Gestão

Empresa familiar: o drama dos conflitos entre GERAÇÕES

Gestão

Luiz Marcatti, presidente da Mesa Corporate Governance

A chegada da nova geração impõe a convivência do tradicional – o modelo estabelecido – com o novo – e suas novas percepções e expectativas, por vezes querendo alterar tudo de uma vez. Para criar um negócio de entendimento em uma família ou em um grupo de famílias, é preciso alinhar interesses entre todas as partes

As empresas e os negócios, em seus diversos cenários, são palcos de convivência entre pessoas que se guiam pelo desejo e pela necessidade de poder e dinheiro. Quando essas relações são impactadas pela ambição, pessoal ou coletiva, o ambiente se torna propício a conflitos constantes que, se não administrados da maneira correta, podem levar a perdas importantes. No caso de empresas de controle familiar, acrescentam-se questões emocionais, naturais nas relações entre parentes, que podem potencializar os efeitos das disputas por poder e dinheiro, transcendendo o ambiente empresarial e misturando-se com as relações familiares. Algo bastante possível de ocorrer é o surgimento de conflitos entre diferentes gerações que convivem na sociedade e na gestão dos negócios, pela decorrência de mudanças naturalmente provocadas pela ação do tempo: fundadores envelhecem, filhos crescem e começam a trabalhar nos negócios da família.

Gestão

Marcatti: “As operações no agronegócio exigem um entendimento diferenciado, não comparável a muitos outros modelos de negócios”

A chegada da nova geração nos negócios cria uma expectativa sobre como irão conviver o tradicional e o novo, como será o relacionamento entre os que têm seus modelos estabelecidos e os que trazem novas percepções e expectativas sobre os negócios – não raro, querendo mudar tudo de uma vez. Não é diferente o que acontece no setor do agronegócio, independentemente do modelo formal presente. Em muitos casos, os negócios acontecem em patrimônios pessoais, as terras em nome de um ou de poucos familiares. Contudo, as características de decisão e condução das operações, se não tiverem regras e atitudes empresariais adequadas, acabam trazendo tensões nos relacionamentos que, se não forem tratadas, poderão se tornar conflitos de difícil solução. Alguns aspectos precisam ser levados em conta na preparação das pessoas e do próprio negócio, a fim de mitigar riscos dessa ordem, como os seguintes:

• No ambiente da sociedade: formalizar a relação com um Acordo Societário, de forma a definir as regras de convivência e de uso do poder, nas decisões mais relevantes para a companhia. Em empresas de controle familiar, esse documento inclui a definição sobre os processos sucessórios, dando o caminho mais adequado sobre como os herdeiros atuarão. Existem instrumentos legais que criam obrigação para esses novos sócios, no sentido de cumprir as cláusulas do acordo, mesmo não tendo sido seus signatários.

• No ambiente da gestão: abrir a possibilidade de a próxima geração vir trabalhar na empresa como uma opção de carreira, não apenas pelo fato de serem filhos dos donos. Muitos conflitos pessoais e familiares vêm à tona por causa de vocações profissionais frustradas pela obrigação de atender a um chamado dos pais. Outro aspecto decisivo será a capacidade de pais e filhos se relacionarem profissionalmente. Os pais devem dar claros sinais aos filhos e à organização de que não haverá um tratamento com privilégios, mas dentro das regras da empresa. Esses dois pontos talvez sejam os mais difíceis de serem cumpridos na íntegra, porém serão extremamente críticos caso não se realizem de fato, trazendo sérios prejuízos para a sociedade e para a empresa.

• No ambiente da família: aqui, tudo pode ser feito para mitigar e administrar os riscos da entrada das novas gerações tanto na sociedade quanto na operação e na administração dos negócios. Toda a família deve passar por um processo de entendimento e conscientização dos papéis e responsabilidades que têm, no sentido de criar e cuidar da estabilidade das relações entre familiares, sócios e profissionais, atuais e futuros, tendo sempre em mente a visão do coletivo, ou seja, o que é melhor para a família, para a sociedade e para o negócio.

Entendimento diferenciado — As operações no agronegócio exigem um entendimento diferenciado, não comparável a muitos outros modelos de negócios, por sua rentabilidade operacional, se comparado ao valor patrimonial das terras. Elas dependem de uma visão de retorno muito particular para seus sócios, em face do ativo empregado. Muitas empresas familiares, no mundo todo, alcançam sucesso nas suas áreas de atuação graças ao talento, ao esforço e ao desempenho de seus fundadores. Porém criar um negócio que alcança várias gerações dentro de uma família, ou de um grupo de famílias, depende de um alinhamento de interesses entre todas as partes envolvidas, propiciando uma visão de futuro com sustentabilidade, nas relações e nos negócios