O Segredo de Quem Faz

A história delAs virou livro

O crescimento da força feminina no campo motivou quatro executivas a contarem histórias de protagonistas desse movimento. O livro “Mulheres do agro: inspirações para vencer desafios dentro e fora da porteira” (editora Letramento) reúne pouco mais de 50 relatos de personagens que atuam nas mais diversas áreas relacionadas ao setor. Além de narrar as realizações, os desafios e os anseios delas, a obra quer entusiasmar e influenciar não apenas outras mulheres, mas também os leitores homens. As autoras – Mariely Biff, Ticiane Figueirêdo, Roberta Paffaro e Andrea Cordeiro (da esquerda para a direita) – têm formações e ocupações diferentes, mas suas vidas, de certa forma, estão ligadas às questões do campo. Na entrevista a seguir, Andrea Cordeiro conta um pouco sobre o processo de criação e sobre o conteúdo do livro, que será lançado no 4º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, nos dias 8 e 9 deste mês, em São Paulo.

Denise Saueressig
[email protected]

A Granja — Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Andrea Cordeiro — O projeto do livro foi construído em etapas. Já era algo que motivava cada uma de nós individualmente, como um ideal por sermos mulheres e por sermos do agro, trabalhando no pós-porteira. A ideia inicial nasceu com a Roberta, que se sentiu inspirada e pensou em dar voz para essas mulheres. Ela acabou comentando sobre o assunto com a Ticiane, quando as duas cursavam juntas o MBA em Agronegócios na Esalq (USP). E, na sequência, por afinidades em comum, a Mariely e eu fomos convidadas a participar.

A Granja — Como foi o processo de encontro das personagens que fazem parte da obra?

Andrea — A busca foi, até um determinado momento, por mulheres que nos inspiravam, mas não se limitou a isso. Fizemos todo um trabalho para além dessa inspiração, de mulheres que são líderes, que são referências dentro do seu segmento. Fizemos um levantamento, para os nove capítulos, com nomes, indicações. Foi um trabalho de pesquisa para levantar os nomes de mulheres que fossem referências e que pudessem traduzir, na sua história, um viés de inspiração para quem fosse ler. Ao contar as histórias – e foram pouco mais de 50 relatos –, queríamos que elas pudessem servir realmente como uma inspiração. Queremos que o leitor possa ampliar e rever valores e conceitos.

A Granja — E qual é o perfil das entrevistadas?

Andrea — O perfil é muito variado. São vários segmentos dentro do agronegócio, dentro e fora da porteira. Pecuaristas, agricultoras, mulheres do mercado financeiro, das instituições, das empresas, da área de tecnologia. A faixa etária também é bem variada, desde profissionais bastante jovens até mulheres que estão atuando na área há muitos anos.

A Granja — E quais são as principais características, as particularidades das mulheres do agro?

Andrea — São profissionais decididas, mulheres fortes e que, ao mesmo tempo, carregam consigo um olhar humano. A maioria é assim. São líderes, estão à frente do seu tempo, antevendo possibilidades e trabalhando com planos A, B e C. São mulheres que sabem muito bem o que querem, embora, às vezes, não saibam qual caminho seguir. São profissionais aplicadas, dedicadas, engajadas.

A Granja — Entre tantos relatos ouvidos, quais aspectos são os mais marcantes?

Andrea — Foram vários aspectos que nos impactaram, mas, de uma maneira geral, durante a nossa troca de vivências, relatamos a força, a capacidade dessa profissional em se reinventar, a superação, a resiliência. Muitas vezes, ela vem de um momento de dor, de ruptura, num cenário de indefinição. Em outras vezes, ela vem de um cenário de limitações, preconceito, de falta de reconhecimento. E, seja qual for o momento que ela esteja vivendo, a capacidade de ela viver com aquilo e se reinventar chamou muito a nossa atenção. Outro aspecto é a disciplina que essas profissionais têm no seu dia a dia. A disciplina pessoal, profissional, familiar. É claro que estamos falando de pessoas, e ninguém é perfeito, mas notamos a força de vontade e a falta de vergonha, de melindre. Ela ir procurar alternativas, soluções e não se limitar a conceitos e preconceitos foi outro aspecto que chamou a nossa atenção. A mulher tem facilidade de lidar com o desconhecido, de buscar a informação correta, de buscar capacitação. Isso vimos muito: mulheres que não tinham o conhecimento sobre os negócios das suas famílias e que foram atrás de informação.

A Granja — Alguma história marcou de forma especial?

Andrea — Temos histórias muito lindas no capítulo que fala da sucessão. Relatos de mulheres que passaram pela perda de companheiros, de familiares e se reinventaram. Uma entrevista em especial que eu fiz foi com uma produtora do agreste de Pernambuco, que mora numa cidade que, hoje, tem entre 15 mil e 20 mil habitantes, mas que, no passado, era muito menor. Ela já tinha uma história de fugir da seca, de outros estados nordestinos, foi para essa cidade e falou que dali não sairia mais e ali manteria suas raízes. Ela trabalhava principalmente com hortaliças e, aos poucos, foi conseguindo engajar o marido e os filhos nessa produção. Eles construíram poços artesianos e enfrentaram muitos desafios para vender a produção. Apesar de todas as dificuldades, ela não desistiu e trabalhou para motivar a família. Como sempre gostou de aprender, ela participava de oficinas do Instituto Agronômico de Pernambuco, onde uma vez foi presenteada com mudas de goiaba, o que transformou a realidade da sua produção. Hoje, o sítio da família, com pouco mais de um hectare, produz goiaba, hortaliças, verduras e temperos. Lembro que ela me disse que sempre enfrentou as dificuldades de cabeça erguida e não deixou que os comentários machistas a impedissem de seguir em frente, sim como tem orgulho por ter sido por meio da agricultura familiar que ela e o companheiro conseguiram patrocinar a educação dos três filhos. Então a gente fala de uma agricultora familiar, que trabalha em dois hectares, assim como falamos de uma produtora em larga escala, com 40 mil hectares, de uma empresária inovadora de uma startup, de uma executiva de uma multinacional.

A Granja — Quais os principais desafios que as mulheres relatam? E quais as barreiras que ainda precisam ser derrubadas?

Andrea — Não tivemos só histórias de dificuldades, mas também de mulheres que tinham certeza do legado que queriam deixar e da história que queriam construir. Mas, de forma geral, os desafios vieram por limitações de conceitos, porque a mulher não tinha espaço garantido para trabalhar no agro. Teve que buscá-lo e precisou – e ainda precisa – mostrar e provar sua capacidade. As portas se abriram, e o acesso à capacitação incentivou a entrada maciça de muitas profissionais. Hoje, embora levantemos a bandeira de valorização da profissional do agro e incentivemos as práticas de sororidade, sabemos que, ainda assim, a mulher encontra dificuldades pelo preconceito, que ainda é uma grande barreira. Muitas vezes, o preconceito é velado e não vem apenas dos homens. Vimos situações de famílias que não queriam sucessoras mulheres, em que as próprias mulheres não se apoiavam. O apoio da outra mulher é muito importante, o apoio de uma rede de mulheres que tem feito muito a diferença nos últimos anos. Também existe a dificuldade de capacitação, as escolhas que envolvem a maternidade, porque ainda é uma dificuldade dosar o lado profissional com a parte familiar. Hoje, dentro da porteira, uma das maiores limitações talvez não seja a questão de ser mulher, mas sim a profissional trabalhar com técnicas de sustentabilidade. Isso não importa se é mulher ou homem. É o grande desafio do agro. Precisamos mostrar e transmitir o conceito de que o agro é pujante e sustentável, desmistificar os equívocos que são divulgados.

A Granja — Vocês consideram que a conquista de cargos de liderança ainda representa um desafio para as mulheres?

Andrea — A mulher tem uma característica de ser multitarefa, de ter olhar amplo sobre vários assuntos. Doa-se, sempre quer o melhor, cria expectativas e até se frustra, mas está num caminho de busca de construção da carreira. Conversamos com várias mulheres do pós-porteira que falaram que não sentiram nenhum tipo de preconceito, de limitação, que tiveram grandes mentores homens e mulheres, que encontraram nas colegas e chefes o suporte adequado. Mas, mesmo assim, percebemos que a busca da mulher por cargos mais elevados é mais morosa do que o processo com profissionais homens.

A Granja — Vocês dizem que é importante que o livro alcance o público masculino. Que tipo de reação vocês esperam dos homens a partir das histórias relatadas pelas mulheres?

Andrea — A nossa ideia é mostrar que a mulher caminha num processo de igualdade para que esteja junto, perto, ao lado do profissional homem. Claro que o apoio dos homens – seja do pai, do chefe, do filho, do colega – é importante. Mas o olhar, para o homem que vai ler o livro, é saber do potencial que as mulheres têm e que juntos podemos trabalhar por um agro melhor. Que não rivalize, mas que complemente. Cada um com seu perfil e suas aptidões, num processo de complemento. Lutamos por um mundo em que as igualdades sejam, de fato, realidade. Não existe melhor ou pior. Ao longo da pesquisa, também entendemos que as empresas do agro estão comprometidas com pilares de igualdade de gênero. O pós-porteira está fazendo a sua parte, capacitando mais mulheres para tornar o agro menos desigual.

A Granja — Qual a dimensão dessa conquista de aumento da participação das mulheres no agro? Podemos considerar que vivenciamos uma nova era no setor com o avanço da força feminina?

Andrea — Acredito que sim. É um movimento muito recente, então entendo que, em pouco tempo, muito já foi feito. Visualizo que o grande divisor de águas foi o Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio. Curiosamente, eu já palestrava em outros países sobre o agro e sobre a mulher, enquanto, aqui no Brasil, não se falava sobre o assunto. Nos Estados Unidos, por exemplo, já vem esse movimento de valorizar a mulher do agro há muitos anos. E essa leitura no Brasil é recente. Então o congresso teve papel fundamental na expansão desse conceito de que a mulher do agro precisava buscar o seu caminho. Histórias que se contam no congresso, assim como em outros eventos que reúnem mulheres do agro pelo Brasil inteiro, são importantes para o avanço desse processo e para o incentivo a outras mulheres.