Palavra de Produtor

Fogo pelo mundo

Palavra

O geógrafo William Denevan desmentiu a tese de que antes de 1492 as Américas eram intocadas, sem a ocorrência de fogo. Ele relata que, nos primórdios da ocupação do território norte-americano, ocorriam extensas queimadas ao longo do rio Hudson, bem como nas pradarias no Meio-Oeste. No Beni, Bolívia, as savanas, em parte, foram expandidas pela promoção de queimadas em imensas áreas. Ali, ao longo dos séculos, elas produziram um ecossistema de espécies vegetais adaptadas ao fogo. No Brasil, a etnia Paresi faz uso sistemático de queimadas para a obtenção de caça, tendo a pirofilia se transformado num traço cultural.

Os noticiários no Brasil, ano após ano, entre julho e outubro, relatam o número dessas ocorrências, sem que o Inpe analise quanti-qualitativamente esses dados. Comumente, essas informações são associadas com o campo, como se fosse, ainda hoje, uma prática empregada pelo setor. É necessário desmistificar essa versão e enquadrar o tema, de tal sorte que, com a sensibilização dos gestores públicos, haja políticas adequadas de prevenção e combate ao fogo. A atividade agrícola – principalmente nos cultivos de soja, milho e trigo – tem, na cobertura do solo com os restos culturais oriundos das colheitas, uma ferramenta extraordinária de reciclagem e disponibilização de nutrientes e do crescimento da biota. É a busca pela melhoria nas condições para a produção sustentável, no sequestro de CO2 pelo plantio direto e na redução da pegada ecológica empregada para a produção de alimentos.

Exemplificando, quando o solo – que passou por décadas de cuidados em sua melhoria físico-química e biológica – é atingido por fogo, provoca prejuízos de, no mínimo, dez sacas/ hectare na soja só na safra seguinte, e a recuperação da matéria orgânica e da biodi...

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