Na Hora H

O PROBLEMA DA FISCALIZAÇÃO E A QUALIDADE DE NOSSOS PRODUTOS

Como importador que foi até o final da década de 1970, é evidente que a preocupação do Brasil deveria concentrar-se na qualidade, no preço e na certificação dos produtos que comprava. Claro, sofremos muito, pois poucos dos produtos dos quais dependíamos tinham seus cerificados de qualidade. Mas, especialmente depois de 1968, os preços dos alimentos que importávamos praticamente dobraram em função de sua baixa oferta nos mercados internacionais. Temos de considerar que, àquela época, o consumidor médio brasileiro gastava de 42% a 48% de toda a sua renda familiar só com alimentação e não tinha condições de escolher para a sua dieta produtos mais sofisticados. A nossa demanda se concentrava em trigo, leite, carne e, às vezes, em feijão, arroz e até milho. Nessa linha de produtos, a cerificação de qualidade das regiões que importávamos pouco nos interessava. O que interessava era o nosso abastecimento.

O tempo passou, a nossa posição de importador se reverteu, e, hoje, o Brasil se tornou um grande player mundial na exportação de alimentos. Exportamos desde o nosso tradicional café até as carnes bovina, de aves e suína, a laranja natural ou em suco, as frutas como manga, maçã, pera, banana, abacate e uva, além de soja, milho, algodão e tantos outros, cujos mercados, a cada dia mais, se abrem aos nossos produtos tropicais. Agora, sim, os nossos compradores, a cada dia, se tornam mais exigentes. Afinal, pela redução da capacidade de oferta dos produtos de clima temperado que dominaram o abastecimento alimentar do mundo, já não estão como eram tanto à disposição do mercado, ou seja, denunciam a sua própria escassez. São os produtos tropicais que irão substituir, como já estão sendo, a oferta para o mercado internacional.

Os consumidores dos grandes e populosos países que se enriquecem em muito maiores proporções começam a se preocupar com a origem e, lógico, com a qualidade e a certificação dos produtos que terão de comprar no mercado internacional. Não somos os únicos a perceber essa nova oportunidade. A própria ONU, através da FAO, tem alardeado que, quando se espera o ápice da população mundial em 2050, próximo a 10 bilhões de almas vivendo no planeta Terra, a oferta de alimentos terá de, no mínimo, dobrar e classifica o Brasil, com a sua agricultura tropical, o principal responsável, com um crescimento de oferta para essa nova demanda de, no mínimo, 41%. De um lado, nos convocam para essa dura tarefa e, de outro, indicam a nova e gigantesca janela que se abre à produção nacional de alimentos.

O mesmo ocorre com a energia renovável. Reconhecem esses países o infinito potencial brasileiro que já vem indicando em seu próprio sistema produtivo de energia renovável que suas fontes são as maiores do mundo proporcionalmente. E que os nossos recursos naturais nos levarão a ofertar também a energia limpa a muitos que não possuem condições de produzir essa energia em quantidade suficiente.

Nos fixemos, agora, principalmente na área alimentar. Torna-se fatalmente indispensável um programa que possibilite a certificação da qualidade com a devida rastreabilidade dos produtos que levaremos ao mercado internacional, que deverá levar intrinsecamente a garantia de uma qualidade que não pode gerar suspeitas ou dúvidas. Especialmente a certificação de sustentabilidade dos recursos naturais que usamos de nossos biomas tropicais. Essa é uma tarefa indispensável para que possamos ter a garantia de que nossos produtos possam se manter firmes na preferência dos mercados internacionais, já que, em preços e identificação da origem de alta sustentabilidade, já ganhamos a confiança de nossos consumidores.

Hoje, temos nos preocupado muito com os efeitos de uma celeuma provocada muito mais por radicalizações do ponto de vista ideológico do que de qualidade real. É evidente que isso nos preocupa, porque esse assunto é muito mais político do que de mercado. A verdade é que, para qualquer país que sinta que seu povo está de barriga vazia, pouco vai interessar se os produtos que necessita provêm da esquerda ou da direita, mas sim que tenham qualidade e certificação de sua produção como saudável para atender às suas demandas. Esse é um fato real que deve nos preocupar com maior ênfase, isto é, temos de acreditar a origem, a qualidade e o destino do nosso produto, e não se a cor é vermelha, azul ou amarela. Mercado é mercado, e o que ele precisa é ter no mínimo qualidade na oferta dos produtos que oferece, preços competitivos e constância de oferta para que o cliente não se sinta como chupando o dedo.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura