Produtividade

Os fundamentos da PRODUTIVIDADE

O conceito de eficiência agrícola expressa a relação entre a produtividade no talhão – a real, a obtida – e o potencial produtivo possibilitado pelo ambiente – o resultado que poderia ter sido atingido

Carlos Melo, Henry Sako, João Paulo de Sá Santas, técnicos DataFarm e DK Cien Agro; Rafael Battisti, Universidade Federal de Goiás; Anderson Guido e Thiago Ibanez, técnicos da Copasul

A produtividade agrícola é o resultado do potencial produtivo subtraindo os efeitos negativos da interação dos fatores clima, solo e manejo. O primeiro nível a ser considerado é a produtividade potencial, valor teórico, que é função da temperatura, da radiação fotossinteticamente ativa, do fotoperíodo, do CO2, e do genótipo, em que, por exemplo, na região de Sorriso/MT, o valor alcançado foi de 180 sacas/hectare. Como a soja, em grande maioria, é cultivada sem irrigação, deve-se incluir o efeito do déficit hídrico (função da quantidade e da distribuição de chuvas, e da exploração do solo pelas raízes para absorção de água), chegando-se na produtividade atingível, valor que é a meta a ser atingida nas áreas de sequeiro. No exemplo, a produtividade atingível foi de 102 sacas/hectare, em que o déficit hídrico foi responsável por reduzir a produtividade em 78 sacas/hectare.

Manejo

Após o clima, os manejos realizados na lavoura (controle de pragas e doenças, distribuição de plantas e entre outros) são responsáveis por reduzir a produtividade quando estes são limitantes, chegando, assim, à produtividade real observada no talhão. Nesse caso, a produtividade obtida no talhão foi 54,7 sacas/hectare, em que a quebra por manejo foi de 55 sacas (oportunidade de ganho de produtividade), ou seja, de um total de 102 sacas disponibilizado pelo ambiente, apenas 47 sacas realmente foram convertidas em grão. Considerando essas informações, a eficiência agrícola foi de 46%. O conceito de eficiência agrícola expressa a relação entre a produtividade observada no talhão (real) e o potencial produtivo disponibilizado pelo ambiente (produtividade atingível). Assim, a eficiência agrícola torna-se um índice, entre 0% e 100%, que representa o sucesso da lavoura, ou seja, quanto mais próximo de 100%, melhor o manejo daquela área.

Neste sentido, a eficiência agrícola demonstra que o desafio técnico de produzir 100 sacas/hectare em condições ideais de clima pode ser o mesmo que produzir 60 sacas em condições extremamente adversas. O aumento da eficiência agrícola passa pela implementação de novos materiais genéticos de soja e o ajuste nas práticas agrícolas. Esse crescimento de eficiência tem aumentado a frequência de talhões de soja com produtividades acima de 100 sacas/hectare, condição, antes, de rara frequência. Esses talhões possuem como características em comum a fertilidade do solo e o manejo do sistema produtivo. Esses altos níveis produtivos estão elevando e desafiando os técnicos para a produtividade chegar a um novo patamar, explorando o máximo de produtividade disponibilizado naquele ambiente.

Fundamentos da alta produtividade — De forma geral, é comum se pensar em raízes de soja crescendo até, no máximo, 40 centímetros. No entanto, os talhões campeões de altas produtividades chegam a apresentar raízes de soja com dois a três metros de profundidade. O desenvolvimento radicular é um processo morfológico complexo, ligado às condições físicas e químicas do solo. A primeira premissa para o crescimento é a ausência de impedimentos, seja esta por compactação excessiva ou pela presença de alumínio tóxico no perfil do solo.

Em ambos os casos de limitação, o crescimento radicular é comprometido, reduzindo a produtividade. Além disso, a presença de nutrientes como cálcio (Ca), magnésio (Mg) e boro (B) em profundidade são essenciais para o aprofundamento radicular. O B é essencial para a divisão e o alongamento celular, além de ser importante componente para o funcionamento das membranas celulares. Já o Ca é o principal componente das paredes celulares, o que, além da rigidez, garante sanidade para as raízes e possui um papel importante na preservação da estrutura do solo. Por outro lado, o Mg é importante para a fotossíntese e para o transporte de carboidratos, combustível para o crescimento radicular.

A construção da fertilidade de subsuperfície é uma pauta constante pela sua dificuldade de correção, uma vez que os nutrientes, como, por exemplo, o Ca, são pouco móveis no perfil do solo, e os implementos agrícolas utilizados para manejo de solo chegam a uma profundidade máxima de 50 centímetros. Para que elementos nutricionais percorram o perfil do solo, é necessário que exista um fluxo de água, ou seja, ausência de barreiras compactadas e acúmulo de água em camadas superficiais. Além disso, o principal veículo de nutrientes em profundidade tem sido os bioporos, canais deixados por raízes já decompostas, que ligam as camadas superficiais às mais profundas do perfil. Para isso, raízes fasciculadas como as desenvolvidas pelas braquiárias são agressivas, chegando a mais de quatro metros de profundidade, favorecendo a uniformização química do perfil.

Nesse contexto, sugere-se uma nova forma de interpretar a necessidade de calagem, visto que as quantidades necessárias para a correção em profundidade são muito maiores do que as fórmulas tradicionais sugerem. Ademais, é preciso levar em conta as características mineralógicas do solo e a presença de alumínio tóxico até, pelo menos, um metro de profundidade, para, assim, chegar em uma quantidade ideal de aplicação de calcário e também de gesso agrícola e outros fatores que influenciam o pH do solo, como compostos orgânicos de baixo peso molecular e absorção de nitratos pelas plantas.

ratos pelas plantas. Para a interpretação dos cálculos e as recomendações de corretivos e adubação para a cultura da soja, é necessário levar em conta todos os fatores até um metro de profundidade, como pH, textura do solo, mineralogia do solo, teores dos nutrientes, presença de alumínio, teores de matéria orgânica, entre outros. Visto a quantidade de dados a serem considerados para a correta interpretação, é necessária a utilização de algoritmos computacionais para viabilizar esse processo.

A Fazenda Vaca Branca, do Grupo FJ, é um exemplo de resultado positivo da construção do perfil do solo na região de Naviraí/MS, que, após o diagnóstico da fertilidade do solo, nos aspectos químicos, físicos e biológicos, até um metro de profundidade, foram implementadas doses coerentes de corretivos e condicionadores do solo, além de corrigir o impedimento físico para a percolação de água no perfil, por meio de intervenção mecânica e raízes de gramíneas em 2018/19, um ano penalizado pelo efeito do clima. Os talhões corrigidos obtiveram a produtividade média de 59,1 sacas/hectare, explorando 93,6% do potencial atingível, enquanto os talhões ainda não manejados produziram, em média, apenas 44 sc/ha, demonstrando a importância da utilização de práticas corretas para o aumento da estabilidade produtiva. De acordo com o produtor Julio Jacintho, um dos integrantes do Grupo FJ, os resultados obtidos com o programa já na primeira safra foram suficientes para pagar todos os investimentos feitos com o projeto.