produtivos inexoravelmente apresentam altos teores de matéria orgânica;

2) Aumentar a biodiversidade do sistema através da semeadura de blends ou coquetéis de plantas das mais diversas famílias. Algumas ciclando fósforo, como o trigo-mourisco. Outras fixando nitrogênio, como ervilhas, ervilhacas, tremoços. Algumas, ainda, responsáveis por proteger o solo por mais tempo, como as gramíneas no geral, produzindo biomassa com relação C/N maiores. Outras funcionando como escarificadores biológicos, como as crucíferas. Algumas com rizosfera mais ácida, solubilizando elementos que estão preso no solo e trazendo-os para a solução. E todas produzindo exsudatos que servirão de alimento para a “bicharada”, estimulando a micro e mesmo a fauna do solo;

3) Manter a raiz viva o maior tempo possível. Estima-se que cerca de 30% do gasto energética da planta é dispensado para produção de exsudatos da raiz. Quantas toneladas das secreções são produzidas por hectare/ano? Isso é carbono líquido servindo de alimento para os micro-organismos do solo. A planta fornece energia para eles e, em troca, recebe nutrientes. Associações simbióticas são estabelecidas entre micro-organismo-planta, em uma relação ganha-ganha. Os fungos micorrizos são exemplo claro dessa relação. Eles aumentam em muito a área de superfície de raiz, permitindo que a planta explore um volume de solo muito maior, além de solubilizarem fósforo. Quando colocamos excessiva dose de fertilizantes solúveis na base, inibimos a simbiose;

4) Ocupar de espaços intercalares, sejam eles outonais, com mixs de outono, sejam eles invernais, com misturas de inverno. O advento da sobressemeadura, tanto em soja quanto em milho, é uma prática muito interessante nesse sentido, ganhando tempo e protegendo o solo em períodos mais vulneráveis à erosão;

5) Rotacionar culturas não é só fundamental, como também lucrativo. Dados da Embrapa Soja corroboram isso;

6) Intensificar o controle biológico. Produção on-farming é também uma excelente ferramenta, praticamente sem impacto no ambiente, que nos ajuda a resgatar mais rapidamente o equilíbrio biológico do sistema;

7) Adubar o sistema associado a fontes de fertilizantes menos solúveis são estratégias que irão incrementar sobremaneira a atividade biológica, bem como a produtividade;

8) Semear com o mínimo revolvimento do solo, evitando a queima de carbono;

9) Confeccionar mapas de colheita ajudarão na definição das zonas de manejo, permitindo apropriar estratégias em sítios mais específicos.

Sistemas de cultivo resilientes

Essas são algumas práticas que, uma vez executadas em conjunto, ajudarão a desenvolver sistemas de cultivo mais resilientes, menos dependentes e menos impactantes. Essa lista não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas joga um pouco de luz em questões que ainda parecem obscuras. A agricultura é dinâmica, um universo de relações, interações e fluxos concorrem simultaneamente no seu processo de desenvolvimento. Isso exige de nós, cada vez mais, um perfil multidisciplinar e aberto a trocas de experiências. Iniciativas como o Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAS) estimulam o debate de práticas regenerativas, e mesmo a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp), através de projetos do Índice de Qualidade do Plantio Direto (IQP), corrobora para essa nova visão de agricultura.

Precisamos ter muito claro qual é o nosso papel enquanto produtores. Que tipo de legado deixaremos para os que nos sucederão? Que tipo de solo herdarão as gerações vindouras? Já é passada a hora de deixarmos para traz essa agricultura de prateleira, na qual a pauta comercial dita as práticas de manejo e os fundamentos agronômicos são colocados de lado. Temos que ser agentes de mudança e transformação. E essa mudança é, acima de tudo, local, dentro de nossas propriedades. Temos como fazê-la, colocando nossa agricultura verdadeiramente no caminho da sustentabilidade, combinando produção de alimentos saudáveis com equilíbrio ambiental e rentabilidade, mostrando para o mundo uma verdadeira revolução sustentável, deixando para os que virão depois um solo saudável, fértil e abundante em vida. Arregacemos as mangas e mãos à obra. O mundo não pode prescindir de nossa nova agricultura