Herbert & Marie Bartz

O RESULTADO QUE NÃO É RESULTADO, DESABAFOS DE NOSSA CIÊNCIA

Bom, antes de começar a coluna deste mês, trarei algumas informações que penso serem pertinentes. Papi (Herbert Bartz) não tem estado na melhor de suas fases, anda com a sua saúde um tanto quanto debilitada e não tem estado muito disposto. Para tanto, as escritas da coluna mensal têm ficado sob minha responsabilidade. E gostaria de pedir que enviem orações e as melhores energias para a pronta recuperação de nosso dinossauro do sistema plantio direto, para que logo ele possa estar novamente conosco aqui contando suas histórias e compartilhando suas ideias. Neste mês, eu gostaria de abordar nesta coluna o tema “o resultado que não é resultado”! Este é mais um desabafo de como se move parte de nossa ciência e para que vocês também conheçam um pouco de como é esse nosso mundo científico/ acadêmico.

Começo lhes situando um pouco do processo necessário quando queremos publicar um artigo científico. De modo geral, analisando o mundo à nossa volta, tudo começa a partir de nossas observações sobre o que está acontecendo. A partir dessas observações, estabelecemos uma pergunta: por que algo está acontecendo? Criando, assim, possibilidades que podem ser testadas usando uma série de experimentos. Formulamos, então, uma hipótese, que é uma afirmação para definir por que algo acontece, sem evidências experimentais. Partimos, na sequência, para o experimento, que, em geral, é composto por uma série de testes que irão nos responder se a hipótese formulada está correta ou incorreta. Em seguida, realizamos a análise dos dados obtidos no experimento e comparamos estes com a hipótese. E, por fim, a descrição e a discussão dos resultados, findando com a conclusão, na qual apresentamos os dados do experimento e explicamos como estes suportam ou rejeitam a hipótese que formulamos. Posteriormente, outros cientistas usarão essas conclusões para realizar outros experimentos e descobrir novas informações. A partir desse apanhado todo, é redigido em um artigo científico, nas devidas normas, o qual passará pelo científica crivo de um editor e de revisores, que avaliam se o trabalho é adequado para a publicação ou não.

Pois bem... Toda essa explicação é para chamar a atenção e questionar a posição de boa parte de nossos cientistas que estão viciados no resultado final, ou seja, basicamente já partem de sempre contarem que a hipótese formulada esteja correta. Vou lhes relatar um caso... Considerando o panorama que vivemos hoje na agricultura, que somos quase a todo tempo condenados como sendo um setor que degrada e polui o nosso meio ambiente, um delineamento de um experimento é concebido para verificar, por exemplo, se determinado pesticida possui algum efeito negativo ou não sobre organismos do solo, considerados chave nas funções que exercem no ecossistema (minhocas, enquitreídeos e colêmbolos). Tal experimento inclui doses do pesticida extrapolando, em muito, a indicação de aplicação real na lavoura. Ao terminar o experimento, após coletar e processar os dados, os resultados mostraram que não há efeito desse químico sobre a fauna do solo avaliada, em qualquer uma das doses testadas. O que esperaríamos em um procedimento padrão de divulgação de resultados na ciência? Que esse trabalho, já no formato de artigo científico, fosse aprovado e disponibilizado para a comunidade científica para consultas, replicações e novos experimentos. Concordam? Mas não foi isso que aconteceu de fato com o referido trabalho... Até o momento, ele foi rejeitado por nove revistas científicas internacionais e está na terceira nacional (no Brasil). Em todas as revistas, o artigo não passou pela aprovação do editor, sob a argumentação de que a informação trazida não é de interesse para a revista (o não efeito de um pesticida sobre organismos do solo). Esse é um caso real. Extremo? Sim, mas é verídico e atual. Mas isso não vem dos tempos de hoje...

Eu mesma já vivenciei na pele esse vício dos pesquisadores em sempre esperar o resultado que querem. Há quase 15 anos, ao propor um trabalho que avaliasse as propriedades químicas e físicas dos excrementos de minhocas após a ingestão de determinado tipo de solo sob diferentes sistemas de uso do solo, ouvi o seguinte de um pesquisador: “Minhoca come terra, minhoca caga terra!” (desculpem o termo, mas é exatamente como me foi dito). E, claro, como criatura teimosa que sou e determinada no que eu queria fazer, tive que argumentar: “Sim, a minhoca come terra, e a minhoca caga terra. Mas não sabemos se o que sai é diferente ou igual ao que entra. E, mesmo que seja igual, não são muitos os trabalhos que temos sobre isso no nosso País”. Na época, só existia um trabalho no Brasil que apresentasse resultados e abordasse a temática que propus. São relatos em época distintas, mas que retratam o mesmo quadro, em aspectos um pouco diferenciados. Mas não deixam de ser preocupante. Como professora de disciplinas de estatística, sempre alerto meus alunos para esse vício. Que a preocupação deve ser focada em se conceber e delinear um experimento adequadamente, tendo todos os cuidados e utilizando métodos em seus testes apropriados e aceitos, para que estes possam nos fornecer dados e resultados seguros e confiáveis, independentemente se a nossa hipótese é atendida ou não. Porque o não resultado também é um resultado.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo