Herbert & Marie Bartz

Nosso território, Nossas florestas, Nossas decisões

Herbert

Vivemos em um país que possui riquezas e abundância de recursos naturais que são invejáveis por outros países mundo afora. Tamanha é a nossa extensão territorial e capacidade que praticamente não precisamos nos preocupar com a disponibilidade de água e de solo, por exemplo. A ponto de sermos descuidados demais, acabamos não valorizando e cuidando adequadamente desses recursos, justamente por não nos faltarem (ainda). Riqueza essa em recursos que configurou nosso ambiente em cinco grandes biomas: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pampa, cada um com sua biodiversidade de plantas e animais particulares. O Cerrado e a Mata Atlântica são considerados hotspots, que são definidos como áreas com grande biodiversidade, ricas por apresentarem espécies endêmicas, mas, pelo alto grau de ameaça, já perderam mais 3/4 da área original. Espécies endêmicas são restritas a determinada região geográfica, ou seja, ocorrem ali apenas pontualmente.

Mas sabemos, também, da força que possui a agropecuária no nosso País. É indiscutivelmente a atividade que nos move, que mantém nossa economia e nossa balança comercial. Mas esse sucesso é justamente explicado pela exuberância em ambientes e recursos naturais que possuímos. A nossa agropecuária se desenvolveu principalmente por políticas de incentivo para colonização de regiões pouco povoadas (pelo homem branco) no País nos séculos passados. Portanto, mesmo já havendo leis para a manutenção de áreas florestais originais naquele tempo, o avanço em prol do progresso ditou as regras e falou mais alto. A ponto de estados como o Paraná – que, nos anos 1950, possuía em torno de 95% de sua área sob vegetação nativa –, atualmente, possuir em torno de 5% apenas. Uma mudança brutal na configuração de nosso meio ambiente, e fica impossível dessa ação não repercutir em consequências que nos afetarão, como mudanças em padrões climáticos, por exemplo.

No entanto, em contrapartida, temos, ainda, grandes extensões no País sob vegetação nativa, especialmente quando consideramos a Região Norte, que é também a mais significativa em tamanho territorial. E é inevitável não ver e analisar o cenário que temos hoje, especialmente considerando as mídias de comunicação quanto às notícias referentes às queimadas. Não somos a favor de queimadas e do desmatamento. Muito pelo contrário, somos um movimento de agricultores que lutam por um sistema de produção sustentável de alimentos, baseado no sistema plantio direto. Que, inclusive, é o mais indicado para recuperar os nossos, pelo menos, mais de 140 milhões de hectares de solos degradados.

Considerando que o SPD bem executado usa como referência para sua estabilidade e resiliência a diversidade de organismos e plantas, e as infinitas interações entre eles, presentes nas áreas de vegetação nativa. Portanto, a manutenção e a preservação dessas áreas como referencial e como fonte de biodiversidade para interagir com a agricultura são necessárias e imprescindíveis. Mas o que os dados históricos mostram é que as queimadas sempre estiveram aí nos assombrando, em alguns anos mais, em outros, menos. E o que está acontecendo neste ano? Por que para tanto estardalhaço? E, de repente, um Governo que assumiu o comando há pouco mais de oito meses é o culpado de tudo e, diante das críticas, deveria resolver tudo aqui e agora, atendendo e se submetendo ainda às exigências que os estrangeiros determinam que deve ser. Como assim? Nosso território, nossas florestas, nossas decisões em como cuidar e preservar.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo